Velejando de Salvador às Granadinas – III


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VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – III

Sergio Netto (Pinauna)

No dia 3 fomos abordados de novo na costa leste da Venezuela, perto de Trinidad, de dia, com tempo bom. Chegaram em silencio pela popa, chamaram em inglês sem sotaque, e se identificaram como ‘warship F-793’. Ostentavam uma bandeira francesa. A antena do radar dos caras era quase do tamanho da retranca do Blooper. Fizeram as perguntas de praxe, nome do barco, quem está a bordo, bandeira, registro, procedência e destino. Informaram a meteorologia. Quando perguntei se eram da Guiana, responderam “no, sixteen and out”. Esses gringos estão apavorados. Até os velejadores americanos se isolam com medo.

Hoje acabou o gelo e comi a penúltima banana. O despertador que estava sobre e mesa de navegação, que sacode a cada ‘marretada’ de onda no casco de sotavento, começou a enganchar e atrasar. Bruno já esta a fim de desembarcar. Nosso relacionamento esta ótimo, mas ele não tem visto americano e esta achando que já é tempo demais. Eu também; meus câncer de pele no braço já estão começando a se exibir.

Falei com Pedro Bocca de Ile Royale. Ele quer passar uma semana de executivo estressado, embarcando num sábado e desembarcando em dia marcado. Isto não funciona numa velejada. A gente sai do porto quando pode, e chega quando o vento deixa. Não confio que esta opção funcione para chegar a Fort Lauderdale.

No meu turno da madrugada de 3 para 4, fiz um registro em tempo real do diário de bordo:

BLOOPER,4 de novembro de 2003,31o dia de viagem,13o a partir de Fortaleza.

Acordei às cinco para duas, naturalmente, sem ser chamado e sem despertador. Tinha ido deitar às 23 horas, e estava pronto para meu turno de 2 às 5. Calcei meia e sapato, me vesti para a madrugada e fui render Bruno, que estava todo orgulhoso de ter feito o contorno pelo norte de Tobago enquanto eu dormia. Dei uma olhada lá fora, tudo normal. Vela mestra rizada, genoa bem regulada, caminho livre na proa. A lua estava a 10o acima do horizonte no poente, e clareava a noite. A cerca de 10 milhas ao sul, no través de bombordo, uma visão que há quase uma semana eu não tinha: terra à vista!

As luzes de terra pareciam inclusões de vacúolos em cristais de quartzo. Alinhadas, baixas. No final das luzes, piscava o farol, como um coração pulsante, um lampejo vermelho a cada segundo. O farol só se mostra depois que se faz o contorno da ilha. Para sudoeste um clarão esmaecido, possivelmente Plymouth+Scarborough. Passado o farol subimos um degrau de 700 metros no fundo do mar, cruzando a isóbata de 1000 metros, que aqui deflete para oeste e depois para norte, contornando o Tobago Trough, uma depressão fechada entre Barbados, Granada e Tobago. Canopus estava a 22o acima da última luz a sudeste. Por trás do farol, uma sombra alta, o cone vulcânico que está registrado na carta com altitude de 566m. Bonito o contorno da ilha que Bruno executou, conforme ficou registrado no track do GPS.

Às 2:10 a lua estava se pondo, com o limbo iluminado para baixo, formando um C deitado, de crescente. Ψ=11o32′ N, λ = 60o32′ W. Passamos a andar no rumo verdadeiro 286-290, proa na Prikley Bay, em Granada. A voltagem do banco de baterias caiu para 11,4 volts, e liguei o motor de BB às 2:25, engrenado à vante, 1700 RPM. Liguei o freezer.

Aldebaran estava no zênite. Saturno entre Gêmeos e Betelgeuse. Órion imponente, em ascensão, já a uns 80o. Capella a 56o, na ponta de um triângulo escaleno, voltada para o norte.

Havia um estratocumulus alongado, como se fosse um chapéu sobre a ilha, com base a uns 500m de altura. A visão era como do Monte Serrat para Itaparica, só que o coração pulsante do farol estava lá no oeste. A lua logo se pôs e ficou uma escuridão total à frente, Granada a 70 milhas. Júpiter estava nascendo, baixo no horizonte. Desci para ligar o computador, marcar os pontos na carta e mexer no GPS, e quando olhei de novo, Júpiter já estava a quase 15o de altura! Fiz o registro do track e salvei no Captain.

O vento era NE força 4 e o mar estava arrumado. Passagem tranqüila. Corrente para W-SW. Corrigi o rumo 3o para boreste. Alguém falou no rádio, com voz tranqüila. Não vi ninguém, mas acendi as luzes de navegação.

Um avião com luz estroboscópica passou por baixo de Júpiter, para SE. Ainda bem, esta é a forma adequada de andar para contravento: a jato!

Quando acordei, Marte já tinha ido dormir ha 3 minutos. Está 8o na frente da lua, a qual está com idade de 10 dias, @ 80%. O Cruzeiro do Sul vai nascer às 5:05, e ao crepúsculo matutino vai atingir a altura de 8o lá no sul. A Polar já esta no céu, a 11o de altura. A constelação de Touro está com o V apontado para oeste. Aldebaran esta na ponta mais a leste.

Apareceu um navio no horizonte, pelo norte. Parece ir em direção a Granada mas ainda está longe, não vejo as luzes de navegação. Olho de binóculo. É vermelha e está convergindo comigo. Vou desligar o motor e o freezer, que já tem uma hora e dez minutos. Também o vento refrescou, tenho que ir olhar as velas. São 03:40. Andei 12 milhas em 1h 40 min.

Ufa, que fome! Vou comer uma barra de cereais e fazer um cafezinho.

Senhoras e Senhores, acabo de adentrar o Mar do Caribe, vindo do sul. Já estou atrás de Tobago. Começa uma falação no canal 16, navio pedindo prático. O que vinha convergindo passa pela proa. Um cumulus preto se forma na popa. Olho nele!

Este negócio de fazer o registro em tempo real é uma trabalheira! Não dá tempo de fumar um cigarrinho! Será que André e Liana vão querer ler esta baboseira? Mas Tica vai, ela é danada; vou escrever para você, irmãzinha.

Vai navio, que quero desligar as luzes de navegação. A bateria voltou para 12 volts. Estamos andando a 6,1 no velocímetro e a 6,5 SOG. Rumo magnético 300, COG 285T. Declinação 15o W. Logo, tenho uma corrente favorável de 0,4 nó. A nuvem preta chegou sem vento. Ótimo. Vejo a luz de alcançado do navio se afastar. Ótimo. São 04:05 e começa um leve clarão a leste. Daqui a pouco é o crepúsculo matutino. Júpiter já está alto, meço com a mão, dá uns 40o.

Ligo a Rádio Barbados Broadcasting, em AM @ 900 khz, para tentar uma previsão do tempo. Chega alta e clara. É um programa de entrevista na madrugada, analisando o comportamento da juventude que faz pega de carro em Bridgetown. Desligo. Na frente, para oeste, uma escuridão total.

Gravo o track no computador e desligo. Guardo tudo e cubro com uma camiseta suada que vou jogar fora.

04:30 – Começo a ver o horizonte mal definido a 360o. Mas ainda não dá para navegação astronômica. As luzes mais baixas de Tobago começam a afundar. O farol continua piscando, agora fraquinho, na alheta de BB. O vento caiu e a velocidade do barco também, agora 5,5 nós. Previsão de chegada em Granada 19:03 GMT. Como estamos no fuso horário de Caracas, ETA é para cerca de 3 horas da tarde. Ótimo. Vamos jantar em terra hoje, e não terei que lavar pratos!

Opa, uma ‘estrela cadente’. Boa sorte para Lara! Que cresça saudável, forte, bonita e inteligente.

A temperatura da água está em 26,5 oC, 1o a menos que durante o dia. A água aqui no mar do Caribe é mais quente que na corrente Equatorial do Atlântico, 26,1 oC durante o dia. A esteira do barco não está fazendo ‘varinha de condão’, quer dizer, a água é pobre de algas.

04:46 – A nuvem preta passou pela popa. Deve ser de baixa pressão, porque o vento correu para cara 10o e aumentou 2 nós. Está agora 13 nós @ 80o da proa, vento aparente. Ótimo. Dei uma volta na catraca da escota da genoa e a velocidade subiu para 6,7. Catamarã é outra coisa!

05:01 – Bati na porta da cabine de Bruno, que respondeu de imediato, bocejando. O horizonte começa a se definir devagarzinho. O nascer do sol será às 5:56 HML e a cada dia que passa o dia vai ficando menor neste outono caminhando para inverno. Faltam 58 milhas, e vou dormir. Quando acordar às 8 já estou de agenda cheia: preparar a aproximação e a chegada em Granada. Hoje às 15 h completa exatamente 1 mês que largamos de Salvador. Muito bem, Blooper, você chegou ao Caribe e se comportou bem. No momento Ψ=11o37′ N, λ = 60o50′ W, rumo V285 vel.6-7 nós.

Bruno, precisa orçar mais 4o. Aproveite o seu turno.

Às 8 horas o dia estava radiante, com cumulus de bom tempo e visibilidade até o horizonte. Ψ=11°43’N ʎ=61°06’W. Faltam 41 milhas para o wpt Granada, que está claramente visível como um dromedário de 3 corcovas puxando um filhote, Carriacou. Na popa, também claramente visível, Tobago, pouco mais comprida que Granada. Pouco mais de 0,5 nó de correnteza nos empurra para WSW. A maré aqui é micro, coisa de 1 palmo. Vento E-NE força 4, com ondas de 1m vindas de NE. O Blooper deslisa suave a 6 kn.

A última banana, que era de Bruno, ele ofereceu dividir comigo no café da manhã. Também a última lima. Ainda temos duas laranjas, 2 maçãs, 8 ovos, 4 batatas, 1 tomate, 8 cebolas, 2 iogurtes e 3 nescauzinhos. O tanque d’água principal está a ¾. Gastamos 200 litros d’água de fortaleza para Granada, em 13 dias, incluindo a parada nas Îles Du Salut. Os tanques de diesel estão acima do meio, embora o marcador elétrico diga que estão cheios. Separei as cartas do Caribe que copiei de Beto Correia Ribeiro e botei feijão e carne de sol na panela de pressão.

O vento real caiu para menos de 10 nós, aparente 6-7, e a velocidade sobre a água 3,5 nós! É hora de gastar o óleo diesel poupado para garantir a chegada de dia. Acabamos de cruzar a isóbata de 1000m, subindo da Tobago Basin para o degrau vulcânico das Ilhas de Barlavento. Em cima de cada ilha fica um aglomerado de cumulus, dizendo que embaixo é terra. Um altão, bem ao norte, deve ser o vulcão Soufrière, em San Vicent. Ajustei o alarme da sonda, mudando de 60m para 4m. Às 15h ancorado em Prickly Bay, Spice Island Marine em 11m de profundidade, Ψ=11°59,7’N ʎ=61°45,7’W.

O odômetro do Blooper até aqui registrou 2819 milhas em exatamente um mês. Mais 400 milhas e teremos coberto uma distancia igual à do Arroio Chuí ao Rio Oyapoc, só que aqui foi em área tropical e a maior parte do tempo em mar de almirante. No momento estamos ancorados em Prickly Bay, Granada e está tudo bem a bordo.

Lembranças da viagem:

Ontem sonhei cruzeirando por trás das ilhas de Tinharé e Boipeba, o Pinauna, o Estripulia e o Puck. Às vezes, após o por do sol, ligo o computador, vejo o mapa do céu, a navegação com as cartas digitais, e jogo gamão no jelly-fish.

Bruno tem sido ótima companhia: disciplinado, trabalhador, organizado. Fez uma planilha que é um inventário do que existe a bordo, onde está cada item, controle do consumo e do estoque; fez outra para uso dos motores, que já quebraram cinco vezes; eles se revezam, só para manter a gente ocupado. O barco também andou quebrando, e Bruno sobe no mastro, mergulha e costura o que rasga. Não joga nada, mas também não da tempo. É metido a botar os temperos de Pedro Mutti nas comidas

Na véspera de chegar nas Iles du Salut, na Guiana, tínhamos 3 cenouras. No almoço Bruno colocou duas. Perguntei se não era esnobação, e ele disse que íamos chegar e ele compraria mais. Argumentei que em Salut não haveria disponibilidade e ele: deixe comigo, se lá existe uma pousada, haverá comércio, eu sou Administrador, e pela teoria é assim. Deve ser por essas e outras que Millor Fernandes dizia que ‘na prática a teoria é outra’. Vai ver que Millor se refere às teorias da administração, da economia e da política!

O corte pelo cone do Amazonas foi enriquecedor! O ano passado, quando desci o rio até Macapá, comecei a montar algumas hipóteses. Agora, analisando as correntes e o registro da ecosonda acrescentei mais algumas peças ao modelo do super-delta. Se me arrumassem um navio oceanográfico e um financiamento do CNPq bem que eu toparia mapear aquilo lá.

Análise de meus sentimentos com relação aos americanos após o encontro com o Carduff: em 1973-1974, quando morei lá, os americanos haviam acabado de ganhar a corrida espacial, pousado um homem na lua. Eram os líderes do mundo, os vencedores, e transmitiam um entusiasmo contagiante. Tinham o melhor padrão de vida do mundo, era o grande mercado consumidor, e eram também hospitaleiros, vencedores, seguros, ricos e orgulhosos, no bom sentido. Com a derrocada do império soviético em 1991, passaram a se considerar donos do mundo, e o orgulho virou intromissão, arrogância, prepotência. Montados na segurança de serem os mais fortes descuidaram do relacionamento humano, e descuidaram de si mesmos, tornando-se em pouco tempo uma comunidade de obesos conduzidos por fantasias hollywoodianas. Na virada do século foram atingidos no templo da sua cultura (world trade Center) por um adversário que consideravam desprezível. E agora, com a paranoia do terrorismo, tornou-se um povo amedrontado e acuado. Nada simpático. A companhia de americanos não transmite mais simpatia!

Granada é um paisinho com tradição agrícola de especiarias, dominada por crioulos, como todo o Caribe. Ancoramos às 15h do dia 4 de novembro, e desembarquei de caíque na alfândega às 15:55, porque fechava às 16. Mas o pessoal tinha ido embora às 15:45. But don’t worry, be welcome, use our facilities, and tomorrow you’ll make the entrance! O East Caribbean Dollar tem a mesma cotação que o Real. Água custa no pier EC$0,35/galão. Ao contrario de muitas outras ilhas vulcânicas pelai, esta não tem problemas com disponibilidade de água doce, mesmo com mais de 100 mil habitantes.

A meta de tirar o Blooper do pais está cumprida. Os arrendatários estão livres da multa de US$120 mil. O barco está inteiro e limpo, melhor que na saída. Acabei de fazer a entrada dele aqui em Granada; em seguida fomos a uma lan house mandar e-mails e depois almoçar na marina. No e-mail de Jairo, eu disse:

Bruno, que trouxe uma prancha, quer descer em St.Vicent, pegar uma balsa de linha e ir surfar em Barbados. Se Pedro Bocca vier, posso esperar por ele aqui em Granada, e subir ate Santa Lucia ou no máximo ate Martinica. Estaríamos entregando o barco lá pelo dia 15 de novembro. Ai a chance de furacão fica zero, e você podia vir com Ana e fazer o resto da viagem, mil e poucas milhas. Quinze de novembro Igor também já esta disponível, e é uma opção profissional. Outra opção profissional é o fulano de Fort Lauderdale, o que vai receber o barco, mandar um skipper com cidadania americana para Santa Lucia . Por ultimo, posso eu mesmo, com sua autorização, contratar um localmente. Isto é possível nas empresas de charter. Existem também velejadores tipo Luis Poesia fazendo volta ao mundo em seus próprios barcos, e precisando fazer algum dinheiro, e uma coisa fácil para eles é um delivery. Hoje Bruno sai a campo para tentar vender o barco por aqui. Ficou entusiasmado com a perspectiva da comissão.

No e-mail para Pedro e Felipe, eu disse:

Ate aqui a viagem foi uma velejada um pouco trabalhosa, com turnos a cada 3 horas, mas tranquila e de grande aprendizado. Agora começa a parte macia, praticamente day-sailing and a lot of fun (!). Pelo meu interesse, fazendo as Ilhas de Barlavento consigo visitar os vulcões importantes na formação deste arco de ilhas. Se vocês vêm, mandem um e-mail para mim ainda hoje, e espero vocês até sábado.

Pedro: o esquema de uma semana no ‘ultimo trecho’ acho que é uma furada. Das Ilhas Virgens até a Florida são 1000 milhas, e só ai já se gasta uma semana sem paradas. Venha por uma semana aqui pelas Ilhas de Barlavento, deixamos o barco conforme uma combinação com Jairo, e vou com você de avião para suas compras em Miami.

Felipão, esta disponível para você uma cabine de popa, com cama de casal, armário e sanitário privativo. Também, para quem esta acostumado a andar de primeira classe, não podia ser diferente. Os velejadores de meio barco quando chegam a bordo, não conseguem disfarçar uma expressão de inveja. O Lagoon 41 para uma viagem destas é sem duvidas um barco de sonho!

No dia 6, uma quinta-feira, saímos de taxi pela ilha. Comprei o livro do Cris Doyle, guia das ilhas de barlavento, levei o motor de popa para consertar, fiz xerox da documentação de entrada em Granada para o pessoal da BYC, abasteci 16,6 galões (60 litros) de diesel e já que não temos SSB anotei as estações AM que fornecem previsão do tempo: Granada, 535kz e St.Vicent 705kz.

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