A Tempestade – Parte 17


nat rec 2012 (12)

A conta gotas! É assim que defino a Tempestade contada aqui pelo amigo e velejador Michael Gruchalski, mas nem por isso deixa de ser uma história fantástica, já que o Michael sabe como prender a atenção do leitor. O último capítulo da Tempestade foi publicado aqui em 29/03, VEJA, e naquela postagem torci para que o velejador não resolvesse hibernar durante o Outono. Faltou pouco! Há, ia esquecendo de dizer que a imagem que ilustra esse texto é do amigo, velejador e fotografo Marcelo Barreto, feita durante uma dura velejada a bordo do Avoante entre Natal/RN e Recife/PE.

A TEMPESTADE

A APROXIMAÇÃO DA COSTA – Michael Gruchalski

Seis hora da manhã. A vela de proa não trabalhava mais por falta de vento. A escota batia nos brandais com um ruído metálico que ecoava na mastreação. Nosso motor funcionava bem, quase em marcha lenta, empurrando o barco a apenas dois nós. Como o mar estava relativamente calmo, naquela velocidade, ainda dava para segurar a cana de leme por dentro sem que o conjunto derrapasse e saísse da água. Na descarga, pela popa, aquele som seco e ritmado dos gases e da água de refrigeração. Transmitia uma sensação de conforto para meus amigos que dormiam no cockpit e outra sensação de segurança em mim que segurava a cana de leme.

Dali a pouco, para acelerar e aumentar a velocidade, alguém teria de ir para o trapézio e manter com a força da perna o leme para baixo. O sol jorrava seu calor por cima dos nossos corpos cansados. Nuvens altas, bem brancas e soltas vinham agora do sudeste. Denunciavam um dia de calor intenso. Como nós, o mar, cinco horas depois da tempestade, decidiu descansar também. Havia, entretanto, ainda pequenas ondas desencontradas. Algumas, mais teimosas, batiam secas no costado e sacolejavam o barco. Elas eram o resultado direto da mudança da direção do vento que girara de madrugada exatos cento e oitenta graus, de noroeste para sudeste. Dentro de duas ou três horas, até elas, dormiriam.

Nosso rumo era sudoeste, quase oeste. O gps indicava que estávamos a onze milhas das primeiras plataformas de petróleo e dezessete do farolete na entrada do rio Sergipe em Aracaju. Não dava para ver nada no horizonte pelo nossa proa, mas mais à direita, bem no leste, reconheci, na bruma da manhã, uma tênue faixa de terra cinza clara. Que bom, pensei. Sergipe estava ali. Terras, praias e cidades do norte do estado, bem próximas à capital. Perto, mas longe.

Em condições normais, três horas de viagem. Uma vez lá, aguardava-nos a temida barra rasa do rio Sergipe onde ficava o Iate Clube. Sem ajuda de algum barco piloto, com certeza, uma aventura no escuro. Nossas cartas eram confiáveis, claro, mas elas não tinham nenhuma ideia de como haviam sido as movimentações aleatórias dos bancos de areia do canal desde os tempos em que haviam sido impressas ou digitalizadas. Investir pela barra de um rio, encontrar e seguir pelo canal profundo que sempre existe, é uma arte reservada a navegadores locais. Poucos metros fazem a diferença entre encalhar ou passar. Forasteiros, como nós, devem ficar ao largo, aguardar socorro de reboque ou procurar um porto seguro em outro lugar.

Eu vi primeiro.

Debruçado no leme, procurando descansar, vi, pelo leste, um ponto preto na linha do horizonte. Um barco! Um barco de pesca, com certeza. Não havia dúvidas, era um barco de pesca. Pequeno demais para ser um navio, próximo demais para ser um ponto em terra e muito definido nos contornos para ser a ponta de uma plataforma. Só não dava para definir se estava vindo em nossa direção. Precisava esperar um pouco. Não acordei meus amigos. Eram sete e meia. Viesse de onde viesse, havia saído de madrugada para pescar, logo após a tempestade o que significava garantia de tempo bom.

Um vazio na barriga lembrou-me da fome que sentia. Larguei a cana e fui buscar uma fruta na cozinha. Rapidamente, quando voltei ao cockpit e olhando aquele ponto fixo no horizonte, conclui que o barco vinha rápido, um pouco a bombordo da nossa proa, abrindo um ângulo para o leste. A julgar pelo rumo e velocidade, iria passar longe de nós. Estava indo para o alto mar, para a linha dos quarenta metros de profundidade, para pescar.

Com apenas uma palavra “acorda” e um leve toque no braço, despertei meus amigos de um sono profundo. Ficaram de pé instantaneamente, os olhos fixos na direção que eu apontava com o braço. O filho do capitão foi na proa baixar a vela. O capitão desceu à procura da caixa dos fogos de segurança. Voltou com ela e um lençol de dormir debaixo do braço. Trazia também alguns prendedores de roupa de varal. Discutimos a hora certa de colocar o lençol pendurado no estai de proa e a hora certa de lançar os pirotécnicos de segurança. O filho do capitão, que não tinha tirado o tênis, foi para o trapézio. Engatou a adriça da mestra no mosquetão peitoral que não havia tirado do corpo a noite inteira e subiu no espelho de popa firmando a perna na parte

externa da cana de leme. Quando fez um sinal de positivo baixei três dedos o manete do acelerador e o motor respondeu. Ao mesmo tempo, empurrei a cana de leme para boreste e a proa ganhou, para bombordo, aqueles poucos graus que estavam nos afastando do barco de pesca. Agora, estávamos rigorosamente na direção dele. Em quinze ou vinte minutos poderíamos chamar a sua atenção com os fogos e o lençol branco na proa. O capitão desceu, ligou o painel elétrico e chamou pelo VHF:

— Atenção barco de pesca, atenção barco de pesca.

Não tínhamos certeza de que o rádio estava emitindo o sinal pela antena. Ela estava lá em cima mas não tínhamos certeza. A dúvida ficou mais forte quando ninguém respondeu. Aliás, pescador anda de VFH ligado? Acho que não.

Apesar da nossa mudança de rumo, agora sul, o barco de pesca continuava ignorando nossa presença: não mudou seu próprio rumo. Ou não percebeu nossa intenção, não podíamos saber. Quando a distância diminuiu para três milhas e essa seria a menor distancia conseguida por nós, segundo nossa observação, soltamos o primeiro pirotécnico: um “estrela vermelha”.

Não foi uma boa experiência. Quando o capitão puxou o cabinho do gatilho, o artefato explodiu na sua mão, metade para trás, metade para frente. Um jato de pó vermelho, muito curto e baixo, cruzou o ar e se desfez em poucos segundos. Além do tiro seco, ouvi o capitão soltar um berro de dor, a mão recolhida junto ao corpo. Vi que estava toda chamuscada, dos pulsos ao dedos, da reação química. Não era queimadura provocada pelo fogo normal que levanta bolhas instantâneas. Eram os vestígios da pólvora e agentes químicos do foguete, grudados na pele. Coisa feia de se ver mas sem maiores consequências. O berro foi mais do susto do que da dor. Com cara de raiva e assustado, o capitão limpou a mão na roupa. Disse um palavrão quando eu expliquei para segurar com a ponta dos dedos o próximo pirotécnico que saiu da caixa oferecido por mim: o “estrela vermelha com paraquedas”. Mais comprido e volumoso, esse prometia resultado caso fosse alto para o céu soltando fumaça de seu paraquedas por longo tempo. Também tínhamos o bojudo “fumígeno flutuante” que seria o próximo.

Enquanto o filho do capitão prendia desajeitadamente o lençol com os grampos de roupa no estai de proa, o capitão, pegando, dessa vez, o pirotécnico com a ponta dos dedos, o tubo virado com o gatilho para baixo sem ameaçar a palma da mão, acionou o gatilho, uma cordinha e o artefato pipocou sua carga para o céu. O lençol, lá na frente, por causa da brisa fraca, não queria ficar no lugar, não queira esticar. Dava, entretanto, para ver de longe que havia algo branco, diferente de uma vela chamando a atenção de quem passasse. O paraquedas abriu, acho que a uns vinte metros de altura, o dobro da altura do nosso mastro. Uma fumaça vermelho-amarronzada, por sinal, bem fraca em intensidade para minha surpresa, começou a colorir um pedaço do céu em cima das nossas cabeças. Era muita pouca fumaça, pensei. O barco de pesca, que pelos contornos escuros devia ser preto

, já estava bem definido, conforme suspeitei, mas não fez menção de virar.

Esperamos o paraquedas se apagar antes mesmo de cair na água a uns cem metros do nosso barco. O filho do capitão balançou os braços. É óbvio que não dava para eles verem nada, mas nós balançamos também.

— Vamos soltar o fumígeno.

Quando acabei de dizer isso, o barco de pesca virou a proa em nossa direção. Abrimos três sorrisos largos. Ia demorar pelo menos vinte minutos para ele chegar. O capitão estava excitado. Precisávamos combinar rápido como contar a nossa história, planejar o que dizer, o que pedir, o quanto oferecer por um reboque, até aonde, por quanto, como pagar, como agradecer sem demonstrar muito desespero.

O filho do capitão voltou para trapézio e pediu mais aceleração. Fui buscar o binóculo no interior do barco. Apareci com três maçãs e uma Coca-Cola. Não parávamos de discutir o preço, o preço justo, aceitável de um reboque até Aracaju. Nosso barco, depois de ter dado um trezentos e sessenta completo assim que o filho do capitão abandonou o trapézio para ajudar com o lençol, agora, acelerado, com o retorno a seu posto de timoneiro, comportava-se bem, ajudado pelo mar cada vez mais liso.

O capitão e eu sentamos no convés, as costas no mastro, para esperar. E observar. Binóculo em uma mão, maçã na outra. Nossos barcos estavam literalmente em rumo de colisão. Mais cinco minutos e confirmamos que era um barco de pesca mesmo, afinal, o que mais poderia ser àquela hora indo para alto mar? E era cabinado no centro. Nossa dúvida era saber como aquilo ou aquele barco, que já fora pintado de preto um dia, sujo e maltratado, ainda flutuava. Seu aspecto era demolidor: cestos e isopores imundos e mal arrumados no teto da cabina, pedaços daquilo que já fora um toldo batendo ao vento na popa, redes de nylon, bujão de gás, caixas de captura de lagosta, cabos, tambores de diesel, tudo amontoado na proa e deck lateral. Tudo com aparência horrível, coberto de sujeira, vestígios de óleo e betume solto das anteparas.

Resmunguei para o filho do capitão que desacelerasse nosso veleiro, ele obedeceu e quase paramos. Agora dava para reconhecer: três… não, quatro pessoas, o primeiro sentado em cima de algo na proa, o timoneiro de pé na porta lateral da cabina, um outro que aparecia e sumia na popa por causa do nosso ângulo de visão e um rapaz, visivelmente mais novo, pendurado na escada que levava do convés ao teto da cabine. Demorou apenas mais um pouco para reconhecermos, pelo binoculo, que teríamos que lidar, pelo aspecto das roupas, com pescadores maltrapilhos, barbudos e magros. O capitão, que segurava o binóculo, soltou um palavrão, ainda incrédulo pela oportunidade oferecida e pela dúvida do sucesso no diálogo com aquele tipo de gente.

Pescadores sim, mas com cara de poucos amigos, mal encarados. Percebia-se agora também que estavam carregados de gelo e rancho suficiente para passar vários dias no mar.

—- Pulmão de aço, disse, Pulmão de aço, eu acho que é isso, Pulmão de aço.

Eu não conseguia ver e, no início, não entendi, mas o capitão enxergara, com a ajuda do binóculo, o nome do barco. A menos de duzentos metros de distância, também consegui decifrar a olho nu as muito mal desenhadas letras do nome do barco, no costado. Quando chegou a uma distância que nós pudéssemos nos comunicar ao gritos, mudou de rumo, passou pela nossa popa e começou a ensaiar um grande círculo a nossa volta. E isso, sem baixar a velocidade. Vi que tinha uma pequena antena de VHF. Pelo visto, ou andava desligado ou não tinham tido interesse em conversar conosco, quarenta e cinco minutos antes.

Nosso “bom dia” foi respondido com um “qual é de boa”.

Nosso “estamos sem leme” não teve resposta, apenas um momento de silencio.

Nosso “precisamos de reboque” provocou uma rápida discussão entre eles que não conseguimos ouvir, dois gestos de desdém, um vira costas, um coça cabeça e uma resposta monossilábica em números gritadas contra o vento, na nossa direção: “vinte mil”.

Nosso “é muito” foi, apesar de não termos certeza por causa da distância que nos separava, seguido de uma risada seca e algo dito entre eles sobre “o iate”.

Sem esperar uma contraproposta e antes de completar a segunda volta em torno do nosso veleiro, o barco deles partiu mais acelerado do que veio, rumo ao alto mar. Foi ficando pequeno até desaparecer.

Para nós, o preço justo seria três mil.

Eram nove horas da manhã. Sol alto, calor, mar calmo. Fim da negociação.

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