A face obscura do sim


cidade01 Janeiro (98)

O cockpit do Avoante é a caixa de ressonância onde me recolho para escutar os dramas que envolvem as cidades. É neste mundinho tão pequeno, com pouco mais de três metros quadrados, que me vejo atordoado com os ecos trazidos pelos ventos que chegam muitas vezes acompanhados de amedrontosas nuvens negras. Embasbacado, observo que nós humanos nos consumimos feito vermes em meio à podridão que se espalha por todos os lados com a leniência de nossa vã consciência que é sempre tendenciosa em favor dos desmandos.

Aplaudimos, abençoamos e engolimos as migalhas atiradas por governantes que sabem muito bem que temos paixão em viver a vida de pombos. Voamos em cima do milho jogado nas calçadas da vida sem nem saber se é ração ou veneno. Mesmo assim, se for uma coisa ou outra, somos obedientes e baixamos a cabeça, tanto para agradecer o alimento, quanto para desculpar a armadilha cruel. E o pior de tudo é que o nosso cabedal de desculpas é depositado em um arquivo sem fim e sem regras, pois o que vale mesmo é desculpar, lavar as mãos e partir para outra.

Se a cidade chora é chegada a hora de armar o circo. Se a cidade sente fome e chegada a hora de espalhar o pão. Se a cidade reclama e chegada a hora de mostrar o que ninguém consegue enxergar. Se a cidade adoece é chegada a hora de remediar. Se a cidade acalmou, tudo volta a ser como antes até que os pombos voltem a se alvoroçar.

Uma leve brisa de través faz o Avoante se mexer na ancoragem para mudar o cenário da paisagem. Mesmo assim continua chegando ecos do desespero vivido nas entranhas da cidade e que já alonga seus tentáculos sobre os mares. Ecos da violência que a cada dia retrocede no tempo e nos leva a viver o tempo das barbáries.

Para esse mau não existe remédio, nem pão, nem circo, mas existem ainda os louros da desculpa, em que se debruçam filósofos, psicólogos, analistas, palpiteiros, psicanalistas, juízes, promotores, religiosos, políticos e uma infindável comitiva de entendidos e muito bem pagos. Todos convergem para o foco da causa, mas divergem dos efeitos do antidoto para aplacar o vírus, pois o soro passará inevitavelmente nas suas próprias veias.

Do meu cantinho no cockpit tento enxergar o rosto de algum cristão, ou ateu, que ainda arregale os olhos para a crueldade da violência desmedida que assola as ruas, invade lares e não distingue mais ninguém. Os atos estão cada vez mais bárbaros e dotados de uma crueldade que nem os vermes ousariam ter.

Não existe mais o espanto natural do ser humano. Não existe mais a revolta natural daqueles acometidos pelo furor do mau. A mente calejou e agora tudo que vier é normal e entra apenas para a área dos números onde não somos nada. Fomos expulsos do mundo dos sentimentos e caímos no lamaçal sem alma do quadrado das estatísticas. Deixamos de ser humanos e continuamos aplaudindo, dando vivas e defendendo nossos reis e rainhas em seus castelos emporcalhados.

Um novo balanço, dessa vez provocada por uma marola, e mais uma vez o Avoante rodopia sobre a ancoragem. Será que meu veleirinho tenta me mostrar novos ares para me forçar a olhar com mais serenidade para a cidade? Não sei, mas um grito agudo me aflige a alma e me faz navegar no vazio da razão.

O vento faz chegar até mim palavras soltas, fragmentos de frases, buxixos vindos dos becos e me recordo do início do livro Tocaia Grande, do baiano Jorge Amado de todos, e lá está escrito assim: “Digo não quando todos dizem sim em coro uníssono. Quero descobrir e revelar a face obscura, aquela que foi varrida dos compêndios de História por infame e degradante; quero descer ao renegado começo, sentir a consistência do barro amassado com lama e sangue, capaz de enfrentar e superar a violência, a ambição, a mesquinhez, as leis do homem civilizado. Quero contar do amor impuro, quando ainda não se erguera um altar para a virtude. Digo não quando todos dizem sim, não tenho outro compromisso”.

Tocaia Grande é uma obra viva, atual e incrivelmente moderna para o momento em que estamos vivendo. É difícil a cidade dizer não, principalmente nos seus bolsões de miséria, e por mais que sejamos massacrados pelos desmandos que gera o caos, continuamos dizendo sim, pois é nisso que apostam aqueles disfarçados de bons moços.

A violência está ai, sem disfarce, sem mascara, sem subterfúgio, sem freio, sem controle, sem fronteiras, multifacetada, se renovando a cada segundo e assumindo sem medo que é a dona da razão. A barbaridade impera sobre nossas cabeças, mas infelizmente vamos continuar dizendo sim.

Vida de pombo? Acho que nem para isso servimos.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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4 Respostas para “A face obscura do sim

  1. Grande Cmt Nelson; tudo isso é realmente verdade, sim; perdemos a INDIGNAÇÃO, é como perder a vergonha.
    Citando Jorge Amado em OS VELHOS MARINHEIROS OU O CAPITÃO DE LONGO CURSO, “a verdade é nua”, isso é espantoso, imaginar a verdade nua com suas vergonhas de fora, sem nada para tapar, mas não é só, “a verdade está no fundo de um poço”. Difícil imaginar a verdade nua e abandonada, jogada no fundo de um poço… A verdade que tanto prezamos, no fundo de um poço escuro, úmido e frio, e ainda por cima nua, a verdade que tanto buscamos está lá, porque alguns deixaram que ela fosse parar lá, nessas condições.
    Os que deviam buscá-la não passam da beirada do poço, entrar nesse poço onde ela se esconde? Não acho que vão.
    Mas olhe para onde o Avoante aproa entre uma marola e uma rondada de vento,
    Um grande abraço

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  2. Lúcio Flávio A. Costa

    Olá Comte. Nelson! bela reflexão, me recordo agora da minha infância no interior do sertão onde ia passar minhas férias. Me lembro da simplicidade e da bondade das pessoas, não tinha luxo nem riqueza, mas havia alegria e todos se contentavam com o que tinham e o pouco que tinham compartilhavam. O ser humano avançou muito na área tecnológica, mas infelizmente regrediu na convivência. É uma pena, espero que isto mude, pois estamos nos tornando prisioneiros de nós mesmos. Que Deus tenha piedade desta humanidade. Grande abraço!

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  3. queridos amigos com os olhos da carne o Nelson viu a realidade desta vida , mas eu que creio em Jesus Cristo o Salvador lembro vcs que :
    TODOS QUE ESTÃO CANSADOS E OPRIMIDOS VENHAM A MIM QUE EU VOS ALIVIAREI .
    Esta promessa é para os creem no senhor , teremos pastos verdejantes , lembram do tempo que o povo de Deus andou no deserto e nao lhes faltou alimento e abrigo ? pois é a travessia do deserto era programado para 2 anos , mas devido ao povo ter se desviado de Deus ficaram 40 anos , entao eu termino a reflexão de hoje dizendo entreguemos nossas vidas nas mãos de Jesus que Ele fará a diferença em meio a todas as adversidades

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