Sacrifício


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“Sacrifício é a prática de oferecer como alimento a vida de animais, humanos, colheitas e plantações, aos deuses, como ato de propiciação ou culto. O termo é usado também metaforicamente para descrever atos de altruísmo, abnegação e renúncia em favor de outrem.”

Fui buscar essa definição nas páginas dos dicionários digitais por casual curiosidade, pois no meio náutico sempre ouço alguém dizer que vai fazer um tremendo sacrifício para aceitar o convite de um amigo ou de um familiar para uma velejada. Sendo assim, o passeio não tem a menor possibilidade de ser divertido.

Alguns velejadores ainda se apegam na palavra para chantagear a esposa e fazer que ela o acompanhe nas suas aventuras pelo mar. – Poxa, eu faço tanto e você não pode fazer um tantinho assim por mim! E assim, lá vai a esposa se submeter ao sacrifício. Vai uma vez e escapa pela tangente tantas outras puder escapar.

Não é com sacrifício que se aprende a gostar de velejar, mas sim com muita boa vontade e querer. Sou da opinião de que nada que se faça com sacrifício seja prazeroso, principalmente no mar.

Até velejadores experientes se apropriam do nome para dar mais veracidade e drama as suas conquistas. Muitas vezes a navegada nem foi das mais difíceis, mas como o intuito é impressionar o público, eles fazem questão de levar o sacrifício ao pódio. E alguns chegam até a derramar lágrimas.

As religiões adoram falar no tema e existe até uma certa teologia do sacrifício que apresenta diversas razões para a realização do sacrifício. Quando não é um animal que esteja passando por perto, o sacrificado pode ate ser alguém que não reze na cartilha do reverendo, mas nunca ele e nem os seus.

Graças a Deus que no Novo Testamento está escrito que o sacrifício hoje em dia é coisa desnecessária, pois Jesus Cristo cumpriu todas as exigências da lei judaica e se ofereceu ao sacrifício expiatório, recebendo todo o castigo pela culpa dos homens. Mesmo assim outras correntes religiosas não querem nem saber dessa verdade e ainda sobra sacrifício para um bocado de animal e gente desavisada. Quando existe a fé cega e a faca amolada não tem lei no mundo que mude a sina do sacrificado. Mas vamos deixar as crenças de lado e vamos voltar para o nosso sacrifício no mar antes que eu seja sacrificado pela ira santa.

Esse assunto me encucou enquanto conversava com alguns amigos sobre a sombra de um palhoção de clube náutico. Nesses ambientes refrescantes e regados a bons goles de cerveja estupidamente gelada sai tudo quanto é conversa, só não sai mesmo é a coragem de enfrentar o mar.

Um velejador que fazia parte da mesa etílico gastronômica disparou: “Eu nunca chamei minha mulher para velejar comigo, porque sei que ela não faria esse sacrifício por mim”. Outro mais ousado falou assim: “A minha já veio uma vez, mas quando o barco adernou ela deu um grito, ficou tesa de medo e pediu chorando para retornar ao clube e nunca mais entrou no barco”.

Fiquei ali um bom tempo ouvindo as opiniões e imaginando até onde aqueles meus colegas desejavam realmente que as esposas embarcassem. Todos se achavam donos da situação e da verdade e nem de longe passava pela cabeça deles que o problema estava neles e não nas esposas.

Lucia gosta de dizer que velejar é um sonho do homem e a mulher apenas acompanha por querer estar junto daquele que ama. Se ela tem razão, o que eu acho uma verdade, então porque não se trabalhar com a vontade de fazer com que elas embarquem nesse sonho? Não ofereça o sacrifício como solução e sim a compreensão e a paciência da conquista.

Se o meu colega que acha que a mulher nunca ira navegar com ele fosse um pouco menos egoísta conseguiria convencer a tripulante a embarcar. Se o outro que adernou o barco a ponto de traumatizar a esposa fosse mais delicado na regulagem das velas, com certeza a esposa ainda hoje estaria a bordo. Afinal a velejada era apenas um passeio de fim de tarde e não uma regata.

Não existe teoria e nem papel passado em cartório sob a benção de um juiz para se conseguir a esposa como tripulante. Existe sim, afinação, compreensão, companheirismos, amor e querer estar junto. Sacrifício jamais.

Já falei aqui que o mar não é laboratório para se testar a paciência dos outros e muito menos altar para oferecer alguém em sacrifício. Deixe isso para os bárbaros da fé, que deles se encarregaram os deuses do juízo final.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Uma resposta para “Sacrifício

  1. Sensacional! Somente as palavras de um mestre experiente e sábio para escrever linhas tão bem alinhadas. Me tornei leitor assíduo do Diário do Avoante. E estou amando.

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