Velejando de Salvador às Granadinas – I


 

image Hoje vamos dar início a mais uma história do mundo da vela e mais uma vez ela vem com a assinatura do velejador baiano Sergio Netto, Pinauna, que, para nossa alegria, decidiu abrir seus arquivos para nos presentear com seus belos e educativos textos. Dessa vez navegaremos, através das letras e sonhos, de Salvador até às Granadinas a bordo do catamarã Blooper, um luxuoso Lagoon 41. Publicarei essa “fofoca náutica”, como batizou o autor, em quatro capítulos.

VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS – I

Em setembro de 2003 a BYC – Brasil Yacht Charter resolveu desativar sua filial de Salvador porque o retorno do investimento era baixo, e a Policia Federal deu um prazo para pagamento do imposto de importação dos veleiros que ela trouxe em comodato. Jairo Zollinger, meu vizinho de atracação na Bahia Marina e gerente da BYC me comunicou que estava procurando um skipper para devolver os barcos para os Estados Unidos. Já que ele não queria levar, eu achei que era uma oportunidade velejar um Lagoon 41 e disse que levaria grátis, isto é, como se estivesse fazendo um charter com as despesas pagas e passagem de volta para dois tripulantes.

Ele consultou os proprietários que aceitaram a proposta, desde que eu saísse imediatamente, mesmo nesta época de furacão no Caribe. Dia 26 de setembro assumi como comandante, e foi feita a saida na receita federal, policia federal e capitania. Dia 28 visitei Beto Correia Ribeiro e Fafá e peguei as cartas do Caribe e os conselhos de onde parar e por onde navegar. No dia 1 de outubro fui com Jairo, Joba e Bruno, filho de Joba, recém-chegado da Austrália, de lancha para a Ilha das Canas ver o Blopper. Fiz orçamento para as despesas da viagem, US$4250 (menos da metade do que eles pagariam a um profissional) que me foi adiantado; testamos o barco e Bruno foi aprovado para ir até o Caribe. Igor estava revisando o piloto automático.

Dia 4 de outubro recebi o catamarã às 11:30 na Bahia Marina, levado por Gordon – gerente de náutica da Ilha das Canas, e o filho dele. André, Gilca, Liana e Lara chegaram ao meio dia para se despedirem. Igor ainda estava em cima do mastro concluindo a revisão do anemômetro. Larguei às 14 horas, com Joba, Bruno, Pedro Mutti e Adriana. Nenhum deles tinha visto de entrada para os EUA. Ficou combinado que deve embarcar pelo menos um tripulante, com minha aprovação, lá pelo Caribe. O Sereno acompanhou até o Iate. A tripulação com ótimo astral e cheia de entusiasmo.

clip_image004Quando contornamos o farol da Barra foi servido almoço de feijoada. À meia noite estávamos com o farol de Garcia D’Ávila (2 piscos a cada 10”) pelo través, vento 10 kn, velocidade 4kn. Decidimos os turnos: Bruno 0-2 e 16-18.; Sergio 2-4 e 18-20; Pedro 4-6 e 20-22 e Joba 6-8 e 22-24h. Na manhã do dia 5, um domingo, matamos um peixe no arrasto. Fechamos o tanque grande que deve ter gasto 40 l, e abrimos o tanque pequeno de bombordo, de 100l. Às 13h, com 23h de velejada estávamos a 12°09’S 37°35’W, 90 milhas de progresso num bordo unico de contra-vento e contra-corrente. O odometro marcou 107 milhas, portanto 17 de correnteza. Jantamos o peixe, feito com ervas. Ontem no meu turno de 2 às 4 pegamos duas nuvens pretas com rajadas de 25kn. Mas foi rápido e não precisou fazer nada. Hoje ao anoitecer baixamos a mestra para o primeiro rizo. No meu turno da magrugada entrou vento com refrega de 30 nós, e houve stress para enrolar a genoa @ 60%. No dia 6 demos um bordo para fora defronte a Mangue Sêco com os dois motores por duas horas. Lavamos o cockpit e nos reunimos com musica de Caetano e clip_image006Willie Nelson para o almoço. Dormi à tarde. A noite foi tranquila com a mestra no 2º rizo. Progresso diario às 14h 101 milhas no contra-vento. Dia 7 encostamos em terra na Barra de São Miguel, Alagoas, as baterias com 11,5 V, e demos um bordo para fora a motor. Instalamos o 3ºrizo com o cabo do 1º. O almoço foi magnífico, mangalô de muqueca com lombo desfiado, farinha e arroz. Às 13h estávamos de novo junto à praia; ao ligar os motores para sair, o de BE deixou de refrigerar. Joba diagnosticou e consertou: correia da bomba d’água folgada. Drica e Bruno fizeram uma limpeza em regra na cabine central. Tomei banho e fiz a barba. O astral da tripulação está ótimo. Acabamos o primeiro tanque d’água. Dia 8, 4º dia de mar, progresso de 145milhas. A partir de Ponta do Patacho, 9°10’S, em Porto de Pedras, PE, o vento permitiu folgar pano aumentando a velocidade e afastando da costa. Novo stress, com bronca do comandante: o 2º tanque d’água pequeno acabou de repente! Estamos gastando mais de 10 l/pessoa/dia! Dia 9, progresso de 190 milhas em 24h. Ancorado em Noronha às 23h, com o intuito de esperar passar a época de furacão no Caribe,que vai até novembro. Jantar comemorativo, strogonoff de frango. Acabou o 1º bujão de gás.

clip_image008Dia 10 de outubro mudamos o barco, ancorando ao lado norte do molhe, em ψ=3°49,934’S e ʎ=32°24,115’W. Descemos a genoa para costurar a capa de proteção, e coloquei birutas na valuma da mestra, costurando tiras recortadas de minha cueca de seda de gatinhas. Motor de BE sem refrigerar, diz Joba que é a correia folgada de novo, e desceu para comprar arruela de pressão. O motor de BB estava com nylon enrolado na helice. Levei 1 hora cortando e puxando de alicate e ainda não saiu tudo. Mergulhei em 9m de profundidade para marcar de 10 em 10m a corrente da âncora com cordão.Mutti, Drica e Joba desceram com um VHF portátil para turistar. O caique velho funciona e o motorzinho também. Só desci em terra à noite, e fomos assistir no auditório do IBAMA a uma ótima palestra de Leo, da empresa de mergulho Aguas Claras, sobre tubarões. Ele editou um filme muito bem feito e fez a palestra com uma fita de video em camara lenta, onde ele interrompia a fita e ia falando de forma muito bem coordenada com a imagem. Jantamos em Nascimento, “no 30”, que é um bairro onde está o supermercado.

Dia 11 todos trabalharam a bordo. Bruno subiu no mastro e consertou a luz de tope. Na descida consertou o head-foil da genoa. Drica consertou um remendo da genoa com silver-tape. Subimos genoa. Pedro e Joba encheram os tanques d’água. Dei entrada na policia do porto e paguei R$477,5 (US$164,65) da taxa de preservação ambiental (2 dias 4 tripulantes,R$23,87/pesoa/dia, comandante não paga) e taxa de ancoragem de 3 dias (>10m, R$95,50/dia). No domingo dia 12 limpei o fundo do barco e tirei o que pude do nylon do hélice do motor de BB. Calibrei o ‘rudder’ do piloto com orientação de Igor por telefone e do manual de instalação. Conversei com o Mestre Raimundo, da balsa de abastecimento da ilha, que tem experiência pescando lagosta na costa norte, e recomendou ir por fora e não entrar no Maranhão. Falei com Mila e com André no telefone.

Dia 13, 3º dia de lua cheia, navegamos Noronha-Natal, ancorando no Iate Clube. A refrigeração do motor de BB pifou. Pedro Mutti e Drica desembarcaram dia 14 e Joba dia 15. No clube tinha gente do Brasil todo que estava voltando da regata de Noronha. À noite foram longos papos com Gileno, do Caboge & familia, que estavam indo numa viagem circum-atlântica num barco de aço de 35 pés. O pessoal do Salmo 33 estava indo para o Caribe. Também estava lá o barco branco de aço de 50 pés, de Torres e Sra., que fazem charter nas regatas longas. Desmontei a bomba d’água do motor de BB, que tinha um parafuso quebrado, e consertei. Fiz mercado com Bruno e abastecemos de água, gelo e diesel. Os motores de 3 cilindros consomem 3l/h.

clip_image012Dia 16 visitei Geraldo e Valéria do Vadyo, um Cal 9.2 também em viagem circum-atlântica, apoiados pela Nutri. Nos deram 20 barras de cereal. Largamos de Natal só de genoa, no rumo do Atol das Rocas, abrindo até estar a 20 milhas da costa. Dai arribamos para norte, com amuras por BE, e o vento começou a rondar lentamente para SE. Na troca de turno de mim para Bruno às 23h, fizemos o jibe e montamos o Cabo Calcanhar a 20 milhas da costa, vendo o pisco do farol de Touros. A costa do RN tem uma intensa atividade de pesca. Andando próximo à borda da plataforma, eramos balizados por luzes de barco de pesca continuamente. Quando passávamos por um viamos a luz do outro! Dai que abrimos para velejar na isóbata de 1000m a 40 milhas da costa. É ótima a sensação de andar com as forças a seu favor: vento e corrente. A viagem está confortável, mas se fosse ao contrário, quando “tem que ser”, sem duvida seria estressante, cansativo e pouco produtivo. No dia 17 o vento estabilizou de leste com < 20 kn. Tivemos um progresso de 140 milhas em 24 horas e resolvemos subir a mestra. À noite, muito escura, refrescou para 28 nós e o barco surfava a mais de 8. Diminuimos pano reduzindo a velocidade para 6, e a situação ficou menos tensa. Como diz Fernando Peixoto com espírito sarcástico, vela de oceano é 90% tédio e 10% de terror. Com vela rizada o terror amaina, fica tudo sob controle, a energia sobre o barco volta à dimensão humana.

Dia 18 às 03:00 Bruno me acordou. Estávamos pegando fundo e subindo na plataforma continental a ψ=3°50’S e ʎ=37°37’W. A temperatura da água caiu para 25,9°C. Começamos a aterrar para Fortaleza no rumo 276V, com vento e ondas na popa. Às 13:30 estávamos atracados no Marina Park Hotel em Fortaleza, após 47 horas de poita a poita desde Natal. Estavam lá: Dragonwing, da Africa do Sul, com Mason e Kerry, dois Endurance 35 espanhóis, Sidoba de Luis e Xari, e Marie Celeste, de Stanislau, com a mulher e a filha geóloga, que desembarcaram e deixaram o veinho solitário. Ficamos aqui por 4 dias, quando Leila, uma ex-namorada nos deu um apoio maravilhoso com o carro.

Os espanhóis arrumaram com um frances solitário uma carta antiga de Isle du Salut, do tempo de Napoleão, e tinham uma carta de Trinidad. Emprestei a carta que tinha de Tobago e eles xerocaram tudo. Hoje estava rolando o furacão Nicholas no Caribe, conforme e-mail de André. Dia 19 Bruno e eu fomos almoçar com Leila. Liguei para Jairo que ainda não sabe onde devo deixar o barco. Comuniquei que o shore-power não funciona para carregar as baterias, só para ligar o ar condicionado direto no pier. Comprei uma escova de dentes e na primeira escovada veio um pedaço de dente. Dia 20 fui a um dentista indicado por Leila, Luciano, que olhou o molar superior esquerdo onde houve retração da gengiva, expos o bloco de metal que soltou um pedaço da porcelana. Disse que está sem problema, a precelana é só estética e nem cobrou a consulta. Jantamos na casa de D.Dayse, viuva do General Miranda, mãe de Leila, com Bruno, Rodrigo e Roberta.

No dia 21 visitei o Sidoba. Luis teve cancer na lingua e na garganta, mas ainda fuma um pouco. Teve ‘seis meses de sobrevida’ e já está navegando há anos. Xéri é filha de um amigo dele, cego, de 72 anos, que vive navegando. Paguei R$30 das xerox das cartas. Sairam dois barcos hoje de manhã: o americano que se manteve afastado de todos, e o holandês, Zwerver, de Henry e Helen. Este não conseguiu ligar o motor nos doldrums, vindo de Cabo Verde, e veio parar em Fortaleza. Daqui vai orçar de volta para o cabo Calcanhar, parar em Natal, Salvador, e descer até a Patagonia. De lá vai via estreito de Magalhães para o Pacífico.

Comprei copos de vidro para whisky, castanha e silicone. Bruno gastou um tubo inteiro consertando vazamento no freezer. Peguei roupa na lavanderia.

Dia 22 fizemos o check-out do hotel com Armando, um cearence gordinho, gerente da marina e amigo de Igor. Desatracamos da marina Park Hotel junto com Sidoba e Marie Celeste. Passamos todo o dia e a noite junto com eles, nós só de genoa, mantendo o mesmo rumo para atravessar a plataforma continental e navegar no talude. Passamos por dois campos de petróleo da bacia de Mundau-Camocim.

Dia 23, subi a vela mestra e despachamos os Endurance. Em 24 horas, progresso de 160 milhas. Acabou o segundo bujão de gás aberto em Noronha dia 9/10. Durou 2 semanas, mas desses 15 dias passamos 5 no porto, entre Natal e Fortaleza.

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5 Respostas para “Velejando de Salvador às Granadinas – I

  1. Parabéns ao comt Sergio Netto pela clara e envolvente narrativa, cheia de detalhes que permitem uma visualização quase real dos acontecimentos.
    Agradecimento ao cmt Nelson por nos brindar com essa verdadeira aula de vela na rota Caribe.
    Aguardamos ansiosamente os próximos capítulos.

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  2. Muito bom. Parabéns Nelson. Puxa,…. Como quebrou este catamarã.!!…
    Fico aguardando a parte II.

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  3. Assim como os demais fui envolvida pela narrativa. Aguardo ansiosa a próxima publicação.

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  4. É sempre muito bom ouvir relatos deste nível sobre velejadas idem.
    Dá uma vontade danada de apressar as coisas para sair por aí também, deste mesmo jeitinho.
    Mas também fico a me questionar onde andará o restante da deliciosamente terrível “A Tempestade”?

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  5. Nesse período chuvoso aqui em Salvador, esta narrativa me fez velejar junto com Blooper.

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