Um país imperdível


3 Março (302)

Certa feita um amigo chegou a bordo do Avoante com um livro que indicava mil lugares no mundo em que todos deveriam conhecer para poder morrer feliz. Pois bem, folheando aquelas páginas recheadas de bons roteiros e paisagens deslumbrantes, não pude deixar de sonhar com meus pés pisando naqueles lugares indicados pelo autor. Mas também me vi diante de uma grande utopia e de uma grande presunção do autor. Será que ele conheceu mesmo tudo aquilo?

Para começar a leitura fui direto aos roteiros indicados no Brasil e deixei de lado tudo mais, pois sempre tive vontade de conhecer o Brasil de ponta a ponta. Mas confesso que não me encantei com o que vi, pois sempre achei que o nosso País tem muito mais belezas do que possamos imaginar e aquele livro passou muito longe do que eu esperava ver.

Posso até pecar em não saber de quem é a frase: “O brasileiro não conhece o Brasil”. Mas sou sabedor da sua veracidade, pois não conhecemos mesmo. E para mim, o autor daquele livro não conheceu o nosso País, pois se tivesse conhecido teria que duplicar as páginas.

Você pode até achar que minha loa é carregada de um patriotismo barato, mas sou mais o Brasil com todos os seus trancos, barrancos e barracos.

Recentemente li um texto em um blog náutico onde o editor chamava atenção aos velejadores brazucas que saiam para uma volta ao mundo e subiam à costa brasileira como uma bala, sem nem ao menos conhecer a finco o mundo maravilhoso que existe no nosso litoral. Ele tem toda razão e aposto uma cocada que os nossos mais famosos velejadores não sabem o potencial existente no litoral brasileiro.

Em Fevereiro deste ano cruzei rotas na Ilha de Itaparica com um velejador gaúcho que há dez anos navega subindo o litoral brasileiro e somente agora aportou pela Bahia. Fizemos uma grande confraternização, pois eu estou em rota contraria há nove anos e o Avoante ainda não ultrapassou a fronteira do Senhor do Bonfim. Mas uma coisa temos em comum: Queremos conhecer tudo e olhe que muita coisa bonita ficou para a programação do retorno e mais um tanto vai ficar esquecido.

Passa longe de mim publicar um roteiro navegável com os lugares que deveriam ser conhecidos por onde passei, mas se me perguntam não me retraio em indicar, mesmo sabendo que pretensão e esperança são como impressão digital, cada um tem a sua. Quando se está no mar, então é que o bicho pega.

Como assim? Tudo depende dos efeitos meteorológicos e nesse mundo de coisas quase indecifrável representado pela natureza, um dia nunca é igual ao outro.

Mas já que enveredei pelos caminhos dos lugares imperdíveis, e como o autor do livro não mencionou, vou indicar um lugarzinho gostoso lá na foz do Rio Paraguaçu, e que no passado deve ter enchido de orgulho e desejos reis, rainhas, índios, mulatos, invasores, náufragos e degredados. Barra do Paraguaçu!

Joguei âncora por lá tempos atrás e volta e meia navegava ao largo de seu belo Farol e de sua prainha de areia branca, que acenavam num chamado feito canto de sereia. No finzinho do último mês de Março voltei a jogar âncora em suas águas.

A ancoragem não é tão fácil, pois a correnteza que desce o rio e uma grande laje de pedra que forma o fundo, merece um pouco mais de atenção, porém, nada que preocupe além da conta. Na primeira vez em que tivemos por lá o fundeio foi em mar de almirante, mas dessa vez o vento Nordeste baixou a patente para capitão de mar e guerra. Mesmo assim foi bom.

A Barra é uma antiga fazenda particular, mas que já tem muitas casas de veraneio erguidas como quem não quer nada. Na queda de braço entre dono e posseiros a balança está pendendo para o lado invasor. Ainda bem, pois podemos caminhar sem sustos por sua paisagem deslumbrante.

O Farolzinho branco que sinaliza aos navegantes a entrada de um potentoso rio histórico é um marco para a navegação pelas entranhas da Baía de Todos os Santos. A praia de águas límpidas e tranquilas é um convite a um delicioso banho de mar e duvido que tenha quem resista.

Um grande píer público, apenas para desembarque, é também um palanque para assistir um dos mais belos pôr do sol e admirar o navegar dos velhos saveiros e a maestria de seus mestres.

Ao noitecer, um silêncio encantador envolve o mundo e para quem está a bordo de um veleiro é a senha para uma feliz noite de sonhos.

Eita Brasilzão cheio de coisas bonitas para se ver!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

4 Respostas para “Um país imperdível

  1. Alo Nelson, como sempre com excelentes postagens. Eh amigo, o Brasil tem muitas joias raras escondidas por ai. Seguindo seus posts, ja sonho em conhecer melhor a baia de todos os santos e tambem a de camamu.

    Abracos

    Curtir

    • diariodoavoante

      Raimundo, muito obrigado pelo comentário e faça desse sonho uma realidade que você se surpreendera. Um grande abraço, Nelson

      Curtir

  2. “Ô mundão véi sem porteira…”

    Curtir

  3. Nelson concordo plenamente , esta região é realmente fantastica, e neste ano pretendo voltar novamente .

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s