Cruzeirando na Foz do Rio São Francisco – Capítulo III


Sao francisco

Prometi postar a história enviada pelo velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, em três capítulos e como promessa é dívida, hoje chegou a hora de arriar as velas e trazer o barco para o porto. Não tenho como agradecer ao amigo Pinauna o envio desse belo material que enriquece os anais da náutica de esporte e recreio no Brasil. Navegar o São Francisco, mesmo que seja na sua Foz, sempre foi um sonho de boa parte dos velejadores brasileiros e a riqueza de detalhes exposto aqui atiça ainda mais esse sonho. Caro Pinauna, em nome dos leitores deixo aqui um muito obrigado.

CRUZEIRANDO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO – CAPÍTULO III

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Acima: Ruínas do Cabeço (2006) e a retrogradação da linha de costa(2011), 200m para dentro; abaixo o farol antigo em Sergipe, já fora do canal, e o novo em Alagoas.

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Dia 23 fomos de novo na praia de fora na baixa mar, porque o navegador queria caminhar nas ruínas da vila que o mar levou à procura de alguma coluna que pudesse estar no caminho de saída do Pinauna. Caminhou pelo canal com água pelo pescoço e não topou com nada alto. Depois fomos visitar o Flávio, que nos recebeu com água de coco, e mostrou a opção de vida que escolheu após se aposentar, há 12 anos. Ele está fazendo um trabalho de conscientização regional, integrando os descendentes dos Caetés que foram escorraçados da região após o episódio do bispo Sardinha, os descendentes dos holandeses, de olhos claros como Alexandre, e os quilombolas. Pela tarde as meninas fizeram uma ornamentação de natal dentro do Pinauna, com árvore, papai Noel, presentes e muita comida. Depois da faina festeira Mila aproveitou as habilidades do navegador e fez um corte de cabelo de verão. Eu recolhi o motor de popa e subi o caíque, ficando tudo pronto para retornar no dia 24, que Liana tem que chegar dia 26 para atender a um cronograma de viagens denso até 12 de janeiro.

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Dia 24, lua nova, a maré grande começou a encher às 09:30. Às 12:45 estávamos fora da barra, com 5m de água por baixo da quilha, vento E 15-18 nós, correnteza favorável de 1 nó apesar da enchente. Vela em cima, SOG 8,2, COG 210 true, Tagua 25,1, Tar 29,9°C, P=1014mb, UR62%. Às 14:30 o vento caiu para 10 nós e subimos o gennaker novo no magazinador, arribamos 5° para COG 215 T para passar por fora das atividades petrolíferas em Aracaju, e o SOG acelerou para 8,3 com vento aparente a 87° por bombordo. Às 17:15 cruzamos a isóbata de 1000m descendo para o talude continental, o vento cresceu para 15 nós, enrolamos o gennaker, abrimos a genoa e o SOG passou para 8,5-9 nós. Velejada confortável, mas Lara Pocotó enjoou de novo. sao francisco.6jpgTentei de tudo Tpara ela descer e ver o deep blue na gaiuta de escape dentro da cabine, mas nada. Às 19:30 já tínhamos passado Aracaju, com a foz do Vaza Barris a 20 milhas no través e haviam 9 indicações no AIS: navio por todo lado, mais as plataformas de petróleo lá por dentro. Parou a falação no rádio VHF, um tal de Apoio deve ter encerrado o expediente. A noite foi tranqüila e Liana fez o turno de Beto, das 2 às 5. Durante a madrugada a pressão atmosférica subiu para 1016mb e o vento merrecou. Ao amanhecer André assumiu, enrolou a genoa e abriu o gennaker, mas a velocidade ficou abaixo de 6 nós; sem correnteza no talude continental. Tagua 24,3, Tar 28,7°C. Quando eu acordei às 8, havia um déficit de carga nas baterias de 200 Ampèrs, o gerador eólico parado e a gente andando a 4 nós. Liguei os dois motores e passamos a andar a 6, empurrando 30 A.h nas baterias.

Às 12:45 registramos um progresso de 154 milhas em 24 horas, bom para quem está cruzeirando com a neta. O vento E-NE chegou com 15 nós. Desliguei os motores e passamos a andar a 8. Soltei a linha de arrasto e depois do peixe arrebentar três rapalas enferrujadas, incluindo a lula vermelha matadora, embarcamos uma cavalinha de 2 kg. André num surto de cooperação com a Rainha tratou o peixe lá na popa. Às 15h aterramos na Laje da Espera, em Guarajuba, fizemos um jibe no gennaker e fomos costeando perto da praia. Às 18 horas tínhamos o farol de Itapuã no través, mas mantivemos o rumo sudoeste. Quando passamos defronte ao Rio Vermelho foi que arribamos em popa para oeste admirando a imponência do farol da Barra, que numa enquete Lara votou como a visão mais bonita da viagem.

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Às 24h atracamos no píer em Aratu, o hodometro do GPS marcando 220 milhas em 36h14min desde a saída dentro do rio, hodometro do velocímetro marcando 219,3 milhas, o que nos ensina que subindo para o norte no verão o melhor é ir pelo talude continental para evitar a forte correntada que experimentamos na ida velejando na plataforma perto da costa.

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