Cruzeirando na foz do Rio São Francisco – Capítulo II


Cruzeirando9Nesse Domingo, 13/04, em que o mapa do Brasil se divide entre chuvas, ventanias, muitas nuvens, Sol, seca e muito calor em Natal/RN, vamos seguir navegando no texto do velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, lá pelas águas rasas e misteriosas do velho Rio São Francisco.

CRUZEIRANDO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO – CAPÍTULO II

Na imagem acima, de 2011, a barra N-S que deixamos a barlavento protege as passagens de oeste da arrebentação. Esta barra conforme mapeada na carta náutica (compare acima), tinha uma posição bem diferente, mostrando a dinâmica da foz do São Francisco. A entrada de leste, mais ampla e usada pelos barcos de pesca maiores estava quebrando todo o tempo que ficamos por lá. Do lado de Sergipe, a vila do Cabeço foi totalmente destruída com a erosão, e o antigo farol que ficava na vila hoje é deixado por boreste por quem entra; o canal agora está sobre as ruínas da vila.

Cruzeirando10Puxamos a âncora com meia maré, contornamos a barra no extremo sudeste de Sergipe e ancoramos na praia a sotavento da barra filado com o vento, no ponto que no mapa da p.4 está a norte de onde está marcado Vila, e na carta 1002 da DHN, desatualizada, está registrada uma estação maregráfica. Esta vila é o novo Cabeço, com seis casas e uma igreja pequena na parte alta da barreira. A vegetação rasteira de hidrofiláceas serve de pasto para os búfalos.

Cruzeirando11Beto Lia e Lara foram de caíque na vila e foram recebidos por Flavio, reformado da Policia Militar como enfermeiro. Ele fez um caminho de tábuas por onde passa com o carrinho de mão por sobre o areião. Plantou um pomar de 0,3 ha. na parte alta do areião, que ele rega toda madrugada com água dos poços rasos que perfurou e completou a 4,5m de profundidade. Da próxima vez que for lá vou levar para ele um rolo de tubo de polietileno de irrigação. O ribeirinho aqui é muito hospitaleiro, e à tarde um canoeiro foi nos oferecer um xaréu de 3kg. No processo de assar o xaréu no forno acabou um bujão de gás.Cruzeirando12No dia 21 saímos na enchente da manhã para deixar Beto em Piaçabuçu, almoçar em terra e reabastecer o bujão de gás. Na subida do rio o piloto automático deixou de funcionar, o que me deu um frio na espinha. Liguei para Igor, que perguntou a mensagem de erro do piloto, fez um diagnóstico e me deu instruções de como proceder. Fui executando os procedimentos e localizei um fusível de 25 ampères com corrosão, que André que é mais jeitoso lixou e o piloto voltou a funcionar. Ufa! Nem pensar em timonear por dois dias no retorno. Em Piaçabuçu Liana adotou um garoto de 11 anos, Alexandre, muito esperto, que operou como nosso guia e almoçou conosco. No retorno ancoramos no perau ao lado das dunas móveis na costa alagoana, no ponto onde param os barcos de turismo. Nos anos 60, quando havia exploração de petróleo por aqui, uma manhã o tratorista estava futucando as dunas migratórias com uma vara. – O que você está fazendo? – Procurando um D8!Cruzeirando13Cruzeirando14

.Dia 22 o pessoal ficou de leseira fazendo nada, e eu troquei as válvulas da bomba da latrina que estava com vazamento. Lara passou a escova na linha d’água e limpou o casco de uma das canoas impregnado de algas oceânicas; quando eu elogiei o trabalho, ela disse ‘foi até divertido’. À tarde fomos caminhar na praia de fora da barreira e observar a barra arrebentando na maré cheia. A areia da barra emersa em Sergipe é de grã média e mergulha para dentro com estratificação horizontal, que interpretei como o registro do back-shore, formado quando o nível do mar estava mais alto 5m, o que na curva de variação eustática feita para a Bahia ocorreu há 5,1 mil anos, na época que cresceram os recifes de Abrolhos. A alimentação de sedimentos na foz do rio São Francisco, que tem uma vazão média de 2700m3/seg, manteve a barra estável enquanto o nível do mar descia para a altura atual, desenvolvendoCruzeirando15

vegetação, mas dois fatores contribuem para a erosão que André mediu de 120 metros em 5 anos: as barragens das usinas hidroelétricas no médio S.Francisco, que retém a carga de fundo a montante, e a elevação do nível do mar, que mata a vegetação desestabilizando a barreira que é levada pela corrente litorânea. No processo, da antiga vila de Cabeço, onde nasceu o Flávio, restam as ruínas da escola e do cemitério que engancham as redes de pesca, e o farol abandonado para fora do canal atual. A Marinha instalou um farol novo a barlavento sobre as dunas no lado alagoano do rio.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s