Cruzeirando na foz do Rio São Francisco – Capítulo I


Sao francisco

Nada como uma boa leitura para um dia de chuva, como esse Sábado, 05/04, em que São Pedro resolveu abrir as torneiras sobre o Brasil, que por sinal, uma decisão muito bem vinda, já que o calor estava insuportável. Hoje iniciarei a publicação em três capítulos do texto enviado pelo velejador baiano Sérgio Netto, Pinauna, em que ele relata um cruzeiro de Salvador ao Rio São Francisco em 2011. Alias, o São Francisco sempre esteve no imaginário de grande parte dos velejadores brasileiros e estrangeiros, mas raramente alguém se arisca a adentrar sua barra cheia de enigmas e bancos de areia.

CRUZEIRANDO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO

Nas festas de fim de ano quem sai do AIC tem uma opção a 3 milhas de ancorar na prainha defronte à Base Naval; a 5 milhas em Maré; a 10 milhas, Ponta de Nossa Senhora; 12 milhas Saco de Jesus ou Itaparica; 20 milhas foz do Paraguaçu. Mas se você tem tripulação que aguenta o oceano, pode sair pelo farol da Barra e tem Morro de São Paulo a 30 milhas, Camamu a 60, Ilhéus a 120, Porto Seguro a 200 e Abrolhos a 300. Estas saídas para o sul no verão são presentes de natal, com vento folgado para ir, mas cobram o preço de voltar no contra vento. Porém a costa da Bahia tem muito mais, afigura-se como dos melhores locais do planeta para velejar, se não o melhor: Os ventos são confortáveis, os alísios tropicais, a temperatura fica na faixa dos 25°C, chove pouco no verão, uma delicia. Para ir orçando e voltar na maciota existem opções pouco exploradas para o norte, Mangue Sêco a 120 milhas, foz do Vaza Barris a 150 e foz do São Francisco a 210.

O Pinauna juntou uma tripulação de três gerações e seguiu para norte dia 17 de dezembro de 2011, num cruzeiro de sonho! Vovô Tonho, comandante compreensivo, Mila Rainha, que quando chega ao salão cria uma atmosfera de alegria, Tio Dedo, navegador especialista em barras trabalhosas, Mamãe, administradora de tentativas de motim, Papai, com seus computadores cuidando da meteorologia e da comunicação, Tia Gilca paparicando o navegador, e Lara Pocotó, no início quieta pelo enjoo natural da saída, após o segundo dia libera toda a energia acumulada correndo pelo convés, batendo com os calcanhares uma música de pocotó. Quando ancoramos na estação maregráfica da vila do Cabeço, ela exibiu o ‘salto mata mãe’, voando do convés pela popa e caindo na água doce do Opára. Daí não para mais, sobe pela escada, corre para proa, pula na água, volta nadando por baixo do barco, sobe pela escada de popa e recomeça. Só para quando se encanta e vai fotografar os búfalos nadando da península para a barra de rio que forma uma ilha.

CruzeirandoO primeiro dia foi assim (track amarelo): cambando a 120° com vento nordeste força 5 até Guarajuba. Passamos a noite orçando com a mestra no 1º rizo. Os homens fizeram turnos de 3 horas e suas respectivas mulheres ajudavam a cambar quando tocava o alarme na isóbata de 10m. No amanhecer do dia 18 o vento fraquejou e motoramos durante a manhã até o meio dia. O almoço foi ótimo, salada, e lombo com feijão, arroz e farinha. Daí chegou um vento leste força 3 que nos levou até Aracaju com duas cambadas. Fizemos um bordo bem na foz do Vaza Barris, vendo a ponte nova que atravessa este rio no Mosqueiro. Veja ai na foto como é fácil a entrada, a ponte lá no fundo.Cruzeirando1

No inicio da tarde passamos por Aracaju, por dentro dos campos de petróleo, e depois de passarmos pelo Terminal Portuário de Sergipe, defronte à foz do rio Japaratuba,

Cruzeirando8Cruzeirando2veio no nosso encalço uma lancha da Policia Federal, que chegou perto com um megafone perguntando de onde éramos, para onde íamos e quem estava a bordo. A Policia Federal estava a serviço do IBAMA. Conversamos no rádio VHF, Lara deu adeus para eles, que nos desejaram feliz viagem e foram embora. O pessoal tá ligado, esta semana um veleiro italiano naufragou na praia de Atalaia e o casal a bordo levava 310 kg de cocaína.

No final da tarde aterramos na linha de 10m e demos um bordo para fora. Faltavam 30 milhas em linha reta para a foz do rio São Francisco, e era óbvio que no ritmo que íamos chegaríamos durante a noite.Cruzeirando3 Tio Dedo navegador estava baseado nas imagens do Google, que mostravam que a barra tinha mudado bastante desde a última vez que ele havia entrado em 2006. Eu entrei lá em 2000 com meu mestre David Pezão, comandante do Guma, pelo canal do leste, e foi brabo. Daí que propus que nosso bordo de fora fosse mais longo, passássemos a noite velejando por fora e aterrássemos de dia, vendo as redes de pesca que existem na foz. André, que estava enjoado, argumentou que era melhor seguir costeando até fora da barra, ancorar em 3m de profundidade até o amanhecer e entrar no início da enchente às 8 horas. Não gostei da idéia de chegar à noite arriscando a nos engancharmos nos equipamentos de pesca, mas os enjoados queriam parar de qualquer jeito e começaram a se amotinar exigindo uma votação. André marcou um waypoint ψ=10°31,025’S, ʎ=36°25,4’W e tornamos a cambar para dentro. Mas ai o vento rondou mais para nordeste e aterramos de novo a leste da foz do rio Sapucaia, na região que o Vmax (Fast 395) se quebrou na praia numa madrugada em 23 de setembro de 2004. Então cambei para fora às 22 horas e acabou a democracia. A única que me apoiou foi Lara que disse “faça como você quer, vovô”. Mandei baixar e ferrar a vela mestra e fomos orçando devagar para fora só de genoa no rumo sul. À meia noite cambei para dentro, enrolei a genoa e motorei para contra vento por 3 horas, quando uma chuva na frente rondou o vento para ESE. Desliguei o motor o tocamos só de genoa contra uma correntada de 2 nós. Na aproximação, Liana sentada no assento do timoneiro viu uma rede de pesca que não conseguia desviar por causa da correnteza. Ligou o motor e safou quase em cima. Chegamos na barra, com a maré toda vazia e fomos contornando desde o inicio a oeste, a sotavento.Cruzeirando4 Cruzeirando5Daí André subiu na genoa enrolada (foto, vou dizer à mãe dele que ela pariu um macaco!) e foi procurando uma entrada no visual. Na primeira tentativa (track amarelo na página seguinte) passamos a barra do sudoeste, a mais tranquila. Uma vez do lado de dentro, já protegido da arrebentação, encalhamos na maré vazia. Descemos a âncora, a Rainha assumiu os serviços e fomos tomar o café da manhã enquanto a maré enchia.Cruzeirando6

Ai começou a festa. Passado o enjoo, o pessoal na água doce da foz, encantado com o visual, começou a fazer planos de ficar por aqui a semana toda e abortar a entrada em Mangue Seco na volta.

Anúncios

4 Respostas para “Cruzeirando na foz do Rio São Francisco – Capítulo I

  1. que beleza de narrativa, esperando parte 2…. abç!

    Curtir

    • diariodoavoante

      Grande Rodrigo, que bom receber seu comentário. Um grande abraço e já estou com o segundo capítulo com as velas em cima, Nelson

      Curtir

  2. bela navegada, mas até catamarã encalha, imagine um monocasco? tem rota segura para monocasco?

    Curtir

  3. Marcos, se você reparou o Pinauna encalhou com a maré toda vazia, seguro, dentro da arrebentação. Isto lhe dá duas opções: ou troca seu meio barco com a quilha pendurada embaixo por um barco inteiro, com dois cascos, ou espera a maré encher, que todo mundo entra.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s