O Sextante


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Sextante é um instrumento elaborado para medir a distância angular entre um astro e a linha do horizonte. Na navegação marítima ele é de grande importância, pois permite que um navegante bem treinado consiga tirar uma posição com bastante exatidão. O sextante surgiu em 1757 e há mais de duzentos anos se tornou um símbolo da navegação.

Hoje com o advento dos modernos GPS, o aparelhinho espelhado, e por isso mesmo apesar de simples muito frágil, tem ficado jogado dentro das maletas, mas vez por outra aparece um saudosista para ressuscitar sua história.

Dizem que ele ainda faz parte da lista de equipamentos obrigatórios nos grandes navios comerciais e nas frotas militares e fico feliz que seja apenas por lá, pois utilizar o aparelhinho espelhado a bordo de um veleiro de oceano é um Deus nos acuda.

Na prova para tirar carteira de Capitão Amador à autoridade marítima exige conhecimento dos segredos e cálculos sobre navegação astronômica e é justamente ai que o bicho pega. Os astros e seus cálculos de exatidão já tirou a alegria de muita gente boa.

Certa vez embarcamos um amigo que conhece tudo sobre sextante e astronomia para uma viagem até a ilha de Fernando de Noronha. Ele chegou a bordo e foi logo dizendo: Comandante, não vai ser preciso utilizar o GPS, pois as nossas posições tirarei pelo sextante. Respondi que tudo bem, mas decidi comprar mais uma boa quantidade de pilhas para alimentar o GPS. Quem vai ao mar avia-se em terra!

Nem bem saímos na boca da barra da cidade de Recife o caboclo já disse para que veio e o sextante não saiu do saco. Enquanto esperava ele se recuperar liguei o GPS e como ele não se recuperou só desliguei o bicho em Noronha. Ainda bem que comprei mais pilhas.

Estou eu em Salvador e me liga Elson Fernandes, Mucuripe, o mesmo que havia ido para Fernando de Noronha, querendo fazer um passeio pela Baía de Todos os Santos até a Barra do Paraguaçu. Respondi que podia vir e marcamos dele embarcar na Ilha de Itaparica. Ele foi logo dizendo que traria o sextante e que dessa vez a história tomaria outro rumo. Pois bem!

Elson Mucuripe, como ele é mais conhecido é um grande amigo, grande figura humana e dono de uma prosa e musicalidade acima da média, mas como tirador de ângulo é uma graça. Assim que levantamos âncora de Itaparica ele pegou o sextante para tirar a posição. Olhou, anotou, tornou a olhar, fez algumas contas e guardou o aparelhinho. Como quem não quer nada, mas querendo, perguntei sobre a nossa posição e ele respondeu: Acho que vou ter que refazer os cálculos mais tarde, pois por enquanto estamos na costa da Namíbia. Aonde homem do céu? Foi uma gargalhada geral a bordo.

Ancoramos na Barra do Paraguaçu com o Sol nos proporcionando um belo espetáculo no crepúsculo e depois de registrar aquele belo visual, desembarcamos para jantar na casa de Seu Lídio, um outrora comandante pelos mares da Bahia e padrinho da esposa do Mucuripe. Logo após o jantar, onde foi servida uma deliciosa moqueca de siri, lá vem o Mucuripe, meio que desconfiado e com os novos cálculos feitos, reafirmando que realmente naquela tarde estávamos navegando na costa africana. Danou-se! Ainda bem que tenho meu GPS.

Depois do jantar eu e Lucia voltamos para o Avoante e combinamos outra velejada para o dia seguinte, dessa vez até Salinas da Margarida, mas antes de sair iriamos tomar café na casa do Sr. Lídio. Assim que cheguei o Mucuripe me apresentou novos cálculos e dessa vez a coisa estava bem encaminhada, pois havia um erro de “apenas” oito milhas náuticas. Ah bom, pensei que nunca mais iria me achar dentro da Baía de Todos os Santos.

Como Salinas da Margarida fica a pouco mais de quatro milhas náuticas da Barra do Paraguaçu, não foi preciso o uso do sextante e para garantir que iriamos em segurança, entreguei o leme ao capitão de longo curso Lídio, e entre uma visada e outra fui me divertindo com a prosa do Elson Mucuripe e me deliciando com as histórias e experiência vividas pelo comandante Lídio.

Elson garante que um dia ainda vai cruzar os mares do mundo munido apenas de um sextante e uma bússola. Eu não tenho dúvida disso, pois apesar do desnorteamento que passamos, ele é um grande estudioso da navegação astronômica.

Namíbia! Se oriente homem!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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2 Respostas para “O Sextante

  1. KKKKKK……explique essa história da Namíbia direito, comandante….aí você acaba com minha carreira de sextanteiro…rsrs
    faltou você botar uma foto minha medindo a altura do Sol….coloque aí…

    Abração!!!

    Mucuripe.

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  2. Grande Élson, Comandante do Mucuripe!!!
    Rapaz poderemos algum dia velejar juntos, mas, tenha certeza, levarei meu Garmin 276C e por via das dúvidas vai até o GPS do celular também… eheheh
    Grande abraço.
    Juarez

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