A Tempestade – Parte 16


Michael Gruchalski (2)Depois de quase um verão inteiro de silêncio o velejador Michael Gruchalski colocou novamente a Tempestade para moer a nossa curiosidade, pois eu já não sabia mais o que responder aos que me perguntavam se a borrasca havia acabado. Tomara que ele não resolva entrar em estado de hibernação durante o outono. 

A TEMPESTADE

RECUPERANDO FORÇAS

Agora entendo porque algumas pessoas não devem ir para o mar.

Agora entendo porque outras, depois de passar por aquilo adotam uma religião, outras envelhecem dez anos e, outras ainda, com receio de serem tachados de mentirosos, calam-se para todo o sempre. O que dizer de navegadores de mares verdadeiramente perigosos e assustadores? Gente que diz ter passado dias, dias e dias no meio de uma tempestade com ondas de oito, doze metros de altura, verdadeiras massas líquidas em movimento, temperaturas subantárticas congelando nariz, orelhas e pontas dos dedos? Sozinhas, no cockpit, segurando o leme, o corpo doído, enrijecido, o olho fixo no mar para não atravessar a próxima onda. Sem comer, sem dormir, sem urinar? Ou comendo frutas, dormindo de olhos abertos e fazendo xixi nas calças para esquentar os fundilhos. Tudo isso, por dois, três longos dias e noites? Num veleiro, em situações de stress agudo, muda o comportamento dos órgãos. O intervalo entre as necessidades fica muito mais espaçado. O volume de urina cai ridiculamente para poucos pingos. E eu soube que, em situações de stress prolongado, consegue-se ficar mais de uma semana sem sentar no trono. Isso sem contar a falta de higiene e banho. Os sentidos aguçam na direção das necessidades imediatas de sobrevivência.

Qual a diferença entre esses super-homens que se aventuram em roteiros e mares impossíveis e nós, velejadores normais? A diferença está em que eles não têm medo de morrer. É isso. Ai está a diferença. Essa gente não tem medo de morrer. Essa gente pode até afirmar que o importante é ter um barco de boa qualidade e tamanho, equipado com toda a parafernália de eletrônicos e itens de segurança mas, no fundo, sabem que mesmo isso pode não ser suficiente. Eles sabem, repito, que quando a natureza decide que é hora do show, é hora do show….

Navegam e não lamentam estar por perto na hora do show. Porque não têm medo. De morrer.

Vento? Chuva? Trovões? Isso é só confete, serpentina e lança-perfume de um baile de carnaval. Não alteram as coisas, afetam apenas os sentidos, impressionam. Nesse mesmo baile, ondas e relâmpagos são a bebida excessiva que leva o folião a nocaute. Ondas de dois a três metros, pequenas, desencontradas, nervosas, nascidas prematuramente por vontade de um ventão tropical repentino e mal humorado são mais perigosas e, principalmente, traiçoeiras, do que aqueles vagalhões com tamanho de cinco locomotivas, lentas e pesadas formadas por ciclones em latitudes setentrionais ou abaixo das “forties”. Relâmpagos que parecem nascer da água, a poucos metros do barco, carregam energia suficiente para reduzir barco e tripulação a pó. Das duas, qual a mais perigosa? Haveria uma forma de comparação? Não acredito que haja. Além disso, como tantas coisas na vida, comparações nesse nível pouco valem quando analisadas em terra, fora do baile ou distantes do show, protegidos dos elementos que desencadeiam aqueles fenômenos. Melhor ou pior, tudo depende de como cada um recebe e aceita as situações. E do discernimento e capacidade de ser honesto quando divulgar suas lembranças e impressões.

O tamanho do barco ajuda? Maior é melhor? Óbvio que é. Se for bem grande e tiver um para-raios decente. Não há dúvida. Num barco de cem pés, bem construído, a tripulação sofre com enjoos, se assusta com tudo mas, tecnicamente, passa incólume por aquela tempestade que passamos. Todos sabem que há navegadores de oceanos em barcos de vinte e três pés que acham tudo, o perigo, a dúvida de não chegar, o medo da morte, absolutamente normal. Nestes, o que determina a coragem pode ser a experiência de navegação e o conhecimento dos humores do mar, desde muito cedo. Viajantes nascidos e criados em locais inóspitos, à beira mar, onde o céu e os ventos são inclementes durante mais de dois terços do ano, não encontram dificuldades nos trópicos logo abaixo e acima da linha do Equador. Debocham de ondas de quatro metros, ventos de trinta nós. Gostaria, entretanto, de vê-los, por ali, nas costas de Sergipe, navegando um barco de trinta pés com leme de fortuna que só cumpre parcialmente a sua função em meio a uma tempestade tropical de duas horas…

O sol nasceu as cinco e vinte e cinco. Empurrou um pedaço de nuvem, desgrudou da linha do horizonte. O mar continuava escuro, não havia tanta luz ainda e o vento fraco e frio, tentava acalmá-lo após os dissabores da madrugada. Peguei o leme da mão do capitão e disse pra ele entrar e descansar. O filho do capitão dormia encolhido, os braços enfiado nas pernas, no duro da fibra, a cabeça inclinada, sem travesseiro. Estava com a roupa úmida, a bermuda rasgara na costura um palmo da perna esquerda. Olhei à minha volta, pressionando a cana do leme para baixo. Nem sinal da costa, nem sinal das plataformas de Aracaju. Ouvi um palavrão seguido de

“A antepara saiu do lugar. Que confusão. Tem água, tem água no piso”,

Depois, silencio. O capitão caiu entre um vão de saco de vela e travesseiros no beliche de popa. Não havia beliches do salão para deitar. Só buracos mostrando os tanques de água doce. As tábuas estavam lá fora e serviam de leme. Os colchões, dobrados, tomavam todo o interior da cabine de proa.

Sorri, pela primeira vez nas ultimas quarenta e oito horas. Duas noites sem dormir. Estava exausto mas, me sentia em paz. Acelerei o motor pouquinho, receoso de que o barulho fosse incomodar ou acordar meus companheiros. Senti a mudança na força que o leme fez para sair da água. Não demoraria muito e teríamos que subir no trapézio para controlar o rumo com o pés.

O conjunto homem e barco havia sido testado exaustivamente. Naquela noite, a natureza havia sido impiedosa conosco. Nossa capacidade de aguentar, nosso grau de resistência havia sido avaliado até as últimas consequências. Saímos dessa com muitas avarias.

Físicas e emocionais.

As físicas: perdemos todos os instrumentos do topo do mastro, exceto a antena do VHF. O Indicador de vento e a ventoinha de plástico desapareceram. No cockpit, perdemos uma boia salva vidas e um facho Holmes que se soltaram do suporte na popa. Estavam amarradas, talvez mal amarradas. Mas os danos mais palpáveis estavam no interior do barco. Uma sapata de apoio do motor que já devia estar folgada permitiu que o motor subisse um centímetro e não voltasse à posição normal. Isso afetou o alinhamento do eixo com o tubo telescópio e fez o com que o pé de galinha trincasse bem na união com a fibra, debaixo do cockpit. Esse havia sido o motivo daquele estalo medonho que tínhamos ouvido quando a onda atravessou o barco. Poderia ter sido pior se o motor estivesse ligado. Com a gaxeta do eixo afetada e o motor funcionando àquela hora, entrava o triplo do normal de água no porão do motor. Como a bateria desligada desde o início da tempestade, o automático não era acionado para que a bomba expulsasse o excesso. Motivo pelo qual havia muita água salgada espalhada pelo piso do barco inteiro. Almofadas, partes do estofamento, tudo, que com os solavancos do barco acabou no piso, ficou completamente encharcado. A ventoinha no banheiro também não resistiu à quantidade de água que forçou sua entrada e, apesar da toalha que tínhamos enfiado nos furos da ventilação, havia quatro dedos de água salgada no piso do banheiro. A gaiuta de proa também não cumpriu sua função e deixou entrar muita água sobre estofados e travesseiros por causa dos perfis de borrachas defeituosas pela ação do tempo.

As emocionais: bem, saímos dessa, emocionalmente falando, como aquele sujeito que, já diante do pelotão do fuzilamento recebe a ligação de clemência de última hora do governador autorizando a suspensão da execução. Outra ilustração: saímos dessa, como aquele sujeito que, já desenganado pelos médicos, recebe uma ligação do laboratório informando que os exames haviam sido trocados. 

Foi também um teste fenomenal de resistência para o nosso leme de fortuna. As duas tábuas parafusadas, amarradas e mergulhadas na água haviam resistido bravamente. A cana de leme estava intacta. A “storm jib”, içada na proa e o motor davam conta do recado e puxavam o barco como podiam, de três a quatro nós por hora.

Nossa previsão para as quatro horas seguintes, tempo que levaria para o mar alisar definitivamente, era de aceitar o que viesse em matéria de rumo e ondas. O duvidoso, quase ruim, ainda poderia estar pela frente. Como estaria a barra de Aracaju, naquele dia? Totalmente fechada por ondas fortes? Que tipo de aproximação faríamos, como chegar pelo norte e avistar os arrecifes da Barra dos Coqueiros? Teríamos que esperar, a poucas milhas do destino, por mínimas condições de segurança para investir pela barra? Haveria um barco de pesca, alguma lancha por lá para nos ajudar? Pelas cartas, de qualquer maneira, teríamos de contornar a costa e entrar como se do sudeste estivéssemos chegando. E entrar pela única brecha com profundidade suficiente para vencer a foz do rio Sergipe que leva ao Iate Clube.

Muitas dúvidas e uma certeza. Tínhamos o controle da situação.

Por Michael Gruchalski

Anúncios

2 Respostas para “A Tempestade – Parte 16

  1. Só agora pude ler este capítulo, Michael.
    Muito bom, como todos, e volto a esperar ansioso pelo restante.
    E ao final vou querer sim, que vc me envie o pdf completo.
    Muito bom.

    Curtir

  2. Oi Hélio, com atraso agradeço. Voce está na lista do pdf completo sim, postei o capitulo 17 hoje, são 21 mas encurtei alguma coisa e vai ficar no 19 ou 20, não sei.

    Grande abraço
    Michael

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s