Fernando de Noronha e a Refeno – Parte 2


imageJá que os clarins silenciaram e os pierrôs e as colombinas abandonaram as fantasias, vamos a segunda parte da história Fernando de Noronha e as Refeno, escrita pelo velejador baiano Sérgio Netto. Se você não leu a primeira parte clique AQUI.

FERNANDO DE NORONHA E AS REFENO

imageimage

Em 1986 o pernambucano Maurício Castro, professor universitário, perito em navegação astronômica e proprietário do veleiro Brasília 27, o Quarta-Feira 17, juntou um grupo de velejadores do Recife Iate Clube e organizou uma regata para logo após o equinócio da primavera, quando predomina o vento leste-sudeste, as águas quentes da ilha estão absolutamente límpidas e transparentes e começa o período da estiagem, que vai de setembro a janeiro. Aqui da Bahia foi o Avoante, premiado com o troféu de melhor navegador para Thales Magno Batista. O Mauricio Castro dava um bônus de 5% no rating para quem se comprometesse a não usar qualquer eletrônica para navegação.

Em 1987 o evento se repetiu e eu fui com Lucia Botelho no Pasárgada, o Bruce Farr 40 de Tony Pacífico que deveria embarcar em Recife, mas coitado, devido a compromissos profissionais de ultima hora acabou não indo; mandou o velho Ernani ‘Coca’ Simões que embarcou em Recife para correr a regata e levar o barco de volta para o Rio. Noronha neste tempo não tinha um mínimo de estrutura para o visitante, e nos limitamos a visitar a pé as praias próximas ao porto de Santo Antonio e a mergulhar nos destroços do vapor Eliane Statatus que se espalham por 50m bem na entrada do porto, sendo que parte da caldeira aflorava na maré baixa. Agora tem uma bóia no local. A possibilidade de abastecer o barco para a volta era muito precária, não havia disponibilidade de água, frutas nem as facilidades de um mercadinho. E a velejada de ida e volta a Noronha com uma estadia de dois dias no porto significa estocar o barco para uma semana! Na volta, lá pelas 23 horas do segundo dia de navegação, a uma hora de distância do porto em Recife, Coca chamou Olinda Rádio no VHF (naquele tempo não existia telefone celular) e pediu uma ligação telefônica para Linéa, no Rio de Janeiro. O comandante da Lady Laura, a super lancha do cantor Roberto Carlos ancorada no Rio Capibaribe, se meteu na conversa no canal 25 e convidou o amigo Coca a atracar a contrabordo, ele ia providenciar um jantar. O Pasárgada ficou pequeno junto da Lady Laura, que dispunha de uma cozinha enorme com câmara frigorífica abastecida, e o jantar foi servido numa mesa com oito cadeiras no salão principal.

Nesta 2ª regata Recife-Noronha foi um grupo razoável de veleiros do Rio e de São Paulo pastoreados pelo Nilson Campos do Ana C e em Noronha houve desentendimentos entre os cariocas e os pernambucanos, sendo que estes acabaram por se desentender entre si. O Maurício Castro se aborreceu com o acontecido e em consequência foi velejar no Caribe em 1988 descontinuando o programa de regatas.

Mas a semente havia sido lançada, a ilha precisava incentivar o turismo, e o pessoal do Iate Clube do Recife assumiu a organização, arrumando um patrocínio com o Banorte de Pernambuco. A regata passou a se chamar Regata Banorte (veja a marca na camiseta do Maurício na foto). O patrocinador exigiu que a Marinha participasse do evento vistoriando os barcos com referência aos itens de segurança e a Marinha foi além, disponibilizando a partir de 1991, quando a organização da regata passou para o controle do Cabanga, uma ou duas corvetas para acompanhar a regata e dar cobertura aos competidores. Uma ideia infeliz envolver os milicos, eles passaram a querer controlar tudo, passaram a fazer palestras chatíssimas na semana que antecede à regata, exigiam que os barcos se comunicassem com a corveta duas vezes por dia para dar a posição, ‘organizavam’ o tráfego dos caíques no acesso ao porto em Noronha. O Banorte foi liquidado, e a partir do ano 2000 tentou-se minimizar a interferência dos milicos, eles disfarçaram levando o navio-escola Cisne Branco para ajudar na cobertura. Tem gente que acha que está melhorando, mesmo que nenhum navegador das antigas tenha mais a expectativa de que venha a ser como no tempo da organização do Maurício. Agora em 2008 os 123 barcos inscritos só puderam largar em regata depois de obterem uma carta de liberação da Marinha!

Em setembro de 1989 eu estava namorando com Lena, que se interessou em ir. Estavam inscritos dois barcos da Bahia, o Bola 7, que ia para ganhar, e o Fuzuê, um Velamar 36, que ia passear. Ivan Bola 7 estava com a tripulação fechada, e fui procurar Paulo Brandão do Fuzuê. Eu não o conhecia, mas ele conhecia a mim, e combinamos que iríamos ele, Fleury, Lena e eu até Recife. Conforme fosse nosso relacionamento na viagem poderíamos renegociar a ida a Noronha.

A saída de Salvador foi muito dura, com temporal, a vela mestra no 3º rizo, e Paulinho gostou do meu desempenho. Com dois dias de mar Lena assumiu a cozinha de bordo como uma velejadora de estirpe. Após 77 horas de velejada ancoramos às 21:30 de sexta-feira 22 de setembro no Iate Clube do Recife na hora do coquetel da regata. No sábado chegou o restante da tripulação que foi de avião e Paulinho fez o convite formal, que eu aceitei com duas condições: primeiro que ele se dispusesse a correr a regata com seriedade, e segundo que Lena e eu voltaríamos de avião. Tudo combinado fui com Lena ao aeroporto enquanto eles abasteciam o barco e conseguimos passagens de volta para quarta-feira 27 num voo da Nordeste Linhas Aéreas.

A largada foi numa raia montada em frente à Boa Viagem, às 10:10 de domingo 24 de setembro, com vento E-SE de 20 nós. Largaram 16 barcos, Bola 7 na frente, seguido de Tito V, Fuzuê, Carcará e Girosplit. Pelo meio da tarde o Fuzuê andando bem estava um pouco atrás do Neptunus, um Fast 41, quando este começou a fazer água e retornou. Pouco depois o Girosplit chamou no rádio dizendo que havia arrebentado o head-foil e ia retornar. No final da tarde vimos crescer o Bola 7, um MB-45, e não conseguíamos entender como é que estávamos nos aproximando dele; mas logo ficou claro, ele também estava voltando. Pela segunda-feira de manhã haviam retornado sete barcos! Ai a nossa genoa rasgou!

Tudo bem a bordo, descemos a genoa e subimos uma buja, que puxou bem o barco naquele vento. Colocamos piloto automático e passamos um dia relaxado. Lena, muito compenetrada, competente cozinheira de bordo, pegou linha e agulha e consertou a genoa. O Tito V e o Carcará no maior papo no rádio, todo navio que passava eles pediam a posição e a previsão do tempo. Nós não víamos estes barcos, mas eles não deviam estar longe, porque enquanto eles falavam nós víamos os navios vindo do norte para o sul. Estavam muito otimistas com a quebradeira geral, o Tito V achava que ia ser fita-azul e o Carcará ia tirar o primeiro lugar na classe.

Lá pelas 20 horas de segunda-feira o Tito V falou com um navio, e pouco depois nós vimos as luzes do navio, vindo do sul para o norte. Lena virou-se numa comandante: troquem a buja pela genoa, tirem este leme de vento e vão timonear. Como o pessoal fez corpo mole ela ameaçou que não cozinharia mais. Pois bem, trocamos a vela e eu timoneei quase 10 horas seguidas. Quando o dia amanheceu Noronha estava no visual, e vimos com preocupação duas velas na proa. Mas eram barquinhos que não estavam na regata, e logo os passamos. A coisa de 5 milhas da Ponta da Sapata, fui chamar a Comissão de Regatas no rádio e não tínhamos mais bateria. Instalamos uma bateriazinha de carro que Paulinho havia levado para numa emergência podermos ligar o motor e chamamos a Comissão, comunicando que estávamos chegando. O Tito V nos chamou e perguntou onde estávamos. Quando eu disse ele expressou de forma muito clara o desalento dos pernambucanos. Até hoje, quase 20 anos depois, quando encontro o Tito ele se lembra. Uma vez eu disse pra ele: você não esquece esse assunto, e ele: quem apanha nunca esquece.

Cruzamos a raia às 06:47:42 de 26 de setembro, na condição de fita-azul. Foi festa a bordo, com champagne gelado e tudo. Lena se sentiu mal com a bebedeira de manhã cedo com estomago vazio, e desembarcamos para ela ser medicada no hospital da ilha. Depois alugamos uma moto e fomos para a pousada de D. Pituta, na Vila dos Remédios. Pela tarde percorremos as praias do “mar de fora” (vide mapa acima), com destaque para a Enseada do Sueste, onde fica a sede do Projeto Tamar e onde os barcos se abrigam quando o vento sopra de nordeste, tornando a Enseada de Santo Antônio impraticável como porto.

Na quarta-feira pela manhã Lena e eu rodamos de moto pelas praias do “mar de dentro”, todas de areia branca e águas tranquilas com o vento sudeste do mês de setembro. As praias são de fato encantadoras, e hoje as empresas de turismo as vendem como maravilhas do mundo. Para uma descrição detalhada e fotografias recomendo o site http://www.revistaturismo.com.br/Dicasdeviagem/fernoronha.htm. Visitadas as praias seguimos para a base do Morro do Pico, onde deixamos a moto e subimos o Picão até o topo, onde ficava o farol; naquele tempo havia uma escada de barras de ferro enfiadas na rocha. Lá dos 323m de altitude se descortina todo o arquipélago, e é ali que você pode compreender o encantamento da transparência das águas vendo o fundo do mar e os golfinhos nadando na Enseada dos Golfinhos.

Descíamos para almoçar quando Lena tocou a perna na descarga da moto… e voltamos para o hospital para medicar. Embarcamos num Bandeirantes da Nordeste às 15:30, fizemos uma conexão para Vasp em Recife e chegamos em Salvador às 19h, guardando a recordação de uma fita-azul, coisa que hoje só é possível almejar com um barco de pelo menos 2 milhões de dólares e uma tripulação profissional.

Em 1990 a regata estava em vias de acontecer com poucos barcos, quando foi suspensa porque caiu um Bandeirantes do Governo do Estado de Pernambuco logo após decolar de Noronha no dia 20 de setembro de 1990 às 19:40. Morreram dois tripulantes e dez passageiros.

Em 1991 foi a IV Regata Banorte, que não pude correr porque gastei minhas férias numa viagem em junho para atravessar a Sibéria de trem. Mas em setembro Lito Fernandez levou o Curumim para a raia, e num final de semana peguei uma carona e velejei com a tripulação dele até Maceió.

Em 1992 Lena e eu marcamos férias na época da regata e fomos no Pinauna 4, um Fast 41. Eu não estava com pretensão de ganhar, e não estava a fim de encher o barco de homens mal cheirosos. Lena concordou em convidar duas ex-namoradas boas tripulantes, Vicka, com quem tive planos no passado de fazer uma viagem de volta ao mundo, e Lizete que foi velejar comigo na Polinésia. A ideia era voltarmos devagar, conhecer o Atol das Rocas, entrar no rio Potengi em Natal e descer costeando, de volta à Baia de Todos os Santos. Embarcaram em Recife para a regata Pedro Bocca, meu amigo e ex-namorado de Lena, Claudinha e Marcio Cruz recém-casados. Vicka montou um esquema de reabastecer o barco com comida congelada feita em Salvador e despachada de avião, que nós pegamos em Recife antes da regata e em Natal quando voltávamos.

Entramos no Rio Capibaribe na madrugada de sexta-feira 25 de setembro de 1992. Já estávamos ancorados pelo meio do rio em frente ao Recife Iate Clube, algumas das meninas de banho tomado e preparando uma comida quando aparece Serginho Bittencourt, que estava no Suzy Dear, um Swan 57, e insistiu para que colocássemos o Pinauna a contrabordo deles que estavam no píer. Estava uma correnteza forte de vazante, a quilha do Pinauna enganchou num dos muitos cabos de âncora que estavam em torno do píer e foi a maior confusão. Serginho pulou naquela água imunda com faca e lanterna para safar o barco e se exibir para minhas tripulantes, e depois de tudo acabamos ancorando de novo no meio do rio para dormir em paz.

Quando acordei na sexta-feira Lizete já havia preparado um lauto café da manhã e uma recepção para Pedro e Claudinha, com comprimidos para enjoo e regras de comportamento escritas num painel. Márcio Peneirão trafegando com o caíque conseguiu virar e afundar o motor, o que tomou todo o dia dele para limpar, secar e fazer voltar a funcionar. Reabastecemos o barco, participamos da reunião de Comandantes que foi um vexame, com os milicos se metendo a ambientalistas amadores. Fui obrigado a tomar a palavra como velejador sensato e ambientalista profissional e propor novas regras, que foram aprovadas. Fomos jantar dignamente no Porcão, numa mesa que não sacudia e antes da meia noite estávamos embarcados para dormir como justos.

A largada da regata foi no sábado às 13:45 em frente à Boa Viagem, ψ=8º08,5’S, λ=34º53,8’W. Vento sueste inicialmente 16-18 nós, crescendo no final da tarde para 23-24 nós com rajadas de 30! Ao raiar do dia de domingo 27, com vento de 30 nós, descemos a mestra para segunda forra de rizo. Nas primeiras 24 horas fizemos 185 milhas, e o cabo do rizo quebrou por três vezes. Lá pelo meio dia subimos a mestra toda e deixamos a genoa enrolada a 110% do triângulo de proa, o que não era o ótimo mas ficamos em paz sem que ter que remendar mais cabo de rizo. Ao amanhecer de segunda-feira tínhamos Noronha no visual e estávamos sendo escoltados por um cardume de golfinhos que faziam piruetas em torno do barco; Pedro Bocca levou mais de uma hora filmando os peixes, os pássaros e a aproximação da ilha, o que de fato é um visual encantador!

Cruzamos a raia de chegada às 7h 41’ 29”, sexto no geral e segundo na classe. Nós estávamos inscritos na Classe Aberta A, que incluía os barcos de 40 a 50 pés de LOA e não fazia correção de tempo. O Pinauna tinha LOA 41 pés, e o vencedor na classe foi um Swan 48, o Cangaceiro, que chegou na nossa frente 56’35” . Às oito e meia estávamos comemorando com champagne gelado ancorados no porto, na Baia de Sto.Antonio, ψ=3º50’S, λ=32º24’W, e ficamos ali por dois dias e meio de festas e turismo. Alugamos um bug, visitamos as praias, mergulhamos com os golfinhos e confraternizamos com os outros velejadores. Na quarta-feira 30, às 21:20, após a entrega de prêmios subimos a âncora e seguimos com os alísios de vento em popa para oeste, na direção do Atol das Rocas.

Anúncios

Uma resposta para “Fernando de Noronha e a Refeno – Parte 2

  1. Bons tempos, hein?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s