Mais um Carnaval que passou


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Com o Avoante ancorado em frente à Ilha de Itaparica, escutando os ecos momesco de mais um Carnaval, me peguei em mais um daqueles momentos de devaneio enquanto olho o mundo sentado sobre o cockpit.

A Bahia tem sim um dos melhores e diversificados carnavais do mundo, mas não pense que o som da guitarra baiana, que hoje anda meio abafado pelas letras de mau gosto de um indecifrável ritmo conhecido como quebradeira, contagia tudo e a todos.

Saíram de cena Dodô, Osmar, Armandinho, Morais Moreira, deuses imaculados que carregaram de energia o frevo e a alma baiana, e entrou no palco o descompasso do nheco nheco, lepo lepo, um tapinha ali, outro naquele lugar e assim o baiano vai virando as costas e esquecendo seus outrora geniais compositores e poetas que deram asas e fama aos batuques dos seus afoxés e a beleza de sua história.

Não quero, não posso, não sei e nem devo mergulhar para chafurdar no que causou esse vácuo de ideias, mas fico intrigado com tanta falta de criatividade e com a maciça difusão dessas letras cantadas até por artistas renomados.

Num sopro mais leve de vento o Avoante balançou na ancoragem e olhei para o alto para decifrar as nuvens carregadas que povoavam o céu. A natureza prometia muita chuva, mas também deixava no ar a esperança de um Sol quente e brilhante. Os foliões não estavam nem ai para a cor da serpentina, já que o importante era que a cerveja estivesse gelada para não perderem a coreografia do lepo lepo. A natureza que se resolvesse!

Mas na verdade eu não olhava para o céu apenas em busca dos sinais emitidos pela natureza. Olhava também a procura de um pequeno monomotor branco que traria nossos amigos de Natal, Dibe, Abigail e Fernando, para passar os dias de Carnaval a bordo do Avoante, quando de repente o som rouco de uma turbina atravessou em meio ao ritmo da quebradeira. O que danado é quebradeira?

O avião sobrevoou a ancoragem, como um abre alas dos ares, e saiu de fininho para descansar da longa viagem no pequeno aeroporto da Ilha. Em terra, um grupo de papangús animava os passantes do calçadão e eu fiquei ali lembrando os antigos carnavais na casa dos meus pais. Eita tempo bom que não volta mais!

O papangú com sua fantasia cravejada de bolas coloridas e sua mascara de alegria era a essência da irreverência que marcou os grandes carnavais do passado em que os clarins davam o tom. Ele faz parte da corte de um rei gorducho, felizardo e invejado por estar ao lado de uma rainha que exala fluidos femininos de encantamento e prazer. O rei ainda reina, mas suas rechonchudas medidas de excelência deu lugar a linhas mais magras que demonstram o declínio de um reinado.

Os papangús que caminhavam na orla de Itaparica me fez sentir que o coração do bom folião ainda pulsa. Sob as fantasias mascaradas visualizei sonhadores que buscavam resgatar a alegria e a paz que precisamos ver espalhadas pelas nossas ruas. Creio que o lepo lepo vai passar como fumaça sobre a terra Brasil, deixando para trás apenas a lembrança do mau gosto gravado em nossos ouvidos, mas o papangú todo ano estará desfilando e nos fazendo reviver para sempre os mais felizes dias de momo.

Um trovão me fez despertar dos devaneios e em seguida o telefone tocou anunciando que os amigos que vieram no aviãozinho branco estavam esperando na marina para embarcar no Avoante.

É muito gostoso receber amigos a bordo do nosso veleirinho que nessas horas se mostra maior do que muito gigante dos mares. Dibe, Abigail e Fernando poderiam muito bem ter escolhido uma boa pousada para passar os dias de Carnaval, mas não, queriam mesmo era o aconchego apertado do nosso Avoante. É sempre assim quando adubamos nossas amizades com o carinho e atenção que toda amizade merece. Não precisamos de nada mais do que a sinceridade, além da alegria estampada no rosto, para ter um bom amigo sempre junto de nós.

Eles vieram para passar apenas um dia, tempo curto demais para matar as saudades e colocar os assuntos em dia, mas como Lucia sempre consegue um pouco a mais da conta, eles ficaram dois dias. A chuva não deixou que fizéssemos uma velejada carnavalesca, e até tentamos, mas ela também não foi suficiente para esfriar os ânimos.

O Carnaval passou, os amigos se foram, os acordes do lepo lepo continua ecoando pelo mundo, os papangús guardaram a fantasia e a Bahia parte agora para outro ritmo. O Avoante continua balançando suave ancorado ao largo da Ilha de Itaparica.

As nuvens se foram, mas hoje percebi que o vento já apresenta sinais de mudança. É a natureza, assim como a vida, seguindo em frente.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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3 Respostas para “Mais um Carnaval que passou

  1. Texto mais bonito, Nelson!
    Mas é realmente uma pena ver o que estão fazendo com a música popular brasileira, não só a de carnaval, mas como um todo…

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  2. Nelson! Lúcia! Aproveito, mais uma vez, para agradecer. Muito obrigada! Dois dias muito intensos, verdadeiros. Vocês são nossos irmãos. Adoramos vocês. Beijos…. Abigail

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  3. Meu irmão, esse seu texto foi dos melhores que já li… obriga pela mensagem, obrigada pelas lembranças dos nossos carnavais com papai… beijo no coração.

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