Fernando de Noronha e a Refeno – Parte 1


NORONHA E A REFENO 3 O geólogo e velejador baiano Antônio Sérgio Teixeira Netto, o Sérgio Pinauna, é um dos grandes conhecedores das águas navegáveis do Brasil e dos segredos que existem escondidos sobre as rochas e solo do nosso continente. Sérgio que aparece nessa histórica foto ao lado do criador da Regata Recife/Fernando de Noronha, Maurício Castro, quando soube que eu era proprietário do Avoante, um dos barcos que já lhe pertenceu, chegou para me dar um abraço e disse que tinha uma boa história para me contar. Ao ler o texto fiquei encantado com a riqueza que tinha em minha frente. Os escritos de Sérgio merece fazer parte de qualquer exposição que conte a história da Refeno. Sem paixão e com muita sinceridade Sérgio conta tudo o que sentiu e viveu nas Refeno. Deixo aqui meus agradecimentos e parabéns ao geólogo/velejador por proporcionar aos leitores do Diário do Avoante uma navegada maravilhosa por uma boa parte da história da vela de oceano do Brasil. Como o texto é longo, dividirei em três partes.

 

Fernando de Noronha e as Refeno

A quebra do Gondwana, o supercontinente do sul, ocorrida no Cretáceo há cerca de 120 milhões de anos permitiu a implantação do oceano Atlântico Sul e o levantamento da maior cadeia de montanhas do planeta, a qual em inglês é denominada de Mid Atlantic Ridge. Esta cadeia sozinha é maior que os Andes +Rochosas+Himalaias, tem forma sinuosa e sofre um desvio notável para a esquerda na altura do equador, latitude zero, desvio este reconhecido pelos geólogos como a Zona de Fratura Romanche.NORONHA E A REFENO

Antes que você desista de ir adiante, a localização da ilha de Fernando de Noronha no contexto geológico vai ser o mais breve possível, e prometo que vou falar da história, dos mergulhos, das praias e das regatas que os pernambucanos promovem para Noronha desde 1986, o ano em que os gringos começaram a testar os satélites que iriam compor o sistema GPS.

A Cadeia Meso-Atlântica sobe das planícies abissais a uma profundidade de 4 a 5 km, e alguns picos vulcânicos botam a cabeça fora do nível do mar atual, como por exemplo, Trindade e Martin Vaz defronte ao Espírito Santo do lado oeste da cadeia, Santa Helena do lado leste, Fernando de Noronha 200 milhas náuticas a sul da Fratura Romanche, na latitude 4°S. Para o norte do equador temos do lado oeste da cadeia as Antilhas, Bermuda a 32°N 65°W, e do lado leste Cabo Verde, Canárias, Madeira, Açores, e lá junto ao circulo polar a ilha da Islândia, o local emerso da maior atividade vulcânica no planeta.

Tudo isso é constituído por rochas basálticas, que o manto vomita lá de dentro para fazer a crosta oceânica. Não tem nada a ver com os continentes implantados sobre uma crosta de granito, muito mais velha e mais espessa.

Noronha fica a 200 milhas de Natal, RN, no limite das águas territoriais brasileiras, e lá o relógio tem que ser adiantado de uma hora em relação a Natal ou aNORONHA E A REFENO 1 Recife. O arquipélago fica na longitude de 32,5°a oeste de Greenwich, portanto no fuso horário de 30°; têm 26 km2, o dobro da Ilha de Maré na BTS, o suficiente para lá ter sido construído pelos americanos em 1942 um bom aeroporto que transformou a ilha numa base avançada durante a 2ª Guerra Mundial. Esta vocação militar fez com que a ilha fosse um Território Federal de 1942 até 1988, quando os militares foram retirados e a área passou a ser um Distrito Estadual para o qual o governador de Pernambuco nomeia um administrador-geral. Também em 1988 todo o arquipélago até a isóbata de 50m passou a se constituir num Parque Nacional Marinho subordinado ao IBAMA, que mantendo a tradição militar, tem uma lista de 16 ‘proibidos’ e 5 ‘permitidos’ com autorização, que você acessa após pagar a taxa de preservação ambiental. A TPA para permanência de até 10 dias é de R$34,48/dia, a partir dai sobe num crescente de forma que quem quiser passar um mês vai pagar R$2847,42 (preços de 2008).

Quando Gaspar de Lemos bordejou por lá em 1500 levando para Portugal a carta de Caminha, a ilha era desabitada. Em 1504 o rei D. Manuel a doou para Fernão de Loronha, o banqueiro que financiou a expedição de 1503, um cristão-novo que nunca cuidou de ocupá-la. A ilha tornou-se um porto de piratas, tendo os holandeses se estabelecido nela em parte do Sec.XVII. No Sec. XVIII foram os franceses. Em 1737 os portugueses expulsaram os invasores, devastaram a vegetação e construíram 10 fortes, dos quais duas ruínas ainda existem, o Forte de São Pedro do Boldró e a Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios. Até a independência do Brasil não era permitido o desembarque de mulheres! Em 1832 o Beagle ancorou na Enseada de Santo Antonio e Charles Darwin reconheceu as rochas vulcânicas. Em 1938 durante o Estado Novo de Getulio Vargas a ilha foi convertida em presídio político e durante a 2ª Guerra Mundial tornou-se base militar com um aeroporto. Nos anos 70 os pernambucanos começaram a navegar para lá em veleiros de recreio. Em 1984 o Projeto Tamar reconheceu a ilha como um local importante para a reprodução de tartarugas marinhas e nela instalou uma estação de monitoramento.NORONHA E A REFENO 2

Instituído o Parque Nacional em 1988, o aeroporto militar passou à categoria de civil, recebendo um voo semanal; a pesca foi proibida e a população residente passou a viver essencialmente do turismo incipiente e do assistencialismo governamental. Em 2002, a UNESCO diplomou o arquipélago como Sítio do Patrimônio Mundial Natural. Fernando de Noronha hoje é um destino turístico com voos diários, centenas de pousadas, uma frota de bugs e motos financiados pelo Banco do Nordeste para taxi e locação aos turistas, três empresas de mergulho com barcos apropriados, equipamento de mergulho autônomo moderno e instrutores credenciados. A população nativa é de 3000 habitantes (IBGE, 2008), e uma pessoa de fora só pode se tornar residente se casar com um nativo ou for autorizada a montar uma empresa dentro do planejamento turístico da ilha. Existe uma agencia do Banco Real com caixa automático para saques e pagamentos, comunicação por telefone e vários pontos de conexão wireless para internet.

Não existe uma etnia noronhense e se vê muito pouca criança por lá, sendo de 50% a taxa de mortalidade infantil (IBGE, 2000), absurdamente alta para os padrões brasileiros atuais. Os nativos da primeira geração dos lá nascidos são descendentes dos milicos e dos prisioneiros. Existe um hospital com 9 leitos assentado numa antiga instalação militar, do qual já fiz uso por três vezes conforme relatado adiante. Até o final do Sec.XX a presença feminina era uma pobreza, quantitativa e esteticamente, uma calamidade que vem sendo resolvida com a importação de potiguares. Em compensação a fauna marinha é bela e mansa e você pode ser fotografada junto aos golfinhos, tartarugas e tubarões bem alimentados e amigáveis, tanto quanto um tubarão possa ser.

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Uma resposta para “Fernando de Noronha e a Refeno – Parte 1

  1. Muito bom!
    Fiquei curioso pelo restante.

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