Contos do mar


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O texto abaixo é do velejador Danilo Fadul Muhana, comandante do veleiro baiano Farnangaio. É um conto, verídico, sobre um delegado/pescador, na Bahia dos anos 40, e que tem o mar como pano de fundo. Quero desde já parabenizar o amigo Danilo pelo texto e fico esperançoso de receber outros mais. A única sincronia da imagem acima com o texto é a bela canoa.

O VELÓRIO SEM DEFUNTO (Sauipe, 10 de Fevereiro de 1997).

Malaquias esperou 40 anos para se aposentar como delegado de Itapuã. No início de sua carreira, lá pela década de 40, Itapuã era uma pequena vila de pescadores, com pouquíssimos veranistas, e quase nada a fazer.

Fora soldado raso, cabo e por fim, delegado. Toda semana saia pelo menos duas vezes para pescar. Comprara uma pequena catraia na Ribeira quando serviu por lá numa Segunda-Feira Gorda.

Agora, com sua pequena aposentadoria, realizaria seu sonho de pescar todos os dias, ou pelo menos nos dias que Iemanjá e Nosso Senhor Bom Jesus dos Navegantes permitisse. Seus companheiros de pesca já tinham morrido ou abandonado à vida no mar e estavam vivendo de caseiros ou vendedores ambulantes.

A catraia, totalmente reformada, estava novamente pronta para ir ao mar. Naquela Terça-Feira, véspera da semana santa, todos estavam saindo para conseguir sua moqueca e quem sabe, alguma boa pescaria para ajudar na casa. Seus filhos, já todos casados, moravam em Salvador e apenas nos finais de semana apareciam para visitá-lo e comer aqueles deliciosos tira-gostos que somente D. Marcolina sabia preparar.

Procurou algum companheiro do dominó para fazer uma pescaria noturna e foi avisado que Tonho, filho do mestre Mané, estava de férias, recém-chegado de Sobradinho e louco para fazer uma pescaria.

Mandou chamar o jovem negro e se assustou com o tamanho daquele menino que saiu para ganhar a vida há pouco mais de cinco anos. Combinaram sair antes das 5 horas da tarde para escolherem bem o pesqueiro que passariam a noite.

Tarrafou algumas pititingas, comprou um punhado de camarões, verificou o aviamento e foi dormir. Pediu a D. Marcolina para só acordá-lo lá pelas 4 horas da tarde.

Tudo pronto e verificado foram ao mar. Era noite de lua, quase cheia, e o mar estava calmo. Ficaram pescando na “pedra da bóia” um pequeno pesqueiro a pouco mais de duas milhas ao norte do Farol de Itapuã. A pescaria estava boa, sem peixes grandes, mas com muitos jaguaraçás e jabús. A moqueca estava garantida. Eram quase 11horas da noite quando um estalo se ouviu no bico de proa. Seu Malaquias, confiante no seu barco, ainda perguntou ao Tonho se este tinha colocado alguma garrafa na proa. Foi em vão.

Menos de um minuto depois a água já entrava abundante. Tentaram desamarrar o cabo da poita, mas o peso de ambos fez a proa acabar de se abrir em duas e o barco lentamente foi ao fundo. Ficaram ali, os dois sem saber o que dizer. Seu Malaquias explicou que durante a vazante seria impossível tentar nadar para Itapuã, o certo seria ir em direção norte até chegar numa praia qualquer, talvez Ipitanga.

Tentou nadar e lembrou-se das três pontes de safena que fizera há pouco mais de um ano. Chamou Tonho, explicou-lhe a situação, mandou recados para os familiares, lembrou-se onde guardara uma apólice de seguro de vida (exigência do gerente do banco quando foi fiador para o filho trocar de carro) e, após Tonho tentar argumentar que não o deixaria, mas diante dos argumentos de Seu Malaquias, seguiu na direção indicada. Enquanto nadava ficava lembrando seu tempo de moleque quando desde muito menino dava a volta nas redes de xaréu avaliando quantos peixes havia dentro.

Algumas horas depois, como previra Seu Malaquias, chega ao local chamado de Praias do Flamengo, aquele jovem forte, um pouco cansado, mas sem demonstrar o esforço que havia passado. Nos primeiros minutos fica atônito sem saber o que fazer nem o que dizer. Avista de longe uma casa acesa, com algumas pessoas na varanda, se aproxima, pede licença, e após algum receio dos moradores explica a situação e pede uma carona ate Itapuã.

Já eram quase 3 horas da madrugada quando chega em casa, ainda molhado, quase chorando, conta ao pai o sucedido. Resolvem não avisar nada a D. Marcolina e telefonam para o filho de seu Malaquias para este decidir o que fazer. Este ignora a preocupação de Seu Mané, liga para a mãe, conta o ocorrido, reúne a família toda, parte com auxílio de um taxi para Itapuã. Era quase 5 horas da manhã quando a família chega. O clima era o pior possível, muitas versões desencontradas já corriam de boca em boca por toda Itapuã.

A maior parte dos moradores antigos já estava na casa e alguns escolhidos foram enviados às praias para aguardar o corpo chegar. Todos os barcos que não haviam saído também partiram de encontro ao local do naufrágio.

No mar, após as despedidas e recomendações, Seu Malaquias rezou, refletiu sobre a vida, retirou toda sua roupa para aliviar o peso e o cansaço, amarrou os documentos molhados com um saco plástico no braço e procurou algo para descansar. O brilho da lua ajudou e ele viu, há pouco mais de 10 metros, o pequeno isopor utilizado para guardar as pititingas e camarões. Nadou até lá, esvaziou-o, lavou todo, apertou o elástico que o envolvia, abraçou-se a ele e foi tentar rezar, sonhar e dormir acreditando que assim, a morte viria sem muito sofrimento. E dormiu bastaste. Não um sono relaxante, mas um estágio intermediário entre o verdadeiro sono e um apagão mental. Recobrou a consciência com o claro do dia sobre seus olhos. Por alguns segundos não entendeu o que se passava, estava anestesiado de frio e sede, mas logo depois verificou sua posição e já estava pronto para uma nova batalha.

Em terra, nenhuma notícia boa, nem ruim. A ansiedade para o corpo dar a praia era imensa. As esperanças de encontrar um homem de 68 anos, com três pontes de safena eram quase nenhuma. Apenas D. Marcolina mantinha uma pontinha, talvez porque fora acostumada a aguardar o marido por longas noites de vigília quando este saia para caçar algum marginal perigoso que tinha escolhido Itapuã para se esconder.

Durante a noite, como era previsto, a maré esvaziou, mas também encheu, e perto das 9 horas da manhã, seu Malaquias estava de volta a frente de Itapuã, muito mais perto de terra do que poderia imaginar. Os barcos tinham ido todos para o norte e ele acreditou que ainda existia uma chance. Resolveu nadar. A cada minuto levantava a cabeça avaliando o caminho percorrido, mas sem nunca esquecer seu velho e pequeno isopor “salva-vidas”. Já podia ver os banhistas na praia.

Em casa, muitas velas acesas, um caixão com alças douradas e finamente envernizado, que fora enviado pelos colegas da delegacia, já aguardava pelo defunto sobre a mesa da sala.

Às 11 horas, Seu Malaquias chega à Pedra que Roncava. Nu, com o isopor na mão. Um garoto que pescava com uma varinha de bambu é o primeiro a vê-lo. Fica assustado com aquele velho maluco chegando do mar, mas se aproxima e pergunta qualquer coisa. Seu Malaquias pede sua camisa, enrola na cintura e vão juntos andando pelas pedras até a praia. A festa em casa durou até o Domingo de Páscoa. Cada visita que chegava ia colocando o gelo a as bebidas dentro do caixão. Hoje, seu Malaquias mora em Sauipe, continua fazendo suas pescarias na praia e é conhecido por todos como “Dr. Delegado”.

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3 Respostas para “Contos do mar

  1. Bela história e bela narrativa!
    Grande abraço ao escritor e ao Dr. Delegado!

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    • Lindo, lindo, lindo! Ainda mais porque é verídico! Uma perfeita ilustração de um bom baiano.
      Parabéns ao escritor e longa vida ao Dr. Delegado!

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  2. Mais uma vez fica a grande dica para todo e qualquer náufrago:
    Nunca se desespere.

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