A Tempestade – Parte 14


nat rec 2012 (11) marcelinho

Novela boa é aquela que a gente assiste um capítulo e fica torcendo que chegue o dia seguinte para assistir o outro. Pelo menos é assim na telinha e acho que é isso que aposta o velejador Michael Gruchalski. A Tempestade chega ao 14º capítulo, cada vez mais carregada de emoção, e parece que os deuses da natureza decidiram dar um refresco aos nossos personagens. Parece!

O vento e a chuva diminuem

Naquele momento, a superfície do mar, com a mudança sofrida em duas horas de vento ascendente, era inacreditável. O mar estava raivoso, espumando e frenético. Impressionava muito mais quando as cristas das ondas eram iluminadas pela luz prata dos clarões dos relâmpagos. Adicionando-se o efeito do reflexo de bilhões de prismas que a precipitação dos pingos de chuva provocava, a visão causava sentimentos desencontrados que iam de encanto e beleza ao terror paralisante.

O que dizer do comportamento do nosso barco, um veleiro de trinta pés, menos de dez metros, no meio daquela confusão? Daquela pancadaria sem igual, promovida pela musculatura de mil gênios do mal? Se veleiros falassem, o que estaria dizendo ele ali, naquela hora? Que tipo de xingamento, quantos “ais” e “uis” teria soltado? Quantas dores pelo casco, ampliadas pela torção das cavernas, pelo esforço do verdugo, pela pressão na enora, pelo estiramento dos membros superiores, os fuzis, esticadores, terminais e timbós. Tudo se contorcendo, trabalhando no limite.

O nosso veleiro tinha quase vinte anos de idade e, com certeza, nunca tinha passado por um aperto tão grande. Lembrei-me do estalo que tinha vindo debaixo do cockpit quando o barco mergulhou de cabeça naquela onda gigantesca havia menos de trinta minutos. Procurei não pensar em nada. Afinal, um estalo é um estalo, nada mais.

O capitão sabia que o vento, soprando do noroeste, estava atingindo nosso barco pela alheta de popa e que estávamos sendo levados para o oceano aberto, para o leste/sudeste, portanto. O motor trabalhava bem, mas perdia metade da sua função por causa da descentralização do leme de fortuna. Quanto mais tempo nós demorássemos em endireitar o leme para que ele atuasse centralizado, pior seria para recuperar a distância perdida em relação à linha da costa. Em uma hora tínhamos percorrido quatro milhas ou mais para fora. Isso era bom sim, por causa da tempestade, mas seria ruim no dia seguinte se, posicionados muito ao sul, tivéssemos que enfrentar uma orça fechada com os previsíveis ventos de leste/nordeste, que dificultariam a aproximação de Aracaju.

É certo que com um leme de fortuna, só mesmo um louco se aproximaria das plataformas com vento e chuva de trinta nós. Por isso, com um leme de fortuna, o correto seria meter a proa, o nariz do barco, rumo para a África. Para fugir de praias, pedras e o desastre certo. Era um dilema. Num primeiro momento, ser levado para onde não se quer ser levado e, sem seguida, ter que ir para onde não se quer ir por uma deficiência técnica incontornável.

Ao primeiro sinal de diminuição da força dos ventos, teríamos que tomar o rumo sudoeste, mais para perto das plataformas cuja distancia era, no início da tempestade, de dezessete milhas. Isso, além de nos aproximar de terra e melhorar o sinal de rádio VHF do tráfego marítimo entre plataformas, facilitaria também encontrar barcos pesqueiros e eventual socorro como reboque.

Fácil de imaginar, difícil de realizar.

E o primeiro sinal do arrefecimento da tempestade foi claro: a frequência dos raios diminuiu e começou a haver um espaçamento de alguns segundos entre o clarão e aquele pavoroso estampido que antecipava as muitas explosões que rolavam pelos céus. Os relâmpagos também já não estavam caindo tão perto do barco.

O segundo sinal também era claro: o vento, repentinamente, diminuiu um pouco. Deu um refresco, cansou, sentiu remorsos e baixou sua fúria para estacionar na casa dos vinte e cinco a trinta nós. Trinta nós ainda é muito, muito vento, quem sabe, sabe.

Realmente, o vento que chegara com rajadas espetaculares de quarenta a quarenta e cinco nós depois de meia hora soprando fortíssimo nesse patamar desceu para estacionar na casa dos vinte e cinco nós o que seria, para bom entendedor, a sua velocidade “cruzeiro” para aquela tempestade. A chuva também mudou, ficou menos espessa e mais suportável. Chovia muito ainda, mas a carga de água era perceptivelmente menor.

Assim, deveríamos aproveitar o momento e tentar começar a tirar a diferença daquela uma hora perdida no auge da tempestade em que vínhamos navegando de forma errática, pelas horas seguintes, com as condições de mar e tempo um pouco mais favoráveis para tentar navegar em um rumo definido por nós e não pela vontade do vento e do barco.

Era uma pretensão um tanto ousada com o barco pulando as cristas das vagas num mar ainda completamente desembestado, levando bordoadas por todo lado. A nosso favor, tínhamos uma vela de proa ainda não usada e tínhamos um motor funcionando bem. Equilibrar o barco, estabelecer o rumo e andar para frente sem rodeios, essa era a tarefa imposta. O relógio marcava dez minutos para a uma da manha.

Eu estava ali, com o filho do capitão debruçado sobre a cana do leme, ele segurando a cana e eu tentando com o punho de marfim do meu canivete soltar ou afrouxar um pouco os cabos para juntos tentar centralizar melhor o leme. Nós só não estávamos girando e deitando o casco na água, porque o pouco do leme submerso permitia algum seguimento e havia velocidade suficiente para fazer nosso veleiro subir e descer as vagas sem afundar ou bater demasiado nas cristas das ondas.

O capitão gritou no vento que era hora de subir a vela de tempestade. Retruquei que precisávamos também de uma chave de fenda afrouxar os cabos da cana de leme que estava descentralizada. O filho do capitão ponderou que o leme, sem o peso na parte externa, balançava e vibrava muito ficando, por vezes seguidas, quase fora d´agua. Pensei: estávamos conversando!! Discutindo! De mudos e perplexos, passamos a tagarelas racionais!

O filho do capitão já se mantinha de pé, a mãos no tubo da cana, o olhar firme no mar esbranquiçado e insano vindo pelo través e pela proa, à procura com certeza, na escuridão, daquelas ondas mais altas com cristas brancas. Não para fugir delas, mas para atacá-las com o costado pela alheta de proa fazendo com que o barco a cavalgasse gradualmente para, em seguida, desce-la também, gradualmente, mas numa velocidade muito maior, surfando, tremendo nas estruturas.

Era importantíssimo para quem estava no controle do leme, durante a passagem da onda por debaixo do barco, mantê-lo a qualquer custo, o mais elevado sobre a superfície da água. Era preciso evitar que a banda submersa das tábuas unidas por cabos do nosso leme de fortuna subisse impulsionada pela mudança da correnteza lateral provocada pela mesma onda. E, controlar o leme sem o peso do corpo na parte exterior da cana era uma tarefa quase impossível. A tarefa exigia do filho do capitão concentração máxima e muita habilidade em sentir a maior ou menor pressão da água sobre o leme, manejando a cana de acordo com a vontade das ondas sem interceptá-las de frente.

O capitão não quis mais esperar e decidiu que era hora de subir a genoa. Teria que voltar ao convés e ir de lá até o proa para liberá-la dos “elastics” presos ao guarda mancebo e engatar a ferragem da adriça ao punho de tope da vela. Quase não tive tempo de dizer “cuidado” porque ele desapareceu rapidamente da minha visão em direção à proa. Abaixado, quase se arrastando, vencendo os espaços, metro a metro.

Um lençol triangular branco de algodão forte de quinhentas onças sem costura. . Esticado pelas três pontas, localizado na porção inferior do estai,

preso a ele por garrunchos de latão com molas fortes. Era o que tínhamos para controlar o barco. Pequeno, belo e eficiente Era o que tínhamos e era o que precisávamos para domar aqueles ventos. Um grito sem nexo perdido no vento veio lá da frente do barco. Um raio iluminou a cena e vi que era o capitão me autorizando a caçar a adriça da genoa. O capitão já tinha virado a cabeça e engatinhava rumo à popa enquanto eu subia a vela. Um, dois, três. Havia muita adriça solta no ar e ela girava louca abraçando o estai e dificultando o serviço. O capitão saltou para o cockpit e pegou comigo a adriça até o limite do estiramento. A catraca completou o que não podíamos fazer no braço. Quando conseguimos por o barco de través no vento, a coitada da escota à sota tremia tanto que parecia uma vara de bambu verde. Enrolava sobre si mesma e dava chicotada para todo lado. Agora, era a vez dela. A catraca, dessa vez, a maior de duas velocidades, acabou rapidinho com a brincadeira. Quando a escota esticou, apesar do punho alto, trouxe a genoa mais para dentro e parou de vibrar.

Não havia tempo a perder. Eu peguei a cana de leme com o filho do capitão e forcei um pouco para centralizá-la, mas não deu certo. A pressão geral sobre o conjunto era demais. Qualquer coisa além da força que colocávamos sobre a cana poderia desfazer os intrincados nós dos cabos, partindo as duas tábuas em pedaços. Isto sem falar que a tendência do leme, quando se queria fazer algo que não aceitava, era subir, entortar e derrapar mais ainda para o lado, impondo sua vontade de sair da água. O fluxo e a pressão sobre o leme vinha de uma correnteza linear criada pelo hélice na água. Com o balanço involuntário e forte do barco sendo deitado alternadamente para ambos os lados, as tábua do leme se contorciam até o limite. O que segurava o conjunto dentro d´agua era tão somente a cana de tubos muito longos e rigorosamente presos pelos cabos nos furos que havíamos feito na fibra do espelho de popa.

Com a adrenalina inundando todas as células do corpo, muito impressionados com a violência da tempestade que, certamente não esperávamos tão forte, descontrolados e desorientados pelo efeito dos raios e trovões tão próximos e sabedores das nossas dificuldades com aquele leme de fortuna, saboreamos nossa primeira vitória: a nossa “storm jib” estava lá, içada, lisa e cordata. Iria, sem medo de errar, dali em diante, acelerar o barco e salvar a nossa pele.

A partir daí, dedicamos todos os nossos esforços, na hora seguinte, em manter o leme baixo e mais ou menos centralizado. Enquanto isto, a genoa cheia pegava pelo través, e com vontade, o vento de mais ou menos vinte e cinco nós. Era ela, e não o motor, que empurrava o barco pela escuridão voando a cinco ou seis nós por hora. A velocidade ajudava muito e com seguimento o barco equilibrou um pouco. Com equilibrar quis dizer, sacolejou um pouquinho a menos, pois continuava recebendo ondas enormes, espumantes e cheias de raiva por todo lado. Nessa altura dos acontecimentos, a chuva ficou fina, mas ainda espetava muito o rosto por causa da violência do vento. Já não era, entretanto, tão fria e impactante, graças a Deus.

E o rumo já era quase sudoeste. Aguenta leme, aguenta.

Michael Gruchalski/Velejador

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Uma resposta para “A Tempestade – Parte 14

  1. Aguenta cacête!!!
    Vixe que tá cada vez melhor, até com o arrefecimento…
    Vamo Gruchalski, bota força, inteligência e fé, que tu tem tudo pra sair dessa!

    Curtir

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