Arquivo do mês: novembro 2013

Eita mundo pequeno – Fim

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Mauricio e Simone concluíram a marinização, aliás, eles já chegaram a bordo do Avoante marinizados, pois foi essa a impressão que tive desse casal gente boa e que me fez relembrar bons momentos de um passado que considerava distante. Foi uma semana de aprendizado que passou como um raio pela Baía de Todos os Santos. Apontamos a proa do Avoante em várias direções e em todas elas tivemos as mais diversas situações de ventos e correntes marinhas, que mostraram quão diversa e a navegação na terra abençoada pelo Senhor do Bonfim.

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Navegamos pelo Canal Interno da ilha de Itaparica nos esbaldando com uma paisagem de encher os olhos, numa velejada de encantar o mais cético dos mortais. Passamos por apetitosos fundeadouros até chegar a tranquilidade de uma prainha bonita chamada de Catu. Foi lá que jogamos o ferro e para passar uma noite iluminada por uma bela lua crescente.

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Foi numa Catu tão cercada de um verde exuberante que abrimos a mente para estudar os meandros de uma Carta Náutica e repassar teorias sobre a vela de cruzeiro no Brasil e no mundo. Visitamos latitudes e cruzamos longitudes para ter a certeza que estávamos no caminho certo, mas me surpreendi mesmo com o interesse demostrado pelo casal em fazer valer os conhecimentos aprendidos, o que me levou a ter a certeza que em breve teremos mais dois cruzeiristas cruzando os mares.

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Depois de uma semana do curso/charter, para fechar com chave de ouro, Lucia tirou da cartola uma deliciosa Moqueca de Banana com Camarão que fez Simone e Mauricio ficarem rindo a toa e, com certeza, tendo vontade de voltar muito em breve. 

  

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Era uma vez um menino

4 abril (193)

Era uma vez um menino que gostava muito de velejar… . Poderia começar assim esse texto, mas ai ele ficaria muito parecido com os muitos contos que encantaram e ainda continuam encantando gerações mundo afora. Mas é porque não?

Faz tempo que queria escrever sobre o menino, mas sempre tive medo de ser traído pela emoção e de não conseguir dizer o que queria sobre ele. Para mim ele era o máximo que uma criança poderia chegar nos quesitos educação, carinho e atenção para com os adultos. Simplesmente ele era o menino que todos adoravam.

Do mar e principalmente de barcos a vela, ele além de saber tudo era um atento observador. Nada do que fosse relacionado com veleiros e competições a vela passava despercebido da sua visão aguçada. Ele era o menino que todos gostavam.

– Tio, você está vendo as linhas daquele barco? Pronto, a partir daí ele destrinchava um rosário de especificações técnicas de fazer inveja a qualquer projetista naval. O menino tinha sete anos.

Tive a felicidade de estar a bordo de um veleiro onde ele era a criança que de tudo queria saber e nós, os adultos que não tínhamos respostas para tudo o que ele queria. O menino era inquieto por respostas.

Todos queriam estar junto a ele e ele queria estar próximo a todos que tivessem o mar e os barcos a vela como paixão, pois os veleiros eram seu mundo. Certa vez ele me falou que o Avoante era um excelente barco e que eu havia feito uma boa compra. Perguntou se eu iria dar uma volta ao mundo e disse que um dia ainda faria isso.

Sempre olhei para o menino com alegria, mas nunca achei que ele fosse realmente um menino feliz. Faltava alguma coisa na vida daquela criança abençoada que eu não conseguia imaginar o que fosse. O menino vivia as coisas do mar e o mar o acolhia com muita alegria, mas eu não conseguia ver o menino feliz, apesar do riso fácil que iluminava sua face meiga.

A última vez que vi o menino ele tinha oito anos. Saímos para uma rodada de sorvete na Sorveteria da Ribeira, em Salvador/BA, onde ele morou, na companhia dos meus filhos, Nelsinho e Amanda, e ele se encantou com Nelsinho, que para mim é o mais especial das crianças especiais. O menino não tomou sorvete, pois saiu de casa recomendado que não poderia e até hoje não entendi o motivo. O menino era super obediente, apesar do desejo ardente pelo sorvete. Por que será que nós adultos fazemos questão de tolher os desejos mais desejosos das crianças?

Crianças não são para sempre, mas algumas passam tão rápido que ficamos sem acreditar. E o menino se foi! Cadê o menino? Por que será que ele se foi? Quem será que julga a vida das crianças? Será que é Deus? Será por falta de anjos? E o menino foi velejar no Céu. E no Céu têm veleiros? Lógico que sim, pois se não tivesse, o menino não estaria lá. O menino adorava o mar e os veleiros. O menino era adorado por todos que o conheciam.

Dez anos. Nesse último mês de Outubro de 2013 fez dez anos que o menino se foi para os mares do Céu. Hoje ele estaria com 20 anos de dedicação ao mar e aos veleiros que tanto amava. Quando ele se foi, tenho certeza que os seres do mar pararam estarrecidos diante da deslealdade da morte. Foram pegos de surpresa com a passagem da sombra daquele menino num caminhar entristecido sobre as águas a caminho do abraço fraterno dos céus. Netuno deve ter ordenado toque de silêncio e luto de três dias em todos os oceanos do mundo. Éolo deve ter ordenado o mesmo aos fazedores de vento e o mundo da natureza deve ter parado para ver o caminhar entristecido daquele menino franzino no rumo das alturas.

Dez anos sem Thulio Mudri, o menino que um dia veio ao mundo para ser um dos reis dos mares. Aquele que Netuno depositava todas as suas esperanças e Éolo fazia questão de produzir o vento mais que perfeito. Thulio se foi e deixou dentro daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-lo a tristeza da saudade.

Thulio era meu amigo/menino em vida e há dez anos é um anjo da guarda a proteger todos aqueles que navegam em barcos a vela pelos mares do mundo, pois é isso que ele sabe fazer de melhor e é isso que ele ama.

Era uma vez um menino que gostava muito de velejar e que num descuido da vida virou um anjo… .

Nelson Mattos Filho/Velejador

Eita mundo pequeno – Parte 2

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A cada hora que passa as lembranças vão clareando um tempo que imaginávamos distante, mas que basta um pingo de lampejo para vir a tona a alegria de uma boa saudade. Vai sendo assim a estadia dos amigos Mauricio e Simone a bordo do Avoante: Um verdadeiro mar de lembranças de uma rua batizada de Ângelo Varela, no belo bairro do Tirol, lá na capital Papa Jerimum do Rio Grande do Norte. Eita mundo pequeno! Depois de bons passeios por uma Itaparica cheia de encantos, a nossa velejada segue pelo canal interno de Itaparica até algum lugar onde possamos jogar âncora para pernoitar. Alias, lugar para ancorar é que não falta nessa Baía de Todos os Santos. Na verdade, Mauricio e Simone vieram a bordo não apenas para passear, mas também para uma pequena aula de navegação e se iniciarem no mundo da vela de cruzeiro, vivendo em loco o cotidiano da vida em um veleiro de oceano. Como se diz no mundo náutico: Vieram se marinizar. Sempre que recebemos amigos a bordo não mudamos em nada nossa rotina, pois queremos que eles vejam que viver a bordo de um veleiro não tem nada de anormal e nem de loucura. Bem, seguimos agora pelo canal interno da Ilha de Itaparica no rumo da marinização de Mauricio e Simone.

Eita mundo pequeno

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Estamos mais uma vez navegando pelas águas abençoadas da Baía de Todos os Santos na companhia de amigos. Dessa vez é o casal Mauricio e Simone, que arredaram o pé de Recife/PE e vieram passar oito dias a bordo do Avoante. Mas o mundo é mesmo bem pequenininho, e foi justamente no conforto do cockpit do nosso veleirinho que, mais uma vez, tiramos a prova. Mauricio chegou até a gente através desse blog e depois dos primeiros contato compareceu ao lançamento do livro Diário do Avoante no Cabanga Iate Clube na intenção de nos conhecer pessoalmente, já que o casal viria navegar no Avoante na Bahia. Até ai nada de mais, além da alegria de conhecer novos amigos. No dia que o casal embarcou, ficamos batendo papo e numa das fases da conversa ele falou que havia morado em Natal/RN na Rua Ângelo Varela. Levantei a vista e perguntei: – Você morou na Ângelo Varela em que época? Já esperando uma boa surpresa como resposta. Quando ele falou que havia morado em meado dos anos 70 não havia mais dúvidas: Eu tinha que conhecer Mauricio, pois morei lá e até hoje minha Mãe mora nas imediações. Foi quando ele falou que naquela época era conhecido como Mauricio Baiano. Que mundo pequeno! Mauricio, meu amigo na adolescência, estava ali sentado no cockpit do Avoante. Em cima da bucha disparei: – E o que danado fizeram com aquela sua cabeleira? Risos e a grande alegria do reencontro. Depois de muitas lembranças, muitas informações sobre os amigos que ficaram espalhados pelo tempo, cada vez mais recordações e a certeza que os amigos são para sempre, resta a felicidade de estar recebendo a bordo do nosso Avoante um amigo que imaginava escondido em algum lugar desse mundo maravilhoso.