A Tempestade – Parte 12


primeira noite Nesse domingão de meados de um mês de Novembro, em que a natureza caminha vacilante entre o sim e o não e as previsões meteorológicas navegam tontas entre as antenas dos satélites, vamos dar continuidade A Tempestade do velejador Michael Gruchalski, que agora passa para o 12º estágio. A imagem meio que fantasmagórica que ilustra esse post, está na cara que não foi tirada a bordo do veleiro dos nossos amigos, pois nem para isso eles tinham discernimento, pois a ordem era se manter vivo e boiando no mar efervescente. Ela está aqui para nos levar ao centro de um dilema multifacetado: “O que somos nós diante da força descomunal da natureza?”

Montanha russa e perigos II

Percebi que o motor tinha desligado sozinho. Desligou por susto, mau funcionamento, marcha lenta ou afogamento? Não dava para saber. Precisávamos dele para dar andamento ao barco. Controlar o barco como o havíamos controlado no início da tempestade. Acelerar no engate, abrir a portinhola de duas abas da entrada do salão, meter a cabeça na escuridão e procurar, logo debaixo da soleira, ao lado da pia da cozinha, o painel elétrico. Nele, tatear pela ignição e dar partida na chave. Só isso!? Mas, como? Debaixo daquele escarcéu? Com tudo balançando, chuva, vento infernal e escuridão à volta?

Pensando nisso, atordoado e assustado, foi que eu vi a parte superior da porta de entrada do salão aberta e solta. Soltinha do batente lateral, balançando presa à dobradiça da banda inferior. Como é que tinha acontecido aquilo? Aquela onda. Foi aquela onda que tinha feito aquilo. Não acreditei, mas ali estava: a parte superior saltara do encaixe levando a parte inferior presa pelo fecho da dobradiça e saindo do trilho. Ao cair de volta, só a parte inferior retornou ao trilho, a outra ficou pendurada. Deixando uma abertura de quinze centímetros. Chuva torrencial entrava por aquele buraco. A tampa de correr no nível do convés, feita de acrílico grosso, também estava uns dez centímetros aberta. É muito provável que ela não tivesse sido fechada corretamente nos preparativos da tempestade. Fato que possibilitara a porta do salão saltar para o alto quando o barco recebeu o solavanco da queda no cavado da ultima onda, um minuto atrás.

Abri a tampa um pouco mais, o suficiente para meter a cabeça naquela fenda e ver alguma coisa dentro do barco. Para que? É claro, não enxerguei nada, não havia nada para ver naquele breu. Deduzi que o barco estava seco. Decidi para mim mesmo que estava seco, mesmo sem ver absolutamente nada. Além do mais, o estalo que tínhamos ouvido não podia ser a quilha. Senão, já estaríamos afundando. Alguma coisa foi. Iriamos ou não, descobrir mais tarde. Minha mão desceu até o painel e, com a ponta dos dedos, encontrei a chave no contato. Girei firme. A ignição foi imediata e o ronco do motor que se seguiu, também.

Quando levantei a cabeça, aliviado pelas minhas constatações e ouvindo, feliz, no meio da algazarra do vento e da chuva aquela música celestial da batida do motor, vi que o capitão se arrastava deitado de bruços por cima do convés em direção à proa. Há menos de cinco segundos ainda estava do meu lado. E havia, sem dar uma palavra, subido no convés. Com cinto peitoral, mas sem o extensor. O mosquetão de alumínio na ponta de um cabo solteiro improvisado como “safety tether” – prolongador de segurança e preso à ferragem do cinto, voava e batia no vento como se fosse de cortiça em vez de alumínio. Esse mosquetão e o cabo deveriam estar engatados à uma linha de vida que não tínhamos providenciado nos preparativos para a tempestade. Muito ruim. Preparativos insuficientes, segurança insuficiente, coisas de amadores. Foi só quando o capitão chegou ao brandal de sota-vento que ele prendeu o mosquetão no furo da base do esticador. Estava na metade do caminho, indo para a proa mesmo.

Ao ver aquilo, o capitão se arrastando, engatinhando, indo para a proa, o lugar mais perigoso de um barco numa tempestade, pensei em rezar. Mas, cadê a oração? Que o todo poderoso tivesse piedade dele sem oração mesmo. A oração não vem quando o coração está na boca. Nem alguns pedaços do pai nosso decorado na infância a gente lembra. Em vez de rezar, gritei contra o vento:

—-Cuidaaaaadoo!

E ele, o capitão, deitado, chegou lá. Chegou na proa. De barriga, se segurando como podia, sumindo a todo instante envolto por uma nuvem de espuma branca da água gelada. Compreendi o porquê daquela loucura de abandonar o cockpit. Os elásticos que prendiam a genoa de mau tempo tinham desaparecido. Simplesmente sumiram. Livre das amarras, aquele pequeno pedaço de algodão grosso que era nossa “jib” de tempestade tinha subido sozinho pelo estai e só estava preso a ele porque os mosquetões eram fortes e tinham boa trava. A vela subiu três metros, quase toda, um pano louco sem controle, dançando desvariado no vento. Aquilo deveria ser a nossa vela de mau tempo em ação. Que deveria nos salvar. Piada de mau gosto, em má hora. Naquele instante, tínhamos um barco sem controle com uma vela sem controle cujas escotas folgadas eram uma arma apontada para as nossas cabeças porque faziam vibrar ferozmente o estai de proa e a mastreação. Ah sim, para piorar, tínhamos um motor desligado.

O capitão tinha visto muito mais coisas naqueles cinco segundos durante os quais, de cabeça baixa, eu ligara o motor. Ele sabia perfeitamente que o estai de proa não suportaria a violência dos impactos da vela chacoalhando fortíssimo naquele vento de trinta e cinco nós. E que isso representava perigo eminente de quebra da mastreação. Ele também tinha visto que a escota de barla havia prendido no carrinho do trilho e não dava folga para a vela bater livre à frente da proa.

O carrinho havia deitado por cima da escota que ficou travada. Não me pergunte como e porquê. Incrível e inexplicável.

O fato de termos preparado tudo e deixado o engate rápido da adriça da genoa no olhal de tope antes da tempestade, possibilitou que a vela, folgada e liberada dos elásticos, subisse sozinha pela força do vento e enrolasse mil vezes no estai fazendo vibrar ainda mais, toda a mastreação. Recapitulando nossos pequenos erros: a adriça deveria, além de presa ao tope, estar abraçando, apertando, duas ou três vezes a vela como se um elastic fosse. Duvido que ela se soltasse e quisesse voar.

Nisso tudo, a culpa recaía sempre sobre o vento. Claro, sempre o vento. E na força dele. Sem vento, tudo é fácil, com vento normal é tudo mais ou menos fácil, com vento forte, as coisas começam a se complicar e ficam difíceis, com vento mais forte ainda, as coisas mais simples parecem impossíveis, e com vento muito, mas mais forte, justamente aquele vento que você acha que nunca vai pegar na vida, as coisas mais simples se tornam totalmente impossíveis. Eu garanto que, num vento destes, nem um milagre, dos grandes, resolve. Como é que uma escota, maleável e solta no convés consegue se espremer debaixo de um carrinho de trilho e como é que este carrinho, que tem movimentos para os dois lados, emperra para um lado, bem em cima da maldita, da bendita escota? E não para o outro? Numa tempestade, coisas muito estranhas, impensáveis, acontecem à sua volta.

O capitão estava com o cinto de segurança peitoral, mas sem o extensor porque só havia um no barco que estava com o filho dele. Ir lá à frente, sair do abrigo do cockpit mesmo vestindo o cinto de segurança sem estar acoplado ao extensor ou prolongador que vai até a linha de vida, era loucura. Linha de vida é um cabo de boa qualidade preso pelas pontas nos cunhos de proa e popa. Acompanha o verdugo, por cima do convés, em um, ou em barcos grandes, os dois bordos.

Sem estar bem preso à linha de vida, qualquer descuido ou escorregão numa adernagem descontrolada do barco pode significar um mergulho para a morte. Numa tempestade, onde o barco é jogado para todo lado, o uso de um cinto de segurança é óbvio. Tanto que botam até em gato e cachorro. Mas, adianta usar no peito sem estar preso coisa alguma? Estávamos com nossos cintos peitorais. Sem controle, entretanto, dos perigos enormes que nos cercavam.

Para nós, essas situações de perigo só existiam em contos de Jules Verne e Capitão Nemo. Só existiam em livros e estórias de tempestades, quase sempre, contadas no ambiente seguro de clubes e marinas. Por velejadores quem nunca havia vivenciado alguma. Para nós, portanto, viciados em papos de convés, a solução consistia numa gambiarra. Para nós, bastava adaptar a partir do mosquetão, um cabo solteiro qualquer para ser engatado em qualquer lugar. Sem essa basbaquice de linha de vida que só atrapalha o deslocamento pelo convés. Sem essa de que a gente pode cair no mar.

Desprezamos a segurança. Para nós, evidentemente, era mais fácil afundar do que um tripulante cair no mar. O capitão teve sorte. Baixou a vela e fez um canudo dela, tirou a adriça e envolveu a vela várias vezes. Estava dominada. Sem cair no mar.

Sim, o capitão teve sorte. Eu, nem tanto, na hora seguinte.

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2 Respostas para “A Tempestade – Parte 12

  1. Fico aguardando ansiosamente cada capítulo e em todos eles sempre acabo com a respiração suspensa.
    Muito bom, Michael, muito bom!
    Vamos que vamos, no aguardo do próximo.

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  2. Ai Hélio !
    tudo bem? Vamos pro 13 capitulo, espero que ainda essa semana. Já passamos da metade do sufoco, tem mais algumas “coisinhas” e depois, a chegada em Aracaju sob condições bem pesadas….

    Grande abraço
    Michael

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