A Tempestade – Parte 09


tumblr_mqklmvUock1sv5axco1_500 Bem que falei que a Tempestade de Michael iria pegar pressão e deixar a gente, que acompanha a resenha muito bem aboletado numa poltrona e na firmeza da terra, sentido os efeitos da natureza em fúria. Até a imagem de um raio tenebroso ele enviou para dar veracidade ao texto.

A APROXIMAÇÃO DA CHUVA – 01

Michael Gruchalski

Quase onze da noite. Vento. Todos assustados, acocorados no cockpit. Muitas mãos segurando a cana de leme. Eu fui o primeiro acidentado da noite. Ao abandonar meu posto de timoneiro sem aviso, saltei em direção ao fundo do cockpit à procura de abrigo mas esqueci que estava amarrado pela adriça da mestra obviamente caçada ao máximo. Resultado: minhas pernas chegaram ao destino mas meu corpanzil ficou pendurado no ar, os braços também. Senti o cinto de segurança peitoral esmagar todas minhas costelas. Não sei quantas são, mas garanto que foram todas. Dei um urro, o capitão entendeu e bateu com a manicaca no “stopper” liberando a adriça. Acabei de cair e aterrissar como um saco de batatas no poço do cockpit, quatro pernas me observando.

Onde estava a chuva? O vento chegou rasgando mas, repito: onde estava a chuva? Seria aquela mancha espessa, cinza-esbranquiçada, a baixa altura, tomando parcialmente, os céus a uns trinta graus acima do horizonte e a metade do seu círculo? Ou seria aquela cortina aveludada, ao redor dela, cor de azeviche, que parecia absorver para dentro de si toda a luz das faíscas intermitentes?

O que tínhamos, de sobra, à nossa volta, eram raios e trovões. E um vento fenomenal. O vento, soprando com força seis ou sete, de vinte e cinco a trinta nós, uivava na mastreação e inclinava o barco que batia sua proa nas ondas nervosas, ainda curtas. Algumas, apesar de pequenas, já exibiam seu nervosismo entregando ao vento as primeiras cristas de espuma. Esse, atacava o costado pelo través de boreste, vindo do continente que ficava a oeste-noroeste. Na verdade, era muito mais um norte disfarçado de noroeste.

E eu podia sentir: o mar estava acordando. Não estava muito zangado, apenas despertava, esticava seus músculos, mexia o esqueleto. Tendo o seu prazer. Com um gato sonolento que acorda da letargia, fica de pé, com os pelos eriçados.

Com o motor desligado, a velocidade do barco tinha caído para pouco mais da metade. Ele tinha dificuldades em atravessar as ondas pela proa. Elas batiam irritadas no costado, produzindo um ruído seco, ora pela alheta, ora pelo través. Mas o barco avançava, em arvore seca. Essa situação se manteve durante uns quinze a vinte minutos. Vento de vinte a vinte e cinco nós com rajadas de trinta, mar agitado, escuridão, raios e trovões. E o barco avançava aos sacolejos, caturrando, reclamando.

A partir daí, e com frequência cada vez maior, o veleiro passou a dar freadas mais bruscas, empinando exageradamente o bico. A presença das primeiras ondas maiores indicava que o mar tinha crescido muito naqueles últimos vinte minutos. Passaram a ser, como que por milagre, massas de água, blocos líquidos em movimento. Suponho que de dois metros de altura ou pouco mais. Essa água, ao encontrar o barco pela alheta de popa, pressionava o casco de forma irregular fazendo-o vibrar nas entranhas. Com certeza, um casco surpreso, amedrontado com a mudança de humor de quem sempre o acariciara.

As ondas, agora mais largas, em pouco tempo, criaram os seus filhotes: ondas menores carregadas no dorso das maiores. Começamos então a levar, a cada subida e descida, duas bordoadas, duas pancadas. A primeira no costado que inclinava o barco e a segunda, uma batida violenta, no fundo de fibra do casco. Sem velocidade suficiente para rolar para o lado oposto da onda, o barco empinava como um cavalo assustado, ficando, como os cavalos, por segundos, quase imóvel, lá no alto. Depois, batia o casco da meia nau à proa, violentamente no cavado da onda, levantando a popa quase à mesma altura.

Durante essa dura faina de avançar e recuar, gemendo e se debatendo, a natureza continuava afinando sua orquestra. Os clarões se sucediam num ritmo frenético e os trovoes não paravam. Continuávamos rumo sudoeste, com a intenção de não derivar muito para o sudeste ou mesmo leste. Nossa proa estava correta de acordo com o ponteiro indicador do Gps portátil coberto por um plástico transparente e preso com fita “silver tape” à antepara da gaiuta do salão. A manicaca em seu suporte, a faca de emergência na bainha de couro e o Gps movido a pilha, esses eram os únicos objetos presos ao convés do veleiro. Ah sim, ia me esquecendo, havia também três objetos humanos amedrontados no cockpit. Soltos porém…

O vento aumentou para trinta e cinco nós e se manteve nesta faixa por uns bons dez minutos com rajadas de quarenta nós ou mais. E o mar continuou espumando. Como um sonrisal num copo d´água. Agora, já estava quase todo branco. Só conseguíamos ver o esboço de seu estado real quando era iluminado por uma sequência de relâmpagos mais longa. Estado surreal. Uma visão angustiante. Trágica. E o que é trágico, ao ultrapassar os limites da linha do horror pode ser confundido com o belo, o sublime. Assim, posso afirmar de cátedra: vivemos belíssimos e sublimes momentos de horror naquela noite.

Nós sabíamos, por experiências anteriores e por toda a literatura náutica consumida que, enquanto a chuva não chegasse e a natureza não despejasse até a última gota acumulada nos céus, a tendência do vento era aumentar numa escala progressiva sem limites. O vento atingiria seu ápice, sua capacidade mais destruidora no final daquele processo de trazer a chuva até nós.

E o vento só diminuiria na mesma curva de progressão em que tinha aumentado durante e depois do aguaceiro passar. Isso tudo poderia demorar de dez a vinte minutos como acontece nos famosos pirajás que sopram no nordeste do Brasil ou de duas a três horas como nos processos de formação de extensas áreas de nuvens “cúmulus nimbus”, os famosos cogumelos, compactados por diferenças de pressões atmosféricas extremas. A duração, entre o início do vento e o início da chuva, está relacionada com a extensão da área coberta. Fica a pergunta: em metros quadrados ou metros cúbicos? Assim, quanto mais tempo demorasse a começar chover, maior seria a força do vento e mais tempo levaria também para voltarmos aos ventos normais.

Ventos ascendentes em velocidade e força que precedem tempestades tropicais são terríveis para embarcações pequenas. Sabíamos que a superfície de um mar calmo pode mudar e ficar quase indomável em menos de uma hora. Em duas ou três horas, pode ficar monstruoso, tornando-se um pesadelo para os mais experientes comandantes e tripulações. Sabíamos, de antemão, que seria inevitável um confronto com ondas de dois a três metros de altura. O que não poderíamos imaginar é que, naquelas latitudes, naquela noite, encontraríamos ondas acima de quatro metros de altura. Não me perguntem quanto acima. Um acontecimento raro onde ter ou não ter sorte poderia selar o destino de um barquinho de nove metros e trinta. Sem leme!

Por esses e outros motivos queríamos que a chuva entrasse logo. O quanto antes, melhor. E que fosse forte e rápida. Com a chegada bem vinda da chuva forte, o mar alisaria um pouco, ficaria menos agressivo. Seria como um tapete de água doce vindo do céu e colocado por cima das ondas. Para abafar as suas cristas e torna-las mais dóceis. Mas isso era só um desejo.

Estávamos diante de um caso raro de tempestade tropical. Com a perda do leme, a nossa viagem também se transformara em um acontecimento muito raro. Praticamente não há relatos, no iatismo de lazer, da perda de lemes inteiros. E das consequências que, supõe-se, podem ser trágicas. De modo geral, veleiros só entram em apuros quando rasgam velas, quebram mastros ou têm mastros que pulam da enora. Ou ainda quando retrancas se soltam do garlindéu num “jaibe” desastrado, triturando tudo que encontram pelo convés. Em menor grau, veleiros também ficam a mercê da habilidade da tripulação quando perdem a propulsão pela falha dos motores ou quando há pane elétrica geral. Mas isso são só apuros. Dificuldades dimensionáveis e perfeitamente contornáveis.

Lemes, entretanto, são insubstituíveis, assim como as quilhas. Lemes são a alma do rumo, da direção desejada. A perda de um leme é um acidente burro, improvável, sem solução. E, praticamente, sem culpados, se não formos até o fabricante. E, nem por isso, levamos um leme, ou uma quilha sobressalentes a tiracolo quando saímos para o mar.

Tínhamos propulsão a motor, eixo e hélice, combustível à vontade, mastreação intacta e velas novas. Tínhamos um barco com casco e convés perfeitos, cerveja na geladeira, música no rádio, rádio Vhf funcionando, instrumentos de navegação, baterias carregadas. Nós tínhamos tudo. Tínhamos um leme de fortuna improvisado, feito de tábuas e cabos. Um leme desses deixa qualquer barco manco, rude, estúpido, bronco. Assim, mesmo com tudo, não tínhamos nada. Nossos conhecimentos, leituras, bate-papos de convés, nada disso podia ajudar-nos naquela situação. Estávamos ali, indefesos, sacudidos pelo vento, munidos de um leme que não era leme. Esperando pela chegada da chuva que, acreditávamos, encurtaria nosso sofrimento.

O capitão, o filho do capitão e eu.

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3 Respostas para “A Tempestade – Parte 09

  1. Oi Gruchalski, tudo bom?
    Tá sensacional visse, a descrição sobre o que eu nunca vivi e, como um velejador de última hora, sou um leitor idem das práticas e vivências dos mais experientes, curiosíssimo, portanto, sobre a matéria em pauta.
    Pra vc ter uma ideia da minha imaturidade, acabo de ler o meu primeiro livro completo sobre este assunto, que foi os “Cem dias” do Amyr Klink, fantástico, por sinal.
    O fato é que em todos os sites, blogs e afins ao qual tenho recorrido, sempre há uma menção a pelo menos uma terrível tempestade (Inclusive o Amyr, que passou uma semana preso dentro do barquinho), mas ninguém as descreve em minúcias, ou mesmo parcamente…
    A sua descrição não deixa passar nada!
    Fico brincando sobre o fato do conta gotas mas é porque realmente fico na expectativa do algo mais. Gostaria de acabar num sem pulo!
    Vai lá, vai na tua velocidade de velejador que tá bom demais. Eu espero o final dos 17 capítulos, desde que vc continue com essa descrição apurada que tanto me sacia pelo lido quanto me deixa curioso pelo porvir.
    Vamos que vamos!

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  2. Uma pergunta Michael; vcs tinham cerveja e provavelmente outras bebidas alcoólicas à bordo, e aí?
    Numa situação que beira muito perigosamente o pânico, não é uma boa dar umas talagadas?

    Com relação à questão das cúmulus nimbus, eu penso, repito, penso que sejam metros quadrados mesmo.

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  3. Michael,o fato de estar vivo prova que és um exímio comandante e navegador, mas a veia literária ficou clara nesse capítulo!! Um abraço e aguardamos o final da estória.

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