A Tempestade – Parte 6


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A imagem acima não condiz com o texto do velejador Michael Gruchalski, mas é apenas um alento para a tempestade que se anuncia, nessa história muito bem contada, e que hoje apresentamos o 6º capítulo. 

A TEMPESTADE

Muito a fazer. Quem vai para o mar, se prepara em terra.

E, para quem já está no mar? Prepara-se no mar, ora.

Primeira providencia: prender a vela mestra na retranca com todos os elásticos e cabinhos solteiros possíveis por cima da capa. Não deixar solta nem uma pontinha sequer a disposição do vento. Caçar todas as escotas, cabos e adriças em seus “stoppers” até o limite e certificar-se de que seus engates rápidos não se abririam de jeito nenhum. Transferir a adriça do balão e a adriça reserva da genoa que ficam presas nas alças da base do mastro para a base do púlpito de proa. Caçar os cabos de rizos até tesá-los a partir dos olhais da valuma da mestra. Subir a retranca tesando o amantilho para, em seguida, caçar o burro da retranca ao máximo. Liberar cabos de serviço como o amantilho do pau do balão e a adriça auxiliar da mestra, ambos, do olhal do mastro para outro lugar qualquer de maneira que não fiquem batendo contra o mastro quando o vento chegar. Passar um segundo cabinho pela ferragem de apoio da âncora, evitando qualquer solavanco na corrente. Prender boias circulares, retirar a bandeira, verificar se o pau de “spi” está bem preso e, finalmente, verificar os engates nos terminais da linha do guarda mancebo. Um deles pode se soltar justamente quando você estiver se apoiando nele…

Segunda providencia: limpar o cockpit de travesseiros, almofadas, cabos, lanternas, facas, ferramentas, pedaços de casca de abacaxi, laranja, latas de coca cola e cerveja vazias. Inclusive da manicaca reserva que serve as catracas superiores e que nunca cabe no porta-manicacas, sempre feita para acomodar uma só. Cobrir o Gps da antepara, com um saco plástico transparente. Retirar o cabo de força dele e usá-lo com baterias, quando isso for possível.

Da terceira, quarta, até a última providencia: verificar se a tampa do paiol de âncoras esta travada para não abrir com solavancos. Buscar no paiol do cockpit as portas de madeira da entrada do salão e prepara-las para fechamento rápido. Vestir a roupa de mau tempo com aquela calça tipo jardineira com alças e o casaco com capuz e zíper de plástico. Desligar todas as chaves do painel elétrico, principalmente, a do radio VHF. Nada de luz de navegação, nada de VHF ligado. Fechar o registro de entrada de água do banheiro. Fechar o registro de água da pia da cozinha. Fechar e prender os engates das gaiutas do salão e da cabine de proa, prender com fita autoadesiva as portas dos armários, e, no nosso caso, não se esquecer de introduzir, com a ponta de uma chave de fenda, uma toalha molhada nos pequenos vãos externos do dispositivo de ventoinha do banheiro. Por ali, pode entrar um bocado de água. Equipar cada tripulante com a sua lanterna acomodada no bolso do casaco de mau tempo e relembrar em voz alta onde está posicionada a bainha de couro com a faca afiada de cortar cabos.

Lamentar, no nosso caso por total omissão, a falta da linha de vida para andar pelo convés com o cinto de segurança devidamente preso a ela. Lamentar, novamente, nesse caso também por total, dupla e faltosa omissão, a falta de cintos de segurança para todos os membros da tripulação. Só tínhamos um, que estava sendo usado pelo filho do capitão, nosso homem-leme, em cima do trapézio.

E, finalmente, a coisa mais difícil de decidir: a colocação, ou não, da genoa de mau tempo, o sutiã das velas na linguagem entre marinheiros e, em inglês, a temida “storm jib”, ou “storm traysail”. A coitada fica anos inteiros no fundo do paiol do barco, paciente, esperando a sua vez de entrar em ação. É aquela vela que causa expectativa e arrepios deixando tripulações de primeira viagem muito preocupadas quando se fala em tirá-la do porão. Só a ameaça de usá-la já significa que há problemas à vista. E, é verdade. Quando essa pequena vela de tempestade for solicitada, pode ir se preparando: A coisa pode ficar bem feia.

Condição única para o sucesso de uma “storm jib”: a força do vento. Quanto mais força, impacto, pressão, velocidade, melhor. Essa vela diminuta que, de longe, mais parece um lenço triangular, mede menos de três metros de altura por um metro de largura. Pede ventos acima de trinta nós, senão, não trabalha a contento, não fica feliz. Trinta e cinco a quarenta nós de vento constante é o ideal e ela gosta. Vento vindo sempre de través ou alheta de popa e, nunca, mas nunca mesmo, orçando ou pela popa.

Nós sabíamos, entretanto, que estes ventos só duravam poucos minutos e, mesmo numa tempestade, vêm em forma de rajada o que, em vez de ajudar, atrapalha o controle e andamento do barco. Bem, de qualquer maneira, esperávamos usá-la. E ela iria ser colocada na adriça auxiliar do balão, caçada na ponta da ferragem da proa, quase um gurupés projetado para frente. Iria vergar, muito por sinal, mas isso também não seria ruim. Muito bem presa pelos garranchos de mola, de latão, esverdeados de azinhavre depois de tanto tempo no porão. E rápido, porque a tempestade se aproximava.

No meu barco que era irmão gêmeo daquele e que estava àquela hora repousando quieto no píer do meu clube, longe dali, só tinha colocado a “storm jib” em duas ocasiões durante mais de dez anos de navegadas em alto mar. Na primeira valeu a pena. Deu para sentir o que é e o quanto ajuda a navegação durante as horas que dura um mau tempo de grandes proporções. Na segunda vez, a vela não trabalhou, só ficou molhada da água doce da chuva e um pouco salgada da água do mar. Logo foi trocada com muito sacrifício no meio do sacolejo brutal da proa do barco. Esse, sem controle, pulava nas ondas sobre um mar picado, atormentado por ventos de vinte e cinco a trinta nós. Naquela ocasião, ela foi trocada pela genoa quatro, pequena também, porém, com o dobro da área da “storm jib” e confeccionada em gomos de algodão pesado. Um sucesso, dali para frente.

Para cada vento, o velame correto. E vice-versa. Uma regra inviolável.

Nossos preparativos foram bem sucedidos. Ainda bem.

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10 Respostas para “A Tempestade – Parte 6

  1. A estória está ficando boa!!!!!

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  2. Sim, a estoria está ficando boa. Mas a sequencia demora muito… Publica logo as outras partes, porque senao a cada parte publicada a gente tem que reler as antigas, para lembrar.
    Um capitulo a cada 2 ou 3 dias, ai sim seria bom.

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  3. Febre do rato! Toda vez é isso!
    No melhor…..Mas deixa para lá….
    O fato é que desta vez eu estava esperando, finalmente, chegarem os finalmentes tempestuosos. Nunca imaginei que os preparativos dessem pano pras mangas de um capítulo inteiro.
    Mas não só deu, como deu com galhardia, pois mesmo sem entender por completo todas as descrições, afinal sou velejador de Hobie cat, achei interessantíssima toda a preparação de storm aproach, assim como aprendi mais um pouquinho sobre veleiros de verdade.
    O fato a lamentar, se é que é para lamentar, é que durante toda a leitura caiu uma chuva fortíssima aqui em Itamaracá e os ventos, que desde ontem estão bem acima da média, estouraram com tudo nos vidros e venezianas frontais da casa, respingando até um pouco em cima de mim os respingos que sempre encontram suas brechas.
    Nem liguei se estavam respingando no computador ou em mim, pois os tais ventos zuniam como nunca e eu ali, maravilhado com o efeito double surround totalmente natural, esperando a tempestade sair de vez da tela do notebook.
    Iria ser fantástico e acho muito difícil de acontecer quando for ler o próximo capítulo, mas valeu.
    Está ótima toda a história!
    Vamos que vamos!

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    • diariodoavoante

      Hélio, gosto muito de ler seus comentários. Esse do temporal castigando Itamaracá justamente na hora em que você lia a Tempestade foi muito bom. Um grande abraço, Nelson

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  4. Obrigado Comandante, fico de fato lisonjeado.
    E você usou a palavra certa, pois se não foi uma tempestade, foi um belo dum temporal mesmo.

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    • Carissimos Hélio, Wilson e Nelson ! So hoje, depois de um fim de semana longe do mar e do computador estive lendo os comentários deliciosos acima. Mostrei pra minha mulher e ela disse: é uma história contada em forma de estória, ora bolas. Em forma de conto e…quem conta um conto aumenta um ponto ! Ou não é? Essa da tempestade sair da tela do Hélio lá em Itamaracá é ótima ! Gente: tenham paciência. Agora que o vento chegou ( 3 capítulos), depois a chuva ( + 3 capitulos) depois… bem, depois ainda é segredo… Nenhum escritor novelista da Globo vai contar o final, hehehehehehe.
      Grande abraço a todos
      Michael

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