Apenas uma questão de prioridade


1 janeiro (2)

Não quero ser pretensioso, mas depois de 8 anos morando a bordo de um veleiro de oceano, acho que tenho um pouco, apenas um pouco, de propriedade para falar sobre essa vida tão cheia de surpresas e incertezas.

Surpresas, porque o mar nos reserva todos os dias momentos únicos de reflexões e aprendizados. Incertezas, porque as reflexões e aprendizados muitas vezes nos colocam diante de rumos cruzados e do grande muro das indagações.

De tudo o que aprendi e vivi, posso dizer que a escolha não é fácil. A começar pelo rol das prioridades e as cobranças dos familiares e amigos que são infindáveis e muitas vezes maltratam a consciência. Mas posso dizer também que hoje sou outra pessoa e mais aberto para os segredos desse mundo tão cheio de verdades infalíveis.

Nas nossas andanças por ai, sempre ouvimos teorias e planejamento minuciosos sobre projetos de pessoas desejosas de morar a bordo, mas raramente escutamos ou vemos o grau de prioridade necessário para a realização do sonho. Tento argumentar sobre minhas observações e mostrar um lado mais simples, original e verdadeiro, mas me recolho diante de teorias tão precisas e sem margens para questionamentos.

Levar essa vida tão alternativa não é preciso malabarismos, enquetes, mágicas, teorias, parcelas de sofrimento, finanças abastadas para comprar todos os desejos e muito menos o último lançamento daquele estaleiro famoso. É preciso sim simplicidade no viver, que é uma coisa que as grandes cidades empurram cada vez mais para as vias marginais.

Hoje, depois de uma noite de chuva e frio, acordei com os pensamentos voltados para o início de nossa vida a bordo do Avoante. Como uma fita em câmera lenta, o filme foi sendo rodado e expondo detalhes já esquecidos. Lá estavam às agruras do mar, os açoites dos ventos, os terríveis enjoos, os momentos de aflição, os questionamentos sem respostas, as alegrias com os objetivos alcançados e a incerteza diante do poder tão descomunal demostrado pela natureza.

Em meio a pensamentos tão melancólicos, enquanto a chuva castigava o mundo lá fora, comprovei até onde vai o nosso comprometimento com o mundo que o Avoante representa para mim e reconheço que não é fácil, mas faria tudo outra vez.

Não é aquele mundo de aventuras como dizem alguns, nem a busca infalível pela perfeição do planejamento, muito menos o enfrentamento de grandes ondas e terríveis tempestades e nem de longe passa pelo desprendimento total dos valores, mas sim aquele mundo perdido, em que amizade, companheirismo, ética, sinceridade, simplicidade, amor e paz são o que são e não o que queremos fazer com que pareçam. Por isso muitos desistem do mar.

Certa vez escutei de um amigo que a esposa dele somente embarcaria numa dessas se conseguisse comprar o veleiro mais confortável. O barco precisaria ter ar condicionado, chuveiro elétrico, suíte e mais um monte de balangandãs que nunca seria muito. Esse amigo não escondia o descontentamento, mas também não dava um passo em prol do sonho. Vivia na eterna amargura reclamando da esposa e ela, se fazendo de forte e levando ao extremo seu embate contra as intenções maledicentes daquela alma sonhadora. Ele não é o único no barco dos descontentes e reféns da falta de prioridade, pois essa é uma tripulação populosa.

Acho que já falei aqui várias vezes que no Avoante não temos geladeira e muito menos o espaço oferecido pelos novos modelos de veleiros, mas isso nunca foi motivo para desistir e nem maldizer a nossa escolha. Temos sim tudo o que precisamos que é o companheirismo, o amor e a paz de espírito que renovamos todos os dias ao acordar.

Ter um veleiro é um sonho alcançável por qualquer pessoa. Não precisa ser um grande veleiro para cruzar os oceanos, mas apenas um veleirinho, para navegadas naquele riozinho ou no lago pertinho de casa já é uma grande conquista para corações aventureiros. Mas fazer que o uso desse veleiro se torne uma prática regular e prazerosa é outra história se isso não for prioridade.

Sei que não é fácil acordar, como num desses dias de muita chuva, sem poder colocar a cabeça para fora do barco, ou se deparar com goteiras sobre estofados, livros e equipamentos eletrônicos, mas basta parar um pouco, respirar fundo e apreciar a beleza dos pingos de chuva caindo sobre o mar para o problema ter outro sentido.

Não é fácil, mas no Avoante temos simplesmente a prioridade de sermos felizes.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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22 Respostas para “Apenas uma questão de prioridade

  1. A ultima frase resume o segredo dos velejadores… e como temos medo de sermos felizes…

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  2. Rui Alcide Talaia

    É isso ai amigo, você falou tudo e mais um pouco, tou contigo e não abro, pois ser velejador de barco parado é muito fácil. Quando velejamos não importa todas as amarguras do tempo, pois quando chegamos tudo é valido, recompensado pelos lindos lugares e principalmente pelas amizades que ficam no coração.
    Um forte abraço pra ti e para a Lucia.

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  3. Lafayete Pacheco

    Prezado Nelson, tenho acompanhado silenciosamente sua vida e aventuras a bordo do AVOANTE. Aqui na querida Maceió tenho um simplório catamara, VETINHO, onde curto pequenas velejadas, no máximo uma vez a Noronha (2009). Admiro seu grandioso espirito na convivência com o mar ! Certamente um dia vamos nos encontrar ! Abraços. Lafayete !

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    • diariodoavoante

      Lafayete, muito obrigado por fazer parte da tripulação do Diário do Avoante. Lembro muito bem do Vetinho, pois navegamos muito próximos na volta de Noronha para Natal em 2009. Em breve estaremos em Mnaceió para lançamento do livro Diário do Avoante. Um grande abraço, Nelson

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  4. Nelson, hoje pode-se dizer que você, Lucia e o Avoante não estão no mar, mas são parte do mar, copiei isso de um de seus leitores,aqui no blog mesmo, mas é a sua tradução. que saudade de todos, você, Lucia, o Avoante e o mar! abç

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  5. Grande comandante!
    Passei o dia hoje velejando no Mucuripe. Pena que não no Mar que tanto sonho, mas nas águas tranquilas do Paranoá. Mas, só de ficar no barco curtindo o vento, a água ao lado da neguinha já tranquiliza muito esse meu espírito marinheiro que só pensa no Mar graças à sua amizade, ao destemido AVOANTE!!!
    Grande abraço pra você e pra Lúcia!
    Mucuripe.

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  6. “Não é fácil, mas no Avoante temos simplesmente a prioridade de sermos felizes.”
    De tudo que tu ja escreveste ate hoje, e que sempre curto muito, voces sabem disto, essa frase é sem duvida a mais bonita.
    Parabéns pela inspiração!

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  7. Faria tudo outra vez quantas vezes fosse preciso…
    Como sempre as sábias palavras de meu poeta contemporâneo preferido. Pena que nessa nossa passagem pela mágica Baia de todos os Santos e Orixás não nos encontramos.
    Abraços
    Luiz e Mauriane

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  8. Mais uma vez parabéns. Os artigos são cada vez melhores. Acho que você foi premiado e atingido pelas ondas (magnéticas e invisíveis) emanadas do mar. Fiquei feliz em ver que muitos fizeram questão de ler e comentar.

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  9. Achei muito legal suas aventuras, mais já se perguntou se sua família está feliz com isso? se eles não tem a preferencia de estar em terra firme, bem instalados e confortável? as vezes temos que abrir mão de nossos sonhos por amor a nossos filhos e esposa (os). estou acompanhando suas postagens e torcendo por vcs. bjão em todos a bordo.

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  10. A simplicidade nos leva mais perto de Deus.
    Não é facil para uma mãe como eu, saber que meus netos, nora e filho estão expostos as intemperis de um mar de um mar tão poderoso e maravilhoso. Meu filho resolveu viver esta vida. Não questionei, pois hoje com 67 anos questiono os meus sonhos não vividos. Invejo os que escolhem viver uma vida simples e cheia de surpresas e novidades.
    Um abraço

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  11. Nelson, eu bem sei de tudo isso que vc tem falado. Fiquei muito triste com suas palavras, pois faço uma reflexão pessoal neste momento. É muito dificil lidar com essas prioridades. obrigado pela oportunidade da reflexão. Eu continuo tentando.

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  12. Oi Nelson. Leio todos os seus artigos em silêncio, mas hoje não posso deixar de me manifestar. Essa chuva te fez acordar mais inspirado.
    Parabéns!!!

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  13. Muito iluminado seu texto, Comandante!
    Muito me inspira e fortalece para seguir em frente, do modo como estou indo.
    Tenho conseguido juntar um dinheirinho neste intuito e assim vou, meio que sem muita pressa, rumo ao mar aberto.
    Por enquanto já sigo, de modo intuitivo, o seu conselho e pego o pequenino Fita Azul e pumba! É incrível como basta algumas centenas de metros mar adentro e a vida já parece outra, mais plena, sei lá…é um mistério mesmo.
    Ontem à noite, inclusive, fiquei um bom tempo olhando sua seção de barcos à venda e me peguei justamente pensando que, em não muito distante no tempo, poderei comprar um daqueles mais baratinhos (ou menos carinhos, como preferir) e que assim, à primeira vista, me parecem aptos a mil aventuras e descobertas sensoriais.
    O que mais me preocupa, isto sim, é a disponibilidade de tempo para desfrutá-lo, por isto a minha falta de pressa.. Aí é que suas palavras caem como um bomba, pois será que não está faltando prioridade?
    O diabo é que no meu trabalho ou você está dentro ou você está fora e não tenho outra forma de sustento, pelo menos é o que imagino…Será que devo priorizar minha imaginação também?
    Bem, obrigado pelas palavras, vou ficar por aqui remoendo elas.
    E sim, antes que me esqueça parabéns pelo livro que, fiquei sabendo agora, está no forno.
    A boa notícia é que meu braço está ficando bom e já posso voltar, devagarzinho, ao mar e, consequentemente, à sua tripulação aqui, no blog.
    Abraços do seu primo Itamaracaense!

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  14. Wilson, postei algo pra vc no texto anterior, ok?

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  15. É realmente um fato. O medo que temos de se separar da sociedade e embarcar nos sonhos para ser felizes. Tem que ter muita coragem. Tenho este sonho e espero um dia atracar a bordo de vocês também estando feliz.
    Biné (veleiro FREVO)

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  16. mauro jose de araujo

    Muito bonito esse escrito. Em 87 fui trabalhar em Aracaju e observava pescadores e holandeses no Rio Sergipe. O que pode ser mais complexo?entrar no mar com uma canoa quadrada e com velas, ou estar no mar com toda a tecnologia disponível? Sinto equilíbrio no Avoante. E Paz.

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