A Tempestade – parte 3


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Uma das boas coisas para um dia de chuva e frio é uma boa leitura, por isso vamos a terceira parte de A Tempestade, texto do velejador Michael Gruchalski. 

A TEMPESTADE

A PERDA DO LEME – Parte 3

Eram quase três da tarde quando começamos a fazer os dois furos na fibra dura. Esses deveriam ter, pelo menos, meia polegada de diâmetro cada um. Começamos o trabalho com uma pua manual encontrada no fundo da segunda caixa de ferramentas e algumas brocas. A mais grossa, de apenas um quarto de polegada. Todas, portanto, muito finas, não apropriadas. Além de enferrujadas. Só dispúnhamos daquela pua manual que era de furar madeira. Velha e pequena. A coroa dentada, totalmente desalinhada, travava a todo instante por falta de graxa ou óleo quando se girava a manivela.

Mas, não tinha jeito. Tínhamos que fazer dois furos. Tarefa duríssima na fibra dura. A solução dos nossos problemas passava forçosamente por aqueles dois furos na parte superior do convés, acima do espelho de popa. Um de cada lado, a um palmo da cabeça do eixo da cana de leme.

Era uma tarefa hercúlea: quase como que fazer um furo do tamanho de uma moeda numa chapa de aço de um quarto de polegada utilizando a ponta de uma caneta tinteiro. Ou, impossível como cavar um túnel pela água do mar. A fibra ali, próxima do verdugo de popa, devia ter perto de oito milímetros de espessura.

Inicialmente, fixamos um turno de trabalho de dez minutos para cada um. Tempo que rapidamente se transformou em cinco, depois quatro, depois três minutos. Cada vez menos tempo, na medida em que os calos nas palmas das nossas mãos se transformavam em bolhas e feridas e, estas, depois de abertas, em manchas cinza-azuladas de sangue pisado. Nossa sanidade mental estava ali, posta a toda prova.

Melhor não pensar. Melhor girar a manivela e não pensar. Toda energia de encontro à fibra. Girar e girar. A pua balançando, escorregando. Pequena e instável em nossas mãos nervosas ao escorregar do “X” inicial, minúsculo, feito à lápis em cima do gel branco. Esforço concentrado, carregado de doses de desespero e raiva.

Finalmente, o primeiro risco. Apenas um pouco mais fundo do que a camada de gel. Quando atingimos a segunda camada, de cor cinza opaco, já com quase uma hora de atividade febril com as mãos, braços e costas em frangalhos, passamos a recorrer, alternadamente, a toda espécie de ferramenta pontuda e cortante que dispúnhamos no barco.

Acho que foi Giuliano Giongo, aquele italiano louco e maravilhoso, destituído de massa encefálica por ter encarado a morte propositalmente mais de cem vezes, que escreveu em seu “Tekenika” uma das frases mais apaixonantes que já li em livros de aventura: “minha batalha só terminará quando meu coração parar de bater…”. Pois ali, estávamos em três, lutando a nossa batalha. Não pensávamos em nada e ninguém, estávamos apenas determinados a fazer aqueles furos. Até nosso coração parar de bater.

Duas horas depois, aquelas “coisas” arredondadas que se poderiam chamar de furos, estavam lá. Estavam lá por obra de dezenas de bolhas horríveis espalhadas pelas nossas mãos. Depois de muito suor, palavrões e desencanto. De muitas marteladas em pregos, parafusos, pinos, pontas de lima, alicates, tudo que fosse de metal pontudo que conseguimos encontrar no veleiro.

Dessas, a ferramenta mais incrível que fabricamos saiu de um pedaço de tubo inox, serrado e retirado de um poste do guarda mancebo. Desbastamos e limamos a ponta do tubo no lado mais fino, de mais ou menos três quartos de polegada, até ficar parecido com um objeto cortante pontudo. Usando uma marreta de borracha maciça que pesava mais de um quilo e aquela “ferramenta” conseguimos esgarçar e arrebentar o minúsculo furo inicial feito com a pua.

Pronto. Os furos ficaram horríveis de se ver. Indecentes, disformes e irregulares. Mas, eram furos. E do jeito que nós precisávamos para passar pelo menos dois, quem sabe três cabos de cinco milímetros e finalizar a epopeia da instalação correta do nosso leme de fortuna.

CONTINUA…

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12 Respostas para “A Tempestade – parte 3

  1. Onde foi essa foto de hoje grande Nelson? Lindo cenário. Um abraço

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  2. Incrível como o veleiro, equilibrado pela quilha, pelo próprio balanço que alivia a pressão da vela na rajada e aumenta a força da quilha ao inclinar, uma maquina que possui duas ou três velas e um motor, são praticamente três impulsionadores, 2 movidos a vento e um a combustível, ainda mais, que pode ser governado mesmo sem velas e motores, muito lentamente, mas qualquer vento e corrente o deslocam e se pode governá-lo, que não se rende a ondas tempestuosas, que se mono casco capota e descapota por conta própria, enfim, uma maravilha da criação humana, de repente, sem um leme, um simples leme, queda-se inerte, inconsciente, incapaz de ser minimamente governado!!!
    Talvez fosse interessante ter um leme de fortuna pré concebido num veleiro, um conjunto de coisas tipo porta de banheiro, furos e alguns cabos, parafusos que pudessem ser tirados de um armário, uma estrutura qualquer que ao ser sacrificada de sua atribuição pudesse se tornar uma cana. Uma daquelas coisas que estariam ali com a intenção de jamais serem utilizadas, mas que se fosse preciso pudessem se transformar num leme, previamente projetado para esse fim, é quem sabe….

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    • OI Wilson,

      De todos os desastres, a perda do leme é a pior. Por isso ele deve ser revisado todos os anos.Carregar um leme sobressalente é surreal.Ele cabe no barco sim, entretanto, navegando é impossível colocá-lo no lugar.Quanto a andar lentamente, qualquer veleiro sem leme deriva ou derrapa desde que haja vento ( no costado) correnteza ( no casco) ou motor (para rodar em círculos,ao sabor das ondas). Discordo das velas porque elas aquartelam-se na mais tenra brisa.São inúteis. Alias, vai a pergunta: o que significa voce estar a dois nós rumando para a costa que está a dezesseis milhas? Significa que voce será um náufrago sem barco em exatas oito horas. E,ao afastar-se da costa? Significa que voce vai sair da rota de navios, da área de pesqueiros e, o que é pior,vai perder o sinal do VHF.Construir um leme de fortuna externo com materiais e ferramentas disponíveis foi a única saída para fugir de um desastre anunciado.Como, na prática a teoria é outra, repito: a governabilidade de uma embarcação sem leme é tão mínima que, na prática, não passa de um sonho de fadas.Grande abraço! Michael

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      • oi Michel, tudo bem ai com vc? espero que sim meu amigo virtual. Olha, na verdade minha proposta não era carregar um leme de fortuna pronto ,mas sim que no projeto, ou projetado depois, existisse num veleiro algumas coisas cumprindo funções menores, tipo a porta da banheiro, que serve para a privacidade do -sei lá, como se chama o usuário do banheiro? kkk-, então, do cara que está no trono, ai essa porta já fosse pre estabelecida para ser parte do leme, não seria carregar um leme sobressalente,mas sim que a partir de outras peças já existentes um plano alternativo, senão, como muito bem intuiu o Comandante Aleixo Belov ao construir o magnífico Fraternidade; ele teria que levar tanta peça de reposição para o motor, que na verdade estaria levando um caixote com um motor inteiro desmontado, então ele achou mais lógico levar logo os dois motores inteiros, montados, e poderia utiliza-los alternadamente, ou só um deles se desse pane, ou mesmo canibalizar um em proveito do outro no desespero.
        Então,minha ideia era essa, não levar um leme sobressalente, ah, não sei se consegui ser claro.
        Quanto a governar o veleiro, disse governar mesmo, não apenas deslocar-se, avançar em qualquer direção, porque sem vela e sem motor mas com vento no costado, mas com leme voce ainda governa, a ideia é essa ai
        de qualquer forma,um grande abraço amigo,se me permite
        wilson

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  3. Caro Wilson, tudo bem com vc?
    Olha, pelo número de eventos que tenho vindo a saber, com perda de leme e suas consequências sempre beirando a ruína, penso que sua proposta é coisa muito a ser pensada sim…
    Agora tem o seguinte: Sem querer dar uma de gostoso, mas tenho certeza que na minha minúscula casinha, que vc bem conheceu e que, como toda boa casa localiza-se em terra firme, eu encontro espaço suficiente para bem mais e bem melhores ferramentas do que as que estão relatadas nesta epopéia, a bordo de um veleiro em alto mar.
    Sei não, viu?
    Mas que sirva de lição, de um norte para velejadas futuras.
    Grande abraço!

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    • OI Hélio,
      Você está coberto de razão. Nao havia muita coisa não. Chaves de fenda de montão, alicates, martelos ( até um de borracha…) e aquela pua manual ( que não é normal alguém trazer em barcos). O negócio é que quando você mais precisa, não tem… Assim é a vida na terra como no mar. Grato pelo comentário e um grande abraço. Michael

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  4. Saudade comandante, abraço em todos. eu,cassia e vv

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  5. É Michael, eu sei que a vida é cheia destas coisas mesmo..
    Por isto fiz questão de dizer que não queria dar uma de gostoso.
    Agora vai aqui um pitaco: Já que vc está contando a história por etapas, que tal colocar um link para as partes anteriores?
    Eu já as havia lido mas precisava de um refresh.
    Grande abç pra tu tbém, visse?

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    • Olha aí, Nelson, help nessa coisa de linkar as anteriores. Dá jeito ou complica? E pra voce Hélio, abração do alemão baiano que ama o mar !
      Qualquer dia desses a gente se cruza pra jogar conversa fora. Michael

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      • diariodoavoante

        Michael, não tem problema algum fazer o link com os textos anteriores, aliás, eu já devia ter feito. Valeu a dica do Hélio. Um grande abraço, Nelson

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  6. Óia comandante Wilson, nossa aventura pela costa Paraíba/Pernambuco está se aproximando, ok? O barquinho está no “estaleiro” e meu braço está cada dia melhor!
    Eu, Tê, Dadá e Júlio estamos muito bem e voltaremos a nos encontrar em breve, se Deus quiser. Abraços em todos os seus também e vamos que vamos!

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