Arquivo do mês: junho 2013

São Felix, a Ponte e o charuto

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Em nossa excursão rodoviária pelas cidades do Recôncavo Baiano, assim como aconteceu com Cachoeira, passamos na maior pressa do mundo também por São Felix, que dividem meio a meio um pedacinho do Rio Paraguaçu. Alias, um belo pedaço. Mas não tínhamos como deixar de ir até São Felix, pois atravessar a ponte que liga as duas cidades é a tentação de qualquer turista.

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Batizada de Ponte Imperial Dom Pedro II, ela e de uma beleza e conservação ímpar, nesse nosso Brasil tão escandalosamente propenso ao abandono das coisas públicas. Atravessar seus 365 metros de extensão e escutar o barulho do piso metálico é uma emoção, ainda mais sabendo que aquele amontoado de ferro inglês resiste ao tempo desde 1885.

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Sobre a sua história existem várias versões e acho que acredito em todas. Porém, uma que me chegou aos ouvidos dias depois de ter ido até lá e ter cruzado a ponte nos dois sentidos, já que tinha mesmo que voltar, me intrigou e fiquei simpático a ela. Se é verdade eu não sei, mas se for boato eu também vou colaborar dando andamento a ele. Dizem que a Ponte foi um presente de Dom Pedro II ao povo de Cachoeira e São Felix, por essas duas cidades terem enviado o maior número de combatentes a Guerra do Paraguai, o maior conflito armado internacional da América do Sul. O Rei para agradecer a bravura dos valentes baianos não mediu esforços em ligar as duas cidades definitivamente.

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Mas São Felix é linda que só vendo e nós passamos batido nessa primeira visita. Não conhecemos quase nadica de nada, mas saímos de lá super satisfeitos e pronto para discutir quase tudo sobre charutos. Quase tudo!

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Charutos? Pois é, botamos o olho em cima dessa fachada belíssima, vimos que estava aberta e fomos entrando como quem não quer nada, pensando que lá dentro funcionasse apenas um museu.

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Logo na entrada deparamos com essa cena, que tomamos até um susto, porém, numa segunda olhada vimos que se tratava de uma obra de arte premiada. Passa cada coisa na cabeça de um artista que nem Deus dúvida! Uns passos mais adiante, ainda abestalhados com a grandeza do espaço, vimos uma escada e subimos. Pronto, lá estava o coração daquele belo prédio.

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Estávamos caminhando entre baianas e mesas de produção da fabrica de charutos Dannemann, uma das melhores do mundo, conhecendo seus segredos, curiosidades, números e apreciando seus aromas. “Fumar charuto é para quem tem tempo”. O nosso tempo já estava esgotado, pois pretendíamos pegar a estrada de volta ainda com o Sol iluminando o mundo. Mas curiosidade é um bichinho danado de bom, e quando Fabiola, nossa cicerone por naquele mundinho de folhas de tabaco, disse que podíamos experimentar os charutos e até fazer uso dos conhecimentos de um sommelier para tal, os olhos de Lucia brilharam de alegria e ela nem pestanejou para exclamar: Eu quero!

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A partir daí esquecemos a promessa de voltar ainda com o Sol caminhando no Céu e fomos escutar e seguir os excelentes ensinamentos de Luiz Cezar Araújo, sommelier de charutos da Dannemann, degustando um delicioso Panatela, charuto leve, que se fuma rápido e que cai muito bem para dois pretensos iniciantes na arte. “Charuto não se fuma, se degusta”. Aprendemos como acender, a não tragar, a distinguir as várias fases do charuto, o  porque de se manter a cinza longa, porque ele apaga insistentemente e até a não levantar e sair rápido. Aprendemos também que charuto não combina com toda bebida. Com vinho nem pensar! Passamos quase duas horas nesse aprendizado gostoso, aromático e muito interessante.

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Mas antes de ir embora, ainda participamos do projeto Adote uma Árvore, uma iniciativa para reflorestar a região da Mata Fina, uma das áreas mais ameaçadas de extinção em todo Brasil. Para participar do projeto, apresentado por Daiane e Fabiola, bastou apenas preenchermos um cupom com nossos dados e depositar em uma urna. A Dannemann se compromete a plantar uma arvore e enviar ao nosso endereço um certificado informando a espécie plantada, em nosso nome, e informações do desenvolvimento da mesma.

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Como vocês viram, de São Felix não conhecemos nada, mas em compensação saímos quase mestres no produto final da folha do tabaco. E sabe de uma coisa: Estou quase achando que charuto cubano só tem fama.  

   

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A Baía de Camamu agora tem um anjo da guarda

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Essa jóia rara, de especial lapidação, que faz pose ao lado de Lucia, foi uma das nossas primeiras paixões na Baía de Camamu. Com ela aprendemos o sentido de caminhar pela vida a passos lentos e não apenas deixar a vida passar. Onília Ventura, a primeira dama da Ilha de Campinho, uma alma da mais valiosa estirpe e que para nós foi um dos Marcos daquelas pedaço incrivelmente belo de natureza, ao lado de sua irmã Aurora, agora vai nos guiar lá do alto. Onília de idade indefinida, mas que os familiares e amigos acreditam que tinha mais de 100 anos, deu um sorriso para vida e partiu dia 02 de Junho de 2013, nos deixando apenas com a saudade invadindo o coração. Eu sempre perguntei aos amigos que iam a Camamu se haviam conhecido Onília e Aurora. Quando a resposta era negativa eu dizia: Então você não foi a Camamu! Vou continuar perguntando, mas agora somente se conheceram Aurora, o outro Marco. Vá em paz amiga e saiba que nunca esqueceremos o seu sorriso, sua alegria e seu jeito manso de viver e falar.

Em nosso giro pelo Recôncavo Baiano chegamos em Cachoeira

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O nosso giro pelos caminhos do Recôncavo Baiano era para ser em várias partes e aproveitando tudo o que as cidades tivessem para mostrar. Mas, como em tudo na vida, fomos tentados a absorver a síndrome do jaquísmo e seguimos em frente nos iludindo e tentando economizar tempo, porém, ficando em dívidas com nossos conhecimentos. Foi assim que depois de conhecer um pouco sobre a histórica Santo Amaro da Purificação, resolvemos seguir por mais 38 quilômetros e chegar até a heroica cidade de Cachoeira, que teve importante papel na história das lutas pela independência do Brasil.

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Na sede de atalhar passamos por cima da história de Cachoeira, mas sem antes fazer alguns registros fotográficos do lugar que, segundo os anúncios oficiais, é o município baiano que mais preserva o patrimônio histórico e cultural. E tudo indica ser uma verdade.

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Da velha Ponte de Ferro Dom Pedro II, inaugurada em 07 de Julho de 1865 e que até hoje está em uso, ligando Cachoeira a vizinha São Felix, passeado na história por belos e preservados casarões, e chegando diante da imponente Igreja de Nossa Senhora do Monte, nota-se claramente que Cachoeira tenta preservar sua identidade.

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Cachoeira, situada as margens do Rio Paraguaçu e com seu título nobre de Cidade Monumento Nacional, merece uma nova visita e sem a pressa que não precisávamos ter tido. Sua rica história que passeia serelepe entre todas as religiões, mas que tem nas religiões afro e no catolicismo sua maior força, eleva ainda mais sua importância. A história ainda conta que seu povoamento é atribuído ao português Diogo Alvares Correia, mais conhecido como Caramuru, mas os índios tapuios, os mesmos que habitavam Santo Amaro, marcaram presença nos idos anos 1000. Assim como em Santo Amaro, os tapuios foram expulsos pelos tupinambás, que parece ter sido os terrores da região. Cachoeira é isso: Cidade Heroica, Monumento Nacional e histórica. Caminhar em suas ruas é reviver um pouco do Brasil que já se foi.

Eu sempre vou te amar

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Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

Santo Amaro da Purificação – Um giro pelas cidades do Recôncavo Baiano

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Aproveitando essa nossa permanência prolongada em Salvador, resolvemos fazer umas excussões terrestre pelo interior da Bahia para conhecer melhor a baianidade e a cultura desse povo tão cheio de sincretismo religioso, cultural, racial e filosófico. Planejamos começar pelas cidades que cercam a Baía de Todos os Santos e que fazem parte da região conhecida como Recôncavo Baiano. Como ponta pé inicial, pegamos a estrada e tiramos direto para a não menos famosa cidade de Santo Amaro da Purificação, que fica a 79 quilômetros de Salvador, e reconhecida como a cidade dos artistas Caetano Veloso, Maria Bethânia e da matriarca dos dois, Dona Canô, de saudosa memória. Logo na saída do Aratu Iate Clube fomos indagados por um amigo que queria saber onde iriamos tão cedo, falamos que estávamos indo a Santo Amaro e perguntamos o que ele nos aconselhava conhecer por lá. Ele foi taxativo e seco respondendo assim: Nada! Aquilo lá não tem mais nada para ver. Demos uma tremenda risada, desconversamos e seguimos o nosso caminho, mas sempre lembrando  das palavras daquele amigo tão cético. Como queria que ele estivesse errado, pois fomos munido de uma revista editada pela Bahiatursa que entoava loas de orgulho as cidades baianas.

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logo na entrada da cidade começamos a querer acreditar nas palavras do amigo, pois caminhamos por ruas mal conservadas, sujas, desarrumadas e desembocamos no entristecido e derrotado Rio Subaé, envolvido em um manto de descaso e imundice. Mas ainda assim não perdemos as esperanças de que tudo não passava de ilusão de ótica. Era Sábado, e por isso dia de Feira Livre, e como somos piolhos de Feira não perdemos a oportunidade de caminhar entre as bancas. De cara, já vimos que aquilo passava longe de qualquer tipo de organização e asseio, mas deu para sentir a alma do povo e aprender um pouco sobre a vida do povo santoamarense.

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Porém, Santo Amaro tem sim muita beleza para mostrar em sua bela arquitetura colonial, nos monumentos encravados na Praça da Purificação, nas igrejas e nos desenho de suas ruas e vielas. Falta sim, uma administração pública que valorize sua história e que resgate toda uma cultura abafada pelos desmandos. Não consigo concordar com a sentença do meu amigo, quando diz que lá não tem nada, pois a cidade de Santo Amaro da Purificação é um poço rico e maravilhoso de história, basta apenas se reencontrar no tempo.

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Valeu, e muito, ter conhecido a cidade dos antigos índios tapuias e de Dona Canô, e deixo a dica para outras pessoas irem até lá. Digo mais: Não se atenham aos meus comentários impopulares, pois sou apenas um pretenso e metido saudosista, que se acha no direito de querer que a história não caia na vala comum do desuso e do esquecimento.  

 

   

Todo dia é dia de arte

Faz tempo que não tenho a felicidade de mostrar aqui uma tela do artista plástico internacional Flávio Freitas, carioca de nascimento e potiguar por amor e opção. Hoje ao abrir minha caixa de mensagens tive a alegria de lavar os olhos com essa bela imagem do Rio Potengi, retratada pelas pinceladas marcantes do grande poeta das telas. Saiba mais sobre o artista acessando o site Flavio Freitas.com 

VIVA O RIO POTENGI (que significa Lugar do Camarão em Tupi)
acrílica sobre tela
67x110cm

jun 2013

Velejando longe dos círculos

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Nada melhor do que ultrapassar os horizontes que criamos em nossa mente. Fazemos parte hoje de uma geração que cultua o esplendor das novas tecnologias, mas o simples ato de esticar a perna para saltar um obstáculo já nos faz agir como os homens das cavernas, que sem entenderem o que se passava lá fora, ficavam olhando abismados o avanço, pé ante pé, daqueles que ousavam botar a cabeça fora da toca.

Caminhar em círculos ou fazer a mesma coisa durante anos é da natureza mais comum dos humanos. Como também seguir pelos mesmos caminhos da maioria. Aquela velha máxima que diz: “Se der certo para um tem que dar certo para todos”, é de uma bobagem tão descarada que ela é dita da forma mais banal possível. Somos mestres em discursar normas, teorias e ditados dos outros, pois é bem melhor assim do que ser obrigado a pensar e refletir sobre um assunto qualquer. Basta ver o que acontece com a política e nossos políticos. Uma descaração pura!

Brincamos de forjar perfis falsos para nós mesmos e aplaudimos de pé os domadores da auto ajuda. Acolhemos com uma indisfarçada falsidade os conselhos dos amigos e veneramos sem pestanejar os criadores de mitos, que nem eles mesmos acreditam. Aplaudimos a lógica barata do tenho dito e viramos as costas para a beleza da criatividade ilógica dos loucos. Ensurdecemos diante dos segredos sussurrantes e verdadeiros da natureza e teimamos em escutar as absurdas e medonhas razões dos velhos e novos profetas. Continuar lendo