Os Carpinteiros


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Os Carpinteiros é mais um daqueles texto carregados de poesia do velejador, poeta e escritor Érico Amorim das Virgens, ex-Comodoro do Iate Clube do Natal, que tem o mar correndo nas veias. Sentar ao redor de uma mesa para um bom bate papo com Érico é uma grande felicidade para qualquer interlocutor e eu sou um desses felizardos. Érico, mais uma vez muito obrigado pela beleza do texto e também por presentear os leitores do Diário do Avoante.

OS CARPINTEIROS

Érico Amorim

Em tudo que é praia encontramos ele, o carpinteiro naval, o autor daquelas obras primas de curvas que flutuam. Ele está para a comunidade pesqueira assim como o médico está para a população de pequenas comunidades.

Isso em todo canto deste litoral brasileiro, principalmente aqui no nordeste onde a pesca artesanal ainda é a realidade de muitos. Quem no mundo já ouviu falar em Cururupu, lá ano fim do mundo, isto é, no fim do Maranhão, já na fronteira com o Pará? Pois bem, lá foi construída uma escuna enorme, de tamanho descomunal, talvez a maior já feita em todo Brasil. São os pastos de mestre Belo. E do rio Una, lá pelas fronteiras entre Pernambuco e Alagoas? É a terrinha de mestre Zuza. Seus barcos são de uma beleza que a gente não cansa de admirar. E assim a gente vai enumerando cada praia ou braço de rio com seu mestre carpinteiro naval.

Lá pelos idos de 1960 já ouvia falar nos carpinteiros de Barra do Cunhaú: mestre Júlio, seu filho Abel Soares e Capucho. Só muito tempo depois, pelos idos de 1984, conheci mestre Júlio, já com muitos janeiros a lhe pesar nos ombros, mas ainda com uma disposição e uma paciência invejáveis. Na ocasião, morando em Canguaretama, fazia lá em Barra do Cunhaú uma pequena embarcação para o Sr. Geraldo Calafange, ex-piloto particular do presidente Getúlio Vargas, e que veio gozar sua merecida aposentadoria naquele pacato recanto de nosso litoral.

Sabendo da construção do pequeno veleiro, fui um dia matar minha curiosidade, não só pelo barco, mas também pelo carpinteiro que gostaria de conhecer. Lá pelas nove horas da manhã estava olhando cada detalhe do barquinho quando o Sr. Geraldo comenta a ausência do mestre Júlio àquela hora do dia, já que era tão pontual em seu horário de trabalho. Conversa vai, conversa vem e daí a pouquinho os cachorros que eram criados dentro de casa começam a latir e ao nos dirigirmos para o portão veio à surpresa: era o mestre Júlio chegando. Na maior calma desse mundo e sem mostrar sinais de cansaço disse ter perdido o transporte e o jeito foi vir a pé. Uma simples caminhada de apenas 12 km em estrada de areia e barro. E sem maiores comentários, foi pegando as ferramentas para começar seu trabalho.

Os dias se passam e por uma feliz coincidência recebo de presente duas linhas de madeira de pinho com uma das quais eu iria fazer o mastro de minha jangada e a outra dei ao Sr. Calafange para fazer o seu como realmente o fez. Dias depois volto para saber do andamento das coisas e encontro o mestre Júlio com a plaina manual dando os últimos retoques na confecção do mastro. Só mesmo vendo para acreditar: tinha torneado toda a peça usando apenas a plaina e o dito cujo estava redondinho, com o diâmetro variando igualzinho de pé a ponta como se estivesse sido feito industrialmente. Não preciso dizer que fiz o meu numa única tarde, usando um afiado machado.

É sobre essas características da personalidade dos carpinteiros que quero falar: paciência, sabedoria, sensibilidade e beleza nas peças que criam.

Foram meus únicos contatos com o mestre Júlio. Mudou-se para Cabedelo, o que só vim a saber muito tempo depois.

Abel Soares mudou-se para Natal, montou seu estaleiro no bairro das Rocas e nas horas de folga costuma dedilhar sua viola tocando músicas de Dilermando Reis. Tem uma memória de menino aos 86 anos, isso em 2010, quando o procurei para conversar. Na ocasião disse que não queria mais trabalhar.

Foi em uma dessas horas do chamado ócio criativo que comecei a pensar nesse povo. Todos com o mesmo perfil: tranquilos, conversa macia, educados, raciocínio rápido e seguro e de uma simplicidade de dá inveja a Jó. E assim, os mestres que conheci se sucedem em minha mente.

Mestre Zuza, satisfeito com a aquisição de uma serra elétrica, alguns barcos já “encavernados” aguardando comprador e a mesma inteligência, mesma maneira de ver a vida, sobretudo felizes, etc. e tal. Seu estaleiro é um simples galpão e os barcos já “encavernados” vão ficando ao relento. Mora próximo ao paraíso de Carneiros, em Pernambuco.

E matutando lá com meus botões, vejo como esses carpinteiros nos dão uma lição de vida. São pessoas felizes, simples, inteligentes, que mesmo sem terem frequentado os bancos escolares dão lição de vida a qualquer doutor de anel no dedo. Barcos são obras primas. Observe suas linhas: tem inflexão, reflexão e muito talento criativo. Até recentemente eram feitos com uso de instrumentos primitivos: enxó, martelo, serrote, plaina manual, etc. Inúmeras vezes observei Sebastião Canoa, meu compadre carpinteiro, deitado numa rede armada debaixo do coqueiral, seu local de trabalho, à margem do Cunhaú, sem se importar comas horas, vendo a tarde se arrastar, o sol se por e ele ali tranquilo, imóvel em seus pensamentos ou talvez sem pensar em nada. A tarde toda a observar algo que a gente não sabe o que é. Uma lição de tranquilidade para aqueles que estão lutando contra o tempo e se estressando no trânsito infernal de nossas cidades.

E o mestre Lemos, de Cajaíba, cidade famosa pelas escunas da baía de Camamu, na Bahia? É a mesma coisa. Encontrei-o em pé, escorado em uma escuna em fase inicial de construção, do mesmo jeito de todos os outros. Com fala mansa, disse das dificuldades encontradas pelo sumiço das árvores, sua proibição em cortá-las, etc. Estava sem serviço, aguardando comprador para continuar uma daquelas escunas já iniciadas. Como já disse, é assim que funciona: o carpinteiro começa com recursos próprios, vai até determinado estágio e fica aguardando comprador. Que barreiras serão estas que nos cercam e não nos permitem aprender a lição desses mestres?

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5 Respostas para “Os Carpinteiros

  1. Érico e suas obras, todas primas, jamais amigas ou irmãs, sempre primas. Fossem os carpinteiros pontuais, chamariaos de Santos! Com não o são, chamalo-eis de Anjos! Enquanto o Érico continua das Virgens! Bravo Érico! Bravo.

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  2. Quando se fala de mestre jangadeiro só lembro quando Tio Erico junto com Roberto Texeira e meu pai Eilson, inventaram de fazer uma Jangada de compensado que já havia sido “moldada” pelo mestre Sebastião Canoa de Barra do Cunhaú. Essa jangada pelo que me consta ainda navega como barco de apoio do ICN (?) Antes ainda o trio havia construído uma “Jangada de Cano” que pra mim já era tradição da Barra do Cunhaú.

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  3. boa Erico,
    Excelente o seu resgate. Algumas universidades pelo mundo afora, notadamente na França e Gra Bretanha eram “obrigadas” a contratar estes ilustres para formar os engenheiros navais. Muitos receberam doutorado e título Notório Saber para formar e compor os quadros das Universidades. No Brasil, a escola Naval tem reconhecido a importância dessas bibliotecas-vivas da construção náutica. Abcs.

    Zé Dias do Nascimento

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  4. Muito bem lembrado destes grandes mestres. Não esquecendo dos mestres de Abaetetuba, no Pará, que são grandes artesãos de escunas, e o grande mestre de multicascos Manoel Português do Maranhão que graças a ele são Luís é a capital dos catamarãs, e eu sou um dos discípulos dele, juntamente com Sérgio do estaleiro Bate Vento (catamarãs BV 26, 36 e 43), Galdêncio do estaleiro dos catamarãs pérolas (Pérola 30, 38 e 40), e Jaime dos catamarãs Maramar (Catamarãs praia 28, 30 e 43), entre outros de construção artesanal.
    Hubner Biné (catamarã FREVO).

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  5. Yolanda Calafange

    Érico, sou Yolanda, irmã da Norma e filha de Geraldo Calafange.
    Seu texto me trouxe gratas lembranças da Barra do Cunhaú daquela época. A Barra de agora não me diz nada. Multidão por multidão, fico com as praias aqui do Rio.
    Se quiser fazer contato: ycalafange@gmail.com
    Um grande abraço, Yolanda.

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