É isso que dá


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Como é difícil ultrapassar as fronteiras que nós mesmos criamos na mente. Até parece que a vida é uma coisa chata, cheia de regras e que não nos deixa saída e nem alternativas para seguirmos outros caminhos.

Perdemos tempo, paciência, saúde, razão, juízo e, em casos mais extremos, a própria vida, na tentativa vã de medir forças com uma dor de consciência que nunca esta satisfeita e vive eternamente a nos recriminar. Ela sempre aparece nos momentos mais felizes de nossa alma, apenas para atanazar os nossos miolos e consequentemente o coração. A danada da dor de consciência é tão maledicente que consegue encher de pecado e crença até o mais fervoroso ateu, que sem ver saída, se rende aos seus encantos como um cordeiro.

O que seria do mundo se não fosse à teimosia e a coragem de homens e mulheres que jogam para o espaço seus medos e certezas e saem pelo mundo em busca do desconhecido? Abnegados movidos apenas pela ideia de que o mundo tem sempre mais a oferecer e que a vida não nos da outra oportunidade. Desbravadores que passam ao largo dos quadrados e desconhecem as barreiras da razão. Pessoas que passam a vassoura no lixo produzido nos porões da consciência e descobrem um novo e fascinante mundo.

Não fujo dessa regra fajuta imposta pela consciência, mas hoje não busco os atalhos para sair do caminho que tracei em meus sonhos. Não sou um desbravador, mas não mais estabeleço limites para meus horizontes, porque aprendi que eles são infinitos e não quadrados. Não busco a razão pela razão, busco apenas a paz de espírito e a liberdade de reconhecê-la. Poderia até ser um abnegado, mas nem isso, pois não sou desprendido, nem liberal e nem despreocupado com minha liberdade de pensamentos.

É isso que dá viver a vida entre os segredos do mar e as artimanhas das cidades. Fico horas perdido entre temas desconexos, mas que me trazem o prazer de saber o quanto eles são importantes. Eles ecoam das minhas conversas com amigos e desconhecidos, que sempre se tornam também amigos. Conversas hipnotizadas pelos sonhos de cada um, mas que se desfazem em meio à turbulência traumática da indecisão. Sonhos prestes a se tornarem reais, mas tão incrivelmente inalcançáveis. Mas não existe vida sem sonhos.

Em meus momentos de silêncio escutando apenas o marulhar das águas e o sopro do vento nas velas, a vida desnorteada desses amigos ficam mais latentes em minha memória. Fico receoso das palavras que saem da minha boca. Preocupa-me o exemplo que possa passar. Mas sinto que poderia ter dito mais, que poderia ter passado mais confiança, que faltou a palavra certa, que nada do que eu disse valeu e que tudo vai continuar na mesma, pois assim são os homens: Sonham com uma vida e lutam até morrer por outra!

E assim, entre meus pensamentos obtusos e a realidade de estar navegando além de mais uma fronteira náutica, atento na escuridão do mar desconhecido e com a alegria estampada no rosto, passei meu turno de comando. O Naumi, veleiro que levávamos de Salvador/BA para o Rio de Janeiro, indiferente aos meus devaneios, velejava suave e em rumo batido para Vitória/ES. Recolhi-me ao conforto da cabine, fechei os olhos e dormi. Acho que não sonhei com nada, pois já havia sonhado tudo.

Duzentas e setenta e cinco milhas náuticas, separam a praia de Santo André/BA do Porto de Vitória. Não foi uma velejada das mais tranquilas, apesar de Netuno ter caprichado no tapete. A meteorologia não inspirava confiança e relâmpagos clareavam o céu durante a noite. A bordo tudo funcionando a mil maravilhas, inclusive com a cozinha a todo gás. Poderia ter sido a velejada dos sonhos, mas não era o que sentíamos.

Um imenso nevoeiro cobriu o mundo sobre o continente, mas de longe podíamos notar que não eram nuvens verdadeiras e sim, uma névoa provocada por alguma coisa. Enormes guindastes desenhavam sinistras silhuetas entre as sombras e de repente, o mundo se tornou mundo novamente. Estávamos de volta à realidade e dessa vez, navegando em meio a gigantescos navios de um lado e do outro, o imponente Porto de Tubarão e suas montanhas de minério de ferro.

Era noite quando cruzamos o canal do porto e nos embrenhamos nas águas rasas de acesso ao Iate Clube do Espírito Santo. Nessa hora, não sei por que, lembrei-me do amigo Ronaldo, comandante do veleiro Timshel, que havia saído junto com a gente, mas resolveu rumar para o Arquipélago de Abrolhos.

Amor, olhe a profundidade? – Dois metros. Encalhei!

Nelson Mattos Filho/Velejador

2 Respostas para “É isso que dá

  1. Belo texto comandante, eu como um ouvinte de suas estórias digo que sua medida é sempre a suave e real!
    abç W&C&V

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  2. Encalhou com a maré subindo? Acho que sim, porque caso contrário a história iria render mais umas duas páginas para descrever os aperitivos e a ceia!, Abração.

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