O VHF e a desatenção


2 fevereiro (113)

Dia desses estava atravessando a Baía de Todos os Santos, em direção a Ilha de Itaparica, quando escutei uma insistente chamada pelo rádio VHF em que o navegante pedia ajuda a marina em que é associado. Ele estava a bordo de uma lancha, com o motor avariado, mas infelizmente, ou negligentemente, a marina não o atendia. Sem mais a quem apelar, o navegador pediu ajuda a Capitania dos Portos da Bahia e foi prontamente atendido pelo operador de rádio, que imediatamente deu início aos procedimentos de socorro.

Não consigo deixar de ficar angustiado quando escuto dramas como esse, em que o rádio, irresponsavelmente, deixa de ser atendido. No meu compromisso ético de sempre ajudar a quem está no mar, me vi ainda mais angustiado por saber que a lancha avariada estava a várias milhas de minha localização e somente estava ouvido à chamada devido o VHF do Avoante ter um bom alcance, que não era assim anos atrás, mas que consegui resolver com a ajuda de João do Rádio, um excelente técnico em comunicações em Natal/RN.

Com o apoio da Capitania dos Portos da Bahia, que acionou uma rede de ajuda envolvendo marinas e iates clubes de Salvador, vale salientar que a marina onde o navegante é sócio ficava a menos de 3 milhas do problema, o navegante enfim pôde ser socorrido já bem próximo do anoitecer. Ufa!

Na minha santa ignorância não consigo entender esse desmazelo com os rádios VHF e SSB existentes nos clubes náuticos e marinas por esse Brasil afora. Discutindo o assunto com outros velejadores, diga-se de passagem, nem todos concordam comigo, alguns acham que a coisa tem que ser assim mesmo. Quase sempre sou voto vencido e alguns acham até que estou exigindo demais. Será?

Esse é um problema recorrente e que infelizmente os órgãos competentes esquecem de fiscalizar. Ainda não naveguei pelos mares do sudeste e sul do litoral brasileiro, mas não acho que a coisa seja tão diferente do que vimos por esse nordeste velho de guerra.

Na Bahia, onde navego atualmente, o único rádio que está permanentemente guarnecido é o da Bahia Marina, e ainda coloco meu rosto na janela para ver a cara feia dos outros tentando provar o contrário. Os outros clubes náuticos podem até ouvir a chamada, porém dificilmente se dão ao trabalho de responder. Vai ter gente dizendo que o clube tal atende as chamadas que se dirigem a ele, até concordo, mas uma chamada de emergência, mesmo que não seja para ele, deveria sim ser respondida. Essa é a máxima de quem se propõe dar apoio à navegação.

O que será que deve estar passando na cabeça do navegante da lancha avariada em relação ao clube que ele é associado e nem lhe deu atenção naquele dia? Nenhum navegante faz uma chamada de emergência sem está realmente em dificuldades. Nenhum navegante que se preza, usa o rádio VHF para fazer brincadeiras ou achincalhar os outros. O rádio VHF é uma ferramenta de salvatagem e comunicação de grande importância e para isso deve ser respeitado por aqueles que usam o mar e também por aqueles que se propõem a servir aos que voltam do mar.

Recentemente tentei falar com o Tenab, Terminal Náutico da Bahia, pelo VHF e como sempre não fui atendido. O Tenab é um caso a parte em matéria de desorganização e desleixo com a coisa pública. Lá a coisa anda tão fora de foco que se fechasse as portas hoje ninguém iria perceber, e olhe que é um dos mais belos e centrais pontos de ancoragem de Salvador. Um local com todos os ângulos de cartão postal, porém mais decadente impossível.

Depois de muito tentar um contato via rádio com o Tenab, arrisquei o contato por celular e tudo continuou na mesma: Não havia ninguém para nos atender. Num arroubo de insistência, rumei para lá na esperança de mesmo assim poder atracar o Avoante no píer, que era apenas o que eu queria. Mais uma decepção, e dessa vez para comprovar que: O porteiro não levantava da cadeira; apenas um píer estava em condições de receber embarcações, lá existem dois; não existia marinheiro; o porteiro apenas acenou um não com os braços e que o Terminal Náutico da Bahia está realmente precisando terminar. Sem mais o que fazer, dei meia volta e fui saindo cheio de decepção e interrogações. Reclamar a quem? Se ao menos o rádio funcionasse!

Não quero e não pretendo atingir ninguém com esse texto, mas os nossos clubes e marinas precisam tornar os rádios guarnecidos por pessoas aptas a operá-los. Não devem esquecer que os associados e usuários que estão no mar, a qualquer momento podem ter dificuldades e para isso precisam de ajuda ou de alguma informação pertinente ao mar e aos elementos que o regem.

Deixar o rádio inoperante é no mínimo um desconhecimento as Leis que regem os clubes náuticos e marinas.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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10 Respostas para “O VHF e a desatenção

  1. Comandante,

    O pior de tudo é que quando estudamos para tirar a habilitação de mestre ou Capitão, tudo o que lemos nos livros faz parecer que as coisas funcionam às mil maravilhas, que as estações de rádio da Renec e as Marinas estão ali sempre a postos e operando normalmente como deveria ser por lei!
    É uma grande decepção!!!

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  2. Assino em baixo.

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  3. Ricardo Andrade

    Caro Comandante.Sou velejadores,e meu barco fica no YCB a estação de radio G20 do clube canal 68,fica ligada o tempo todo,temos inclusive repetidora,e os operadores VAL,e Moisés estão sempre solícitos no atendimento,independente,de onde seja a embarcação.

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  4. Trabalho no ramo de Comunicações como Técnico no Litoral Norte – SP, a 35 anos, me assusta o desmanche promovido por alguns iates clubes da nossa região.

    Manoel Coracy ,

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  5. Hamilton Meneses

    NELSON, NA VERDADE OS CLUBES E MARINAS DE SALVADOR NA SUA GRANDISSIMA MAIORIA SÃO ADMINISTRADAS DE FORMA AMADORA E PRECÁRIA, ONDE ESSE ASSUNTO DENTRE OUTROS TÃO IMPORTANTES QUANTO, SÃO DESPREZADOS. O QUE VALE NA VERDADE É A POSE E O EGO INFLADO DAQUELES QUE SÃO CHAMADOS DE “ADMINISTRADORES E COMODOROS” FAZENDO POLITICAGEM E OBRAS DE FACHADA E OS DIRETORES SE REUNINDO PARA ENCHER O RABO DE CACHAÇA E FALAR DA VIDA ALHEIA EM DETRIMENTO DAS NECESSIDADES BÁSICAS DA ENTIDADADE. ESSA É A TRISTE REALIDADE QUE VIVEMOS. ABRAÇOS E BONS VENTOS.

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  6. Comandante Nelson, com tão pouca experiência que possuo já viví e presenciei varios problemas quanto ao apoio às embarcações e contatos, as vezes ajudando e outra como testemunha “ocular” do fato. Ví a situação na divisa da Baia com Espirito Santo, viví o caso da Tenab, outra de um pobre navegante solicitando apoio em Cabedelo,… e então fico imaginando o que pensam os navegantes,os comandantes de embarcações, as pessoas do mar, será que pensam que nunca vai acontecer com elas, ou que no dia que ocorrer Deus às ajudará -sem Ele nada dá certo-, mas a ajuda divina está reservada aos precavidos, dizem que a sorte está ao lado dos precavidos, das crianças e dos bêbados, se não somos enquadrados nessas categorias, melhor se encaixar numa delas, e a dos precavidos me parece a mais conveniente para o caso em tela.
    Minha dúvida é: “O que o comandante da embarcação com problemas, e que foi solenemente ignorado por sua base de apoio, no caso a marina ao qual é sócio, vai fazer?” Vai registrar queixa, vai levar a algum tipo de conselho -caso exista e eu duvido que exista-, vai entrar com a causa na justiça pedindo uma punição e uma indenização pela falta de cuidado que a sua marina teve para com ele e seus tripulantes? Em fim,vivemos no país da impunidade, ou da punição tardia – a justiça atrasada é uma forma de injustiça-, é preciso que esse tipo de situação seja cobrada dos responsáveis, os prejudicados devem tomar as providencias cabíveis, os navegadores devem cobrar seus direitos, assim como são cobrados nas suas obrigações financeiras com as marinas e IC pelo país a fora. Na minha opinião esse é um caso de omissão de socorro e da area da defesa do consumidor, pela falta de resposta, de uma ação minimamente satisfatoria para safar o navegante por parte de sua marina, ele foi literalmente e solenemente ignorado numa situação de risco! Com certeza paga para que nessas situações tenha apoio. Bem que o nome dessa “marina” poderia ser divulgado comandante,seu blog é um dos mais visitados e pode ser tambem uma forma de pressionar.
    Um forte abraço
    Wilson

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  7. Olá Nelson,
    Como vão as coisas? Pelo que acompanho no seu blog, parece que esta tudo ótimo!! Como faço pra encontrar o João do rádio em Natal? Vc tem o telefone ou endereço dele?

    um gde abraço para vc e para Lúcia.
    Alemão

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    • diariodoavoante

      Olá amigo, que surpresa boa ver você navegando e comentando no blog. Estamos bem e navegando por essa Bahia mais bela. Infelizmente não tenho o telefone do João, mas não é difícil de ele em Natal. Davi de conhece-lo e ele faz também alguns trabalhos para o clube e para a Atlântis. Um grande abraço, Nelson

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