Não pertenço mais as cidades


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Uma das coisas que acho mais difícil de explicar é como funciona a vida de um velejador de cruzeiro, principalmente para as pessoas que nos acham doidos varridos. Não tem como explicar as intermináveis variáveis para um dia certo de saída de um porto. Não tem como explicar quando dizemos que tudo depende do vento e do mar e na maioria das vezes tudo depende apenas da nossa vontade. Entendeu? Também não! Mas é assim que funciona a cabeça de um cruzeirista. Parâmetros a parte, porque certo mesmo é que a qualquer hora ele vai para o mar e nada mais interessa.

Fazemos tudo para não dizer aos amigos o dia de nossa partida para evitar as cobranças e os questionamentos recheados de porquês. Mas a turma marca em cima e não temos como evitar divulgar uma data. Quando a saída não acontece, a grande maioria fica nos olhando com aquela cara de eu já sabia e sorrindo por dentro, quando não soltam uma gozação.

Poucos entendem que quando se mora a bordo de um veleiro o que menos importa são os compromissos com datas e hora marcada, ainda mais quando sabemos o tipo de mar que vamos pegar. Quando o cruzeirista não mora a bordo e o tempo é medido por férias do trabalho e fins de semanas prolongados, ai sim, a viagem tem de sair de qualquer maneira. Mesmo assim, a meteorologia é quem vai ditar as regras e traçar o rumo.

Este ano estávamos certos e programados para participar do Cruzeiro Costa Nordeste, de Natal/RN até Maragogi/AL, mas uma série de percalços foi tirando a gente do rumo e quando, enfim, soltamos as amarras, a flotilha já estava muitas milhas mar adentro. Não tínhamos como alcançar a turma que já havia parado em Cabedelo/PB e naquele momento já estava ancorada em Recife/PE, tínhamos que seguir sozinhos e sem nenhuma esperança no Cruzeiro.

O Cruzeiro Costa Nordeste para nós representa mais uma forma de divulgação da vela de cruzeiro, com o objetivo claro de incentivar novos velejadores e também velejadores com anos de vela, mas que nunca fizeram um cruzeiro pela costa brasileira, a sentirem o prazer de uma velejada em que a contemplação da natureza é a senha para uma nova visão de vida. Nada da adrenalina desenfreada das regatas e muito longe do compromisso chato da volta ao clube no fim do dia.

A vela de cruzeiro me descortinou um novo mundo e me deu novos horizontes para a vida. Um mundo tão distante que, vez por outra, quando passo muito tempo nas cidades, me vejo envolvido pela escuridão, entre farpas e malabarismos maquiavélicos, que somente nós homens somos capazes de criar em nossas mentes apodrecidas e envenenadas com o mais temível dos rancores.

O mundo da vela, e esse mar maravilhoso e fascinante, me fez sim crescer como pessoa e a olhar com tristeza para a soberba dos homens e seus castelos medievais de egos. Me ensinou, e isso eu já sabia, a traçar rumos em cima das cartas náuticas da ética e a desprezar falácias de poderes abstratos. Me fez ver que os homens continuam os mesmos bárbaros de outrora, apesar da boa educação e da classe social que se julgam pertencer. A vela me fez saber, mais do que nunca, quanto é barato uma traição e quanto os homens, em pleno século XXI, ainda se deixam manipular.

Foi com o Avoante navegando solitário, em busca da flotilha lá ao longe, naquele mar entre Natal e Cabedelo que consegui enxergar que eu não pertenço mais as cidades. Nada mais nas cidades me fascina, a não se o que tem a bordo do nosso veleirinho. No lusco fusco do dia que nascia, belo como sempre, consegui escutar o dialogo em sussurros entre o vento e mar, apaziguando o humor do Rei Netuno para que nos deixasse seguir em paz. Na saída da barra de Natal recebi uma ligação do comodoro da flotilha do Cruzeiro, Erico Amorim, querendo saber a nossa posição. Sem pestanejar respondi que estava no mar e mais feliz impossível.

Na tripulação, além de mim e Lucia, dois grandes amigos compartilhavam com a gente aquele momento de paz e alegria em voltar ao mar. Antônio Carpes e Eduardo Aroldo, dois apaixonados pelo mar e que fizemos questão que nos acompanhassem nessa viagem. Antônio realizando o sonho de um dia velejar no Avoante e Eduardo realizando a sua primeira travessia oceânica. Para não ficar fora do contexto de uma velejada entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, o mar estava calmo, mas o vento subiu um tom e deu uma ligeira impressão do que ele pode fazer.

Vinte e quatro horas depois de sair de Natal/RN o Avoante entrou em Cabedelo/PB, nos proporcionando uma velejada perfeita. Cumpríamos assim a primeira perna do Cruzeiro Costa Nordeste, e na tarde do mesmo dia soltamos as amarras para seguir para a cidade do Recife/PE, com mais um tripulante a bordo e mais um sonho a ser sonhado.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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3 Respostas para “Não pertenço mais as cidades

  1. Muito bem Nelson ! Dentro desse espírito, eu que ainda estou entre os que medem a vida por fins de semana e feriados, partirei de João Pessoa para Recife neste sábado, na segunda perna do meu périplo para Salvador, onde espero chegar a bordo do Proteus antes que os alísios passem o braço e comecem a “Assular” dificultando minha viagem.
    Um abraço …PS Ja tenho um Spot chamado ProteusII que será acessivel via Facebook.

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  2. diariodoavoante

    Valeu comandante, estaremos esperando você em Salvador para uma grande comemoração. Abraços,

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  3. Mais um texto botando pra torar, comandante!
    Mas eu, cá de minhas navegadas internéticas por entre seus textos anteriores, já percebi, de muito, que vosmecê não pertence mesmo mais às cidades…
    E, cá pra nós, sinto uma inveja danada de boa, sentindo também que mais dia menos dia estarei engrossando este cordão, se é que já não estou, se não de fato mas de sentimento.

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