Madeira que cupim não roi


buscada do comodoro (7)

Uma das boas coisas dessa vida meio nômade a bordo de um veleiro, pulando de porto em porto, são os encontros com os amigos e as conversas que rolam soltas, ao redor de uma recheada churrasqueira, pois velejador adora churrasco, e lavadas com boas canecas de cervejas.

Quem achar que pescador e caçador são os maiores criadores de histórias do mundo é porque não viu um grupo de velejadores conversando. Velejador também tem algumas manias extravagantes. Raramente uma onda é uma onda e na grande maioria, os ventos sopram com muito mais força.

Tem histórias e causos para todo tipo de situação e todos com requintes hilários de deixar a turma dos programas humorísticos com a boca aberta. O caso que vou relatar e que relembrei com muitas risadas enquanto conversava, em Salvador/BA, com o amigo Erico Amorim, você pode acreditar que foi verdadeiro, apenas recebeu alguns toques da minha imaginação, já que quem conta um conto aumenta um ponto.

É o caso de um velejador potiguar que inventou de fazer uma boa reforma em seu trimarã. O barco tinha pedigree em velocidade, mas não dava conforto à tripulação. Tentando resolver a situação, o velejador resolveu, ele mesmo, fazer um projeto e dar andamento a reforma. Essas coisas nunca dão tão certo! Ainda mais quando não se tem muita afinidade com cálculos e ângulos.

A reforma foi sendo tocada e a obra recebendo todo tipo de pitaco da turma do acho que fica melhor assim. O velejador, que não era muito afeito a salamaleques, olhava de relance para o pitaqueiro e nem respondia, mas todos sabiam que por dentro ele estava fervendo. Uma vez ou outra ele respondia a altura e o pitaqueiro tinha que sair de fininho para não ser degolado.

A cabine do veleiro foi esticada para cima, o mastro ficou mais alto, um novo motor foi providenciado e quando chegou à hora de refazer a parte de madeira da cabine, o bicho comeu, ou melhor, o bicho de sinal de vida. Apareceu tanto do cupim que dava para devorar a metade da floresta amazônica e ainda sobravam alguns para a operação de rescaldo.

Aquilo foi uma ducha de água fria na cabeça quente do velejador e mais uma vez apareceu à turma dos pitaqueiros para meter o bedelho onde não era chamado. Eram tantas indicações de venenos e tantas formas infalíveis de acabar com o batalhão de cupins, que o nosso amigo velejador já estava ficando sem forças de tanto carregar frascos e mais frascos de venenos.

Dizem que até um pai de santo foi contratado, mas nem assim os cupins abandonaram o barco. Os bichinhos eram valentes e não queriam acordo com reza braba!

Sem ter mais o que fazer e vendo se aproximar o dia de São João, o velejador teve uma ideia explosiva. Foi à primeira banca de fogos de artifícios que encontrou e comprou umas dez caixas de peido de velha, um tipo de fogos bem tradicional, e saiu dando rizadas como se estivesse possuído pelo espírito do charada.

Ao chegar ao clube, cego de raiva, soltou logo uma caixa inteira de bombas dentro do barco. No primeiro estampido soou o alarme no clube e a marinharia e os associados correram para ver o que estava acontecendo. Tábuas voavam pelos ares, a fumaça tomou conta do mundo e ninguém teve coragem de chegar mais perto do que 100 metros de distância. Os amigos temiam pela sorte do velejador e teve até quem lembrasse chamar o Corpo de Bombeiros para recolher o que por ventura sobrasse.

Antes da fumaça se espalhar, outro estampido, ainda maior, sacudiu o mundo e uma grande risada ecoou em meio ao fuzuê. O barco deu um salto do berço onde se encontrava e o velejador apareceu correndo de dentro da bagunça. Um amigo vendo aquela cena macabra gritou: O que danado é isso homem de Deus? Você endoidou de vez?

Sem pestanejar, e com a cara de quem tinha ganhado uma batalha, ele respondeu: Doido uma bixiga, já que eu não consigo matar esses cupins desgraçados com veneno eu vou matar eles de susto. E tome peido de velha até umas horas!

Mas antes que você tente fazer o mesmo com os seus cupins, vou lhe contar que não sei dizer se o bombardeio resolveu à parada, porém a reforma foi terminada com cupins ou com o que sobrou deles. Mas ai a história fica um pouco mais longa, pois na reinauguração do barco uma boia de sinalização distraída atravessou no meio do caminho e mais uma vez o mundo quase veio abaixo.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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10 Respostas para “Madeira que cupim não roi

  1. Madeira do rosarinho, é madeira que cupim nao rói.

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  2. sensacional nelson. aproveito pra contar um fato que aconteceu na decada de 60 no iate clube da bahia. um certo comandante que hoje mora no ceu, comprou seu primeiro barco. um 20 pes, muito famoso naquela epoca. tb resolveu reforma-lo. como era arquiteto entre outras resolveu azulejar a cozinha. isso mesmo cimento e ladrilho. ficou lindo. depois de finalizar a referida ,onde mais alguns absurdos foram feitos veia a inauguracao. uma velejada com muitos convidados. era verao, e o nordeste soprava nos 25 nos. apos subirem as velas, na primeira rajada, o barco comecou a estalar e pedacos de ladrilhos voavam para todos os lados. finalizando, todos na agua !!

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  3. nem seu lunga teria uma solução igual para acabar com os comentarios, e os cupins.

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  4. LEME sebastião LEME

    Eu suspeito que os cupins tem a ver com meu amigo Claudio, (CAM) !!!
    Abs: LEME.

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  5. Nao sabia do causo! Mas pelos detalhes tenho certeza que identifiquei esse personagem ilustre e querido do iate clube do Natal! Kkkkk

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