Brincando com tempestade


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Todo mundo que tem a náutica como sonho de vida já se imaginou um dia navegando até a ilha de Fernando de Noronha/PE. Mas nem todos têm a felicidade, ou será o pesadelo, de fazer isso a bordo do seu próprio barco ou como parte da tripulação de algum veleiro. Há vinte e quatro anos a Refeno consegue dar vida ao sonho de muita gente, fazendo da travessia Recife/Fernando de Noronha um verdadeiro laboratório para testar labirintos, coragens e determinações de novos aventureiros.

Muitos chegam à ilha, certos de que essa é a vida que pediram a Deus, mas outros desembarcam e nem olham para trás para saber onde ficou ancorado o barco. A carreira é grande! Apesar do prometido mar de almirante, que nem sempre está de serviço, essa travessia é um jogo com resultado incerto e sem empate. Mas essa é a vida no mar, onde tudo é tão incerto quanto lógico e o que faz a diferença e a nossa certeza de querer estar bem e se sentir feliz, não importando o restante.

Tem uma música que fala assim: “É impossível ir para o mar e não enfrentar tempestades…” Nessa Refeno de 2012 não enfrentamos nenhuma tempestade e nem os ventos estavam com essa bola toda, mas mesmo assim, de vez em quando, nuvens mais carregadas forçavam a diminuição de velas e até o recolhimento total. Nessas horas não adianta brigar com a natureza e nem puxar os cabelos, afinal, não estávamos ali para correr regata e sim curtir a vida, longe de terra e cercado de céu e mar. A Ilha estava em algum lugar ali na frente, bastava apenas seguir o rumo traçado.

Depois de 66 horas de velejada em um mar nem tão mexido, nem tão liso, chegamos a Fernando de Noronha na manhã da Terça-Feira, 16/10. O Avoante foi o último a cruzar a linha de chegada e, mesmo assim, utilizando a força do motor, o que me forçou a pedir a nossa desclassificação da regata. O problema foi com a adriça da vela genoa, cabo que suspende a vela de proa, que quebrou assim que cruzamos a Ponta da Sapata e aproávamos a linha de chegada. Ainda tentei seguir em frente apenas com a vela grande, mas o vento contra não permitiu a aproximação. Resultado: pedi a desclassificação e fiquei em paz com a consciência.

Mas Nelson, porque pedir a desclassificação já que ninguém tinha como comprovar se você cruzou a linha de chegada no motor e se você já era o último mesmo? Essa pergunta me foi feita algumas vezes e em todas respondi apenas com um: Pois é! Mas por dentro sentia minha alma soluçar de alegria. Para utilizar a bondade e principio da ética não é preciso ter ninguém a nos observar, basta apenas termos o coração e a consciência livres. Nada mais! Isso um dia me foi ensinado pelos meus pais Nelson Mattos e Iracema Mattos e nunca consegui fazer diferente.

Livre, leve e solto desembarquei na bela Ilha de Fernando de Noronha e sua teia indecifrável de leis e normas. A cada ano novas manias e itens vão sendo acrescentados ao já transloucado catálogo de diretrizes administrativas noronhense. Das nossas primeiras idas ao arquipélago até hoje muita coisa mudou e mudou para pior. Somente não mudou a falta de compromisso com um lugar tão lindo.

Ibama, Icmbio, ONGs, administração, ilhéus e turistas parecem viver um eterno casamento de tapas e beijos. Nada pode, tudo pode e ninguém sabe dizer se pode ou se não pode e o porquê tem que ser assim.

Até uns anos atrás Noronha não tinha quase nenhum carro trafegando em sua pequena BR de pouco mais de 7 quilômetros de extensão. Hoje existe uma frota bem maior do que muitas pequenas cidades do continente. O sistema de transporte coletivo hoje funciona apenas com dois pequenos e velhos ônibus, e na grande parte do dia apenas com um deles, pois sempre tem algum dos dois precisando de manutenção. A frota de taxi cobra sobre uma tabela maluca, em que uma corrida em linha reta se houver uma parada no caminho, por qualquer motivo, uma nova tarifa é acrescida. Reclamar a quem? Ao Bispo? Lá tem Bispo não, tem Padre.

A administração do Parque Ambiental foi entregue a uma empresa privada, na promessa de melhorias, que cobra uma taxa de R$ 60,00 para brasileiros e R$ 120,00 para os estrangeiros, não sei o porquê da discriminação, mas continuam cobrando a taxa de preservação de todos que entram no arquipélago num claro, e despercebido, sinal de bi-tarifação. Não sei dizer se a coisa está melhor ou pior nas trilhas do parque, pois não fui tentado a conferir o resultado. Mas pelos comentários a coisa anda meio capenga. Tomara que funcione! Mas também tomara que isso não venha a ser o embrião para uma já comentada, a boca pequena, privatização da ilha. Quem sabe?

Mas Fernando de Noronha é assim mesmo, coisas absurdas e desconexas e muita natureza esbanjando beleza e sem dar nenhuma bola para os aprendizes de feiticeiro. Um dia quem sabe a natureza faça um levante!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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4 Respostas para “Brincando com tempestade

  1. O homem e seu sistema social fajuto mostrando sua face em Noronha.
    Abração
    Fred

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  2. Nelson,
    Parabéns pelo post e mais ainda pela imagem. Onde fez o curso de fotografia?
    Bons ventos sempre,

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    • diariodoavoante

      Olá amigo, muito obrigado. Quanto a imagem, o elogio vindo de você para mim é uma grande felicidade. Grande abraço, Nelson

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  3. A pequena ilha de Fernando de Noronha tem apresentado, desde 1988, um resumo do que há de pior em administração pública em nosso maltratado Brasil. Eles ainda têm conseguido a complicada façanha de piorar o que já é ruim. Valeu Comandante Nelson!!!!!!!!

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