Um mar para sempre ser lembrado


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Estamos de volta ao mar e novamente a bordo do veleiro Tranquilidade para um passeio nas águas das Baías de Todos os Santos, Camamu e Tinharé, onde se localiza o famoso Morro de São Paulo e seu grande número de turistas.

Novamente o Avoante vai ficar nos esperando nas águas seguras do Rio Potengi, atracado ao caís do Iate Clube do Natal. Não gostamos de nos separar do nosso barquinho, mas isso faz parte da vida de quem mora a bordo de um veleiro. Sempre aparece um convite para navegar em barco de amigos.

Saímos no Sábado, 15/09, já no comecinho da noite, seguindo ao pé da letra a cartilha do velejador de cruzeiro que diz no parágrafo primeiro: Nunca inicie uma viagem na hora e nem no dia programado, pois isso pode afetar a sua boa imagem com os colegas e também, a sua alto-estima. Se você acha que essa cartilha é invenção minha, basta comprar um veleiro e cair na ousadia de marcar data e hora para sair. Dá a bexiga e você não sai!

Marcamos a hora da saída para os primeiros segundos do Sábado e assim o tempo foi passando, os segundos se esticando, os últimos detalhes sendo providenciados, depois os últimos dos últimos e quando não faltava mais nada, ainda faltava comprar o pão. Olhamos para o relógio que anunciava 19 horas, embarcamos e soltamos as amarras que nos prendia ao píer. Foi luta, mas conseguimos!

O vento estava solto como um bicho do mato e não aguentava desaforo de ninguém, muito menos de quatro velejadores metidos a arrochados. Mas o caso é que, quando chegamos na boca da Barra de Natal o mar também estava soltando impropérios para todos os lados e não tinha homem no mundo que o fizesse se calar. Como diz um amigo meu: Foi punk!

Para completar a pintura do quadro, eu havia convidado o nosso amigo e tripulante Felício para fazer o seu batismo nas águas do oceano Atlântico nessa velejada. Ou ele achou que eu era mui amigo ou achou que estava doido quando aceitou o convite. Foi cruel! Mas bem que Netuno poderia aliviar a barra, pelo menos nos primeiro minutos, e depois ir soltando as rédeas bem devagarzinho como quem não quer nada.

Se você perguntar a altura das ondas, acho que não vai adiantar muito minha resposta. Mas uma coisa eu posso responder: Foi uma noite, uma madrugada e um pedaço do dia seguinte de banho de mar, pois o mar lavava o convés ininterruptamente e sem um segundinho de descanso.

Apesar do mar encapetado, o vento era quem mandava na festança, pois arrepiava a crista das ondas a mais de 30 nós de velocidade e sem dar nenhum sinal que fosse nos dar sossego em algum momento da navegada. E não deu mesmo!

Mas todo navegador sabe que um dia vai ter que encarar mar e vento forte em algum momento da vida, já que isso faz parte do esquema e nos deixa mais humilde em relação ao mundo. Fico até feliz em ver que Felício, apesar dos trancos e banhos salgados noturnos que passou, estava super confiante em que essa é a vida que sonha. Mas mesmo assim, uma pergunta deve ter martelado a sua cabeça o tempo todo: O que danado eu estou fazendo aqui?

Uma pergunta parecida com essa eu fiz quando, apesar de todo o salseiro naquele mar, tivemos que desviar de redes de pescas espalhadas por todos os lados e sem a mínima sinalização de advertência: O que danado está fazendo essa rede de pesca aqui? Até quando as autoridades marítimas, principalmente as Capitanias dos Portos e a Marinha do Brasil, vão fechar os olhos para essa situação super perigosa para pequenas embarcações. Quando a área é sinalizada nas Cartas Náuticas como pesqueira até que seria admissível, mas mesmo assim as redes teriam que ter sinalizações e com algum controle de tamanho e malhas.

As autoridades não podem admitir que mal educados ocupem o mar com milhares de quilômetros de redes a flor d’água, colocando em perigo a navegação, pessoas e o meio ambiente. Cadê também os órgãos ambientais? O que se vê é que o mar está tomado por redes e cada vez mais sem controle. E ainda tem pescador que se acha no direito de ameaçar aqueles que engancham suas embarcações nas redes. Exigem reparação financeira e outras coisas mais. Coisa que o ser humano sabe fazer muito bem para fugir da responsabilidade!

A navegada seria direto até Salvador/BA, mas diante de um mar de ventos, ondas e redes, tivemos que entrar em Cabedelo/PB para alguns reparos e recolocar ordem na “casa”.

Nelson Mattos Filho

Velejador

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4 Respostas para “Um mar para sempre ser lembrado

  1. Felício Rodrigues Marques

    É meu capitão, o mar não estava pra peixe, nem com todas aquelas redes…

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  2. Beleza de texto! Vá preparando os outros, e quem sabe, um livro com textos e fotos da viagem. Compradores é que não falta!!!

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  3. Capitão, observei que o SPOT não está mais mostrando os pontos iniciais da viagem de Natal a Cabedelo. É normal?

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