Meu filho está bem?


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Sempre tive que responder a essa pergunta carregada de preocupação, e não foi apenas depois que viemos morar a bordo do Avoante, pois ela sempre precedia diante de nossos encontros. Mas reconheço que depois do Avoante ela ficou bem mais frequente e sempre acompanhada de um rosto tristonho, cravejado com dois olhinhos carinhosos.

Acho que já falei aqui nesse diário que viver a bordo de um veleiro é, primeiramente, soltar as amarras da vida urbana e tentar se desligar das raízes mais estreitas de nossas vidas. Mas, uma coisa é a gente falar e outra é cumprir ao pé da letra essas convicções, principalmente quando se trata de raízes indestrutíveis.

Hoje vou pedir perdão a vocês leitores por deixar o Avoante no porto e render homenagens a uma pessoa que nunca sossegou enquanto estávamos navegando ou simplesmente ancorados num píer. Dona Lindalva, minha sogra.

“Estão atirando cada vez mais perto!” É assim que diz um grande amigo meu quando morre uma pessoa de sua convivência e amizade. No dia 13 de Agosto de 2012, eu não sou supersticioso, depois de 15 dias de notícias vacilantes e esperançosas o tiro caiu em cima de nossos corações e levou essa Senhora de mil carinhos e atenção a casa do Pai.

Dona Lindalva, que antes de se tornar minha sogra já havia se feito amiga. Foi através dela que conheci Lucia e numa serie de indecisões de minha parte, traçou o rumo de nossas vidas.

Lógico que esse rumo não passava nem próximo do mar, lugar que ela bastava olhar para se amedrontar. Mas o que seria da vida se não fossem os escritos que trazemos marcados, e que nunca podemos fugir. Dona Lindalva foi à responsável direta pela minha ligação com o mar e acho que no fundo de sua alma ela sabia disso. Ela me deu de presente a grande capitã do meu destino.

Somente eu sei o grande vazio que ela deixa em nosso Avoante. Logo ela que nunca colocou os pés dentro dele. Logo ela que o olhava com o olhar atravessado. Logo ela que sentia um aperto no coração somente em falar no nome dele. Mas sua presença a bordo era tão firme como uma âncora e nosso barquinho a respeitava. Barco tem alma e o nosso tem uma alma maravilhosa!

Por ela nossos telefones viravam dias e noites ligados. Por ela Lucia pedia paz, compreensão e saúde vinte e quatro horas no dia. Por ela vivíamos o grande dilema de ir para o mar e deixá-la tão triste e sozinha. Por ela o Avoante se rendeu as amarras e permaneceu os últimos meses atracado ao porto. E agora? O vazio é grande, mas a presença ainda é forte.

Talvez tenha que responder em sonhos muitas vezes a mesma pergunta que ela sempre fazia. Talvez a vida nos traga o conforto de saber que ela se foi sem sofrimento, o que ela nunca mereceu. Talvez a gente nunca consiga deixar de sentir sua presença. Mas nunca duvidaremos do seu grande amor por todos aqueles que cruzaram em seu caminho.

Dizem que a vida é assim mesmo, e a nossa, mesmo morando sobre o mar, não poderia ser diferente. Mas nunca admitimos essa afirmação. Não consigo imaginar um mundo sem a presença firme, forte, compreensiva e carinhosa de uma Mãe. Não consigo compreender a cabeça de quem as abandona, destrata e a agride mesmo em palavras. Espanta-me ver aquele que não chora sua falta e nem reclama sua presença.

Hoje fico a imaginar Lucia procurando na imensidão do mar um sinal da presença da Mãe que ela tanto amava, respeitava e protegia. Se ela vai ver eu não sei, mas com certeza ela estará lá, com a sua mão firme a nos guiar.

Dona Lindalva, a lembrança do seu olhar pequenino e carinhoso ainda vai nos abençoar por muitos e muitos anos. Sua pergunta vai ressoar eternamente em minha mente e espero responde-la sempre com um tudo bem, pois somente assim seu coração ficava aliviado.

Dona Lindalva, saiba que a partir de agora o nosso Avoante vai balançar um pouco menos, apenas para poder acomodar com mais conforto o seu Espírito e para que ele nunca nos abandone.

Ah! Já ia esquecendo: Estamos bem, apenas sentido muito a sua falta. Um grande beijo!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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14 Respostas para “Meu filho está bem?

  1. Katie Niedermeier

    Que lindas palavras!!!! Um beijo para vcs dois!!!

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  2. Como você, eu desminto tudo que falam de mal da sogra. Para mim minha sogra sempre foi mãe. Tivemos essa felicidade.
    Abração para vocês.
    Fred

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  3. Linda homenagem meu irmão!Também tive uma sogra maravilhosa!! Bjo!

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  4. Marília Mattos

    Belíssimas palavras! Emocionante de ler! Chorei! Nossa sogra deve ser nossa segunda mãe! Parabéns tio! Bjos.

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  5. Bela homenagem Comandante!
    Tenho certeza de que dona Lindalva estará sempre junto a vocês, zelando pelas idas e vindas no mar ou na terra. Deus ganhou mais um anjo ao seu lado. Que nosso Pai Celestial abençoe sempre vc e Lúcia.
    Um grande e fraterno abraço.

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  6. Perfeita a homenagem… é difícil entender e aceitar esse tipo de acontecimento mas no fim sabemos que é inevitável, o destino de todos, a última travessia do espírito a bordo daquele casco que por fim reflete a nossa imagem, mas que no fundo é apenas nosso “casco”… espero que Deus conforte o coração de vocês. Com certeza Dona Lindalva estará sempre presente no Avoante e principalmente no coração de vocês.
    Abraços. Fernando Previdi

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  7. Lindas palavras. Forte abraço.

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