Um rio vivo, soberano e esquecido


por do sol 01 julho (21)

A princesa estava lá, soberana sobre as águas de um belo rio que os homens teimam em destruir. Rio marcado por conquistas, batalhas, poesias, amores, contos, fatos e que um dia já foi trampolim para vôos irracionais e suas cargas de destruição. Rio que sente a cidade se debruçar sobre o seu leito caudaloso e em sussurros inaudíveis conversam incrédulos. Rio de história e que trás no próprio nome a origem de um povo que lhe vira as costas.

Rio que um dia apresentou uma Nossa Senhora que prometia trazer paz, saúde e proteção. A promessa bem que foi tentada a ser cumprida, mas os homens de pouco valor, não deram paz e nem proteção a essa Senhora de boa apresentação.

Mas a princesa estava lá, tranquila e majestosa sobre um mar de cores e luzes de um belo pôr do sol, que todos os dias encanta e desencanta a alma de homens livres de espírito e alma.

Poderia falar bem mais sobre a princesa de um rio quase esquecido e que toda tarde recebe de presente o solo de uma valsa magistral nos acordes de um saxofone. Mas hoje quero falar de um rio que eu não sabia que existia, mas que toda noite embala meus sonhos. Um rio de águas castigadas pelo descaso, mas que nunca se furtou a trazer riquezas. Um rio incompreendido, mas extremamente paciente em se renovar diariamente. Um rio de camarões, de índios e descobridores. Um rio de história e mais belo do que todos os rios do mundo.

Há Natal cheia de vícios e manias. Cidade que encanta, mas que não se desencanta com seus usurpadores. Natal de tempos perdidos em picuinhas midiáticas e politicagens vacilantes. Natal que tanto já teve, mas que hoje navega assustada em desordens ordenadas. Natal que não se conhece e que deixa escapar tanta beleza.

Natal que entrega aos ratos e esgotos seu local de nascimento. Cidade acolhedora, mas que desacolhe o seu passado e futuro. Natal de alegrias, de folguedos, de Reis Magos e de um Câmara Cascudo maior do que seu tempo. Natal de um rio abençoado, mas tão maltratado. Há se o Potengi fosse gringo!

Foi num Domingo de um inverno invernoso que embarquei de alma livre para conhecer as águas que não conhecia, navegando pelas entranhas esquecidas e desconhecidas do Rio Potengi e seu afluente, não menos famoso, Jundiaí. Que passeio fantástico e emocionante! Depois de catorze anos navegando pelo Rio Potengi descobri que não conhecia o Potengi.

Embarquei no convite do amigo Fernando Luiz para sair de Natal até a cidade Macaíba, numa flotilha de lanchas e Jet Ski. Soltamos as amarras da frente do Iate Clube do Natal e de cara, já avistamos a desilusão de uma Rampa maltratada, mal amada e entregue ao desmantelo. Rampa de relevantes histórias e que marcou época, hoje não passa de uma mancha enlameada e de triste desilusão.

Sigo a vista, e me deparo com um canto do mangue também esquecido e estendido na frente de um mercado sem identidade e que prometia ser do peixe. Coisas dos homens de boas intenções!

O passeio prossegue e um porto modernoso se apresenta prometendo boa vida aos passageiros. Placa de obra milionária estendida na porta e a promessa de um futuro brilhante. Quem sabe!

Cais da Tavares de Lira, onde a cidade escutava suas poesias. Embarque de paixões e promessas de vida. Porto de canções de uma cidade mais bela. Plataforma de observação da história viva de uma cidade que prometia o avanço. Cais da Tavares de Lira, sua história foi tolhida e enterrada no abandono. Hoje um porto sem leis e sem ordem.

Continuamos seguindo o rio que se anima em mostrar suas mazelas e entre elas, um prédio novo e suntuoso se apresenta. Do alto de sua imponência paira a incompetência. Terminal pesqueiro que terminou numa incrível falta de planejamento e que até hoje não recebeu nenhum pescado, pois esqueceram a entrada. O rio acha graça e eu também.

Num respingo de olhar me deparo com a Santa em seu altar sagrado cravado numa Pedra do Rosário. Santa esquecida em sua redoma, mas que continua amando a cidade. Aos seus pés, um píer abandonado com a marca de ponto turístico. Nossa Senhora da Apresentação, rogai por nós!

Paço, sinônimo de palácio; residência oficial; palácio de um rei; sede de uma câmara municipal ou prefeitura. Será? Pois é, nas margens do Potengi está o Paço da Pátria. Que nome mais instigante para um descaso tão evidente!

A flotilha segue o rio e ele vai descortinando belezas desconhecidas!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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2 Respostas para “Um rio vivo, soberano e esquecido

  1. Caro Nelson, você veleja bem nas águas e na poesia. Enxergas onde o olhar comum não chega. Vais além, numa espécie de radiografia. Passei minhas férias de garotão na Praia da Redinha, banhada por este Rio maravilhoso. Queira Deus que a cegueira da sociedade um dia possa ser interrompida. Saúde para o nosso belo e resistente Rio Potengi. Abraço !

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