Com a proteção de São José de Ribamar


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Esse texto é o segundo sobre a navegada no Tranquilidade de São Luiz/MA a Natal/RN que escrevi para a Coluna Diário do Avoante, no Jornal Tribuna do Norte, e que é publicada todos os Domingos. O primeiro, O Tranquilidade e o Boi do Maranhão, postei aqui na semana passada. Espero que tenham uma boa leitura.

Envolvidos pela marcação forte dos pandeiros, matracas, tambores, zabumbas e das cores fortes do alegre Bumba meu Boi, soltamos as amarras que ligavam o veleiro Tranquilidade ao píer da Associação de Vela e Esportes Náuticos do Maranhão – AVEN. Na pequena varanda do clube, um grupo de amigos nos desejava bons ventos.

Vimos o quanto é difícil deixar as águas maranhenses de São José de Ribamar, um Santo de grande devoção entre o povo do Maranhão. Muitos usam Ribamar como segundo nome como mostra de fé e devoção. A história conta que um navio vindo de Lisboa naufragou na Baía de São José e os tripulantes, para se salvarem, invocaram a proteção de São José e prometeram erguer uma capela no povoado que avistavam do mar. De imediato o mar se acalmou e a tripulação foi salva. A promessa foi cumprida e uma imagem do Santo protetor foi colocada no local.

Devotos da localidade de Anindiba dos Indígenas acharam que a imagem deveria ser colocada na capela deles e conseguiram levá-la às escondidas, mas no dia seguinte, misteriosamente, a imagem havia voltado para a capelinha de Ribamar. Voltaram a transferir a imagem e dessa vez colocaram sentinelas para guardar o local, mas daí veio à surpresa: São José transformou seu cajado em luzeiro e voltou a Ribamar com a proteção de anjos e santos. Por onde passava o cortejo um rastro de luz se transformou, e daí, o povo de Anindiba entendeu que São José desejava permanecer na igrejinha de frente para o mar.

Muitos anos depois uma nova igreja foi construída de frente para a entrada da cidade, mas as paredes ruíram várias vezes e depois de muitas delongas a imagem de São José ficou definitivamente na capelinha de frente ao mar.

Toda essa história em forma de lenda eu fui pescar na internet, mas já havia escutado o zunzum pelas ruas e becos de São Luiz e fiquei imaginando o luzeiro de São José espalhando brilho pelas águas do Maranhão e sempre retornando ao seu lugar amado. Águas que se esvaem como num passe de mágica e que retornam como num piscar de olhos, demonstrando como são perfeitas as coisas da natureza e do incrível e incompreensível mundo celestial.

Com as bênçãos de São José de Ribamar, que na hora marcada abriu as torneiras para inundar a bela Baía de São Marcos, demos adeus a acalorada estadia que tivemos em São Luiz. Não pretendíamos seguir a mesma lenda de idas e vindas que teve São José em suas aventuras pelo Maranhão, mas deixar a companhia daqueles amigos que em tão pouco tempo haviam conquistado nossos corações foi duro, mas tínhamos que seguir nosso rumo.

Saímos na barra de acesso ao oceano ás 16 horas de uma Quinta-Feira de ventos fortes e mar com tons amarronzados das baixas profundidades maranhenses. Ao longe o Farol de São Marcos mostrava o caminho a ser seguido e uma fileira de navios prestava homenagem ao novo integrante da flotilha dos oceanos. O Tranquilidade retribuía todas essas reverencias navegando esbelto, faceiro e fazendo fita de grande marinheiro.

O vento não parava um só instante e a cada mudança de proa ele vinha na mesma direção, parecendo um imã. Sair do Maranhão em direção ao sul não é mesmo uma tranquilidade, e isso estávamos aprendendo e tendo uma verdadeira aula de navegação nas águas de Ribamar, com os amigos Sérgio Marques, Moby e Erasmo, três valentes guerreiros das tribos maranhenses. Sérgio, além de grande velejador, e também o designe e construtor do BV43, o modelo do Tranquilidade.

A nossa primeira noite no mar foi apreciando o mar de dunas brancas que compõem os famosos Lençóis Maranhenses. A Lua já não estava tão forte, mas a claridade que demandava da costa, era de uma brancura tão intensa que ninguém a bordo ficou indiferente a tanta beleza.

Sem velas, mas com muita alegria a bordo, apesar do ronco forte dos motores, o Tranquilidade cortava as águas da noite em seu rumo coladinho na praia em profundidades que muitas vezes chegavam aos três metros. Adrenalina? Nenhuma, pois esse é o segredo para vencer as fortes correntes desse mar de águas rasas e ventos fortes. Apenas um aperto no coração por não ter conhecido mais sobre esse Estado nordestino tão rico em cultura e belezas naturais, e tão mal amado por seus governantes.

Um dia voltaremos, quem sabe a bordo do nosso pequenino Avoante que deverá ficar espantado quando as águas se forem e a lama abraçar seu casco, mas agora temos muita água pela frente até a primeira parada da nossa navegada no Tranquilidade. O vento continua forte, mas São José de Ribamar intercedeu junto ao Rei Netuno e o mar se mantém tranquilo. Assim vamos navegando!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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4 Respostas para “Com a proteção de São José de Ribamar

  1. Simone Mageli Maruja

    Boa sorte ao Tranquilidade e sua tripulação…!!!
    Abraços e Bons Ventos !!

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  2. gostei da história, muito interessante.

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