A cidade está me sufocando


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Não sei se devo dar palpite no cotidiano das cidades, até porque estou há muito tempo tentando viver a vida olhando de través para as coisas urbanas. Não chega a ser uma arenga daquelas cheias de maledicências, mas é uma rixazinha encapelada de arestas e carregada de indignações Mas na verdade, quando sento no cockpit do Avoante e fico ouvindo os buchichos trazidos pelos ventos, não tem como ficar imune.

Do cockpit fico olhando a vida passar cheia de trancos e barrancos. Ou seria barraco? Escuto os sons das reclamações, em tons cada vez mais elevados, e me surpreendo quando tudo passa como se nada tivesse acontecido. Sinto a podridão das falácias se amontoando em montanhas intermináveis de lixos e me envergonho de suportar olhar tudo aquilo impassível. Do meu cantinho de observação escuto a cidade falar de mobilidade urbana num mundo cada vez mais sem espaço. O vento continua trazendo fogos de uma Copa do Mundo como se tudo pudesse ser resolvido num passe de mágica. Olho para o mar e o horizonte me chama, querendo me tirar do sufoco que se tornaram as cidades.

Novamente olho para o mar e vejo um veleiro chegar ao porto, em busca da segurança e do descanso, e vejo os homens em terra virarem as costas, deixando os nautas ao Deus dará. Homens em terra que deveriam e poderiam dar apoio e alento aquele veleirinho que busca apenas atenção, fazem o possível e o impossível para se mostrarem rudes, carrancudos, antipáticos e antiéticos. Que mundo é esse, em que a alegria de um porto seguro e destruída por interesses atravessados e sem razão de ser. Concluo que: Se o homem pode dificultar, por que facilitar?

Do meu espaço reduzido de observação tento fechar os olhos para tudo aquilo, mas na minha mente uma luz se acende e vejo que poderia estar acontecendo comigo. Movido pela certeza e pela consciência da ajuda mútua entre os navegantes, me apresento para ajudar, mas a insensatez dos homens em terra se tranca em copas e sou obrigado a retornar ao meu cantinho para novamente mirar o mar e pedir socorro.

O verdadeiro homem do mar não admite intolerâncias e o mar acolhe os brutos de coragem, mas renega os que têm a brutalidade na alma. O homem urbano dificilmente entenderá isso.

É preciso viver o mar em toda sua plenitude para ter a alma pronta para um caloroso aperto de mãos e um abraço temperado com cristais de sal. É preciso ter o oceano correndo nas veias para abrir um sorriso de alegria em ver pessoas que nunca vimos mais magras, assanhadas e barbudas. É preciso ter o coração no mar para saber o valor que pequenas coisas e atenções representam a um navegante.

Por isso o mar é tão lógico e verdadeiro. Por isso que o mar cobra dos homens de valor a razão de sua existência. Por isso que os homens do mar são valentes, sábios e bem aventurados. É por isso que é preciso ter a força de mil tempestades e maremotos para ter a coragem de soltar as amarras e se lançar ao mar. O mar não acolhe os fracos de espíritos e apostadores de aventuras. O mar é o mar, um ser justo e verdadeiro como deveriam ser todos os homens.

Um vento mais leve sopra em meu rosto e tento espantar a angustia de ver o veleirinho voltando ao mar sem a ajuda esperada. Os homens em terra continuam imóveis e agora com um leve sorriso no canto da boca estrelado com a desfaçatez do desserviço cumprido. Assim é a vida e assim os homens vão contando suas vitórias atabalhoadas, mostrando para o mundo que somente assim eles conseguem viver. A minha alma chora e grita clamando justiça, mas o mar novamente me acalenta e me faz ver que apenas ele é capaz de julgar. Fecho os olhos e o veleirinho desaparece no horizonte. Quem sabe um dia ele retorne!

Queria apenas dar palpites no cotidiano de uma cidade de Reis e Magos, mas tudo é tão tumultuado que a visão vai escurecendo e não consigo raciocinar direito. Falam em mobilidade, falam em Copa do Mundo, falam em política, falam em acordo, falam em saúde, falam em educação, falam em segurança, voltam a falar e política em acordos, acordões, e esquecem a cidade e seus anseios. Termino por achar que não devo dar palpites em nada.

A cidade é que precisa se achar, mas infelizmente ela está presa nos costumes. Presa no caís com fortes correntes da discórdia, dos desmandos, da inveja e da covardia. Presa pela boca e pelo ouro dos tolos. Presa pela mentira dita como verdade. Terrivelmente presa pela ignorância e pelo grito do mais forte. O mundo é assim! A vida é assim! A gente é assim!

Que rumo tomou aquele veleirinho? Preciso também tomar o rumo do mar. A cidade está me sufocando!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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16 Respostas para “A cidade está me sufocando

  1. A arte descrita em palavras, parabéns Nelson, me parece que o mar também mantém íntegra a sensibilidade desse escritor…

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  2. Belo, real.
    O mar é sua fuga, da realidade do mundo virtual em que vivemos.
    Eu, continuo falando contra esta virtualidade, na procura de demonstrar que a fraternidade é a nossa salvação, apesar de saber que falo para paredes.
    Mas não importa.
    Poucos entendem isto, como você e eu.
    Abração
    Fred

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  3. Na proa do Avoante há mais felicidade que na popa.

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  4. Sabias palavras meu amigo , mas infelizmente este veleirinho não volta , como muitos não voltaram ……

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  5. Belissimas e tocantes palvavras meu querido, só quem já foi veleirinho um dia compreende na plenitude o sentido delas.

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  6. Lindo texto! Emocionante!!!!!! Q saudade da vida no mar! Que saudade deste por do Sol…

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  7. Prezado Nelson
    Belo texto, compartilho muito dos seus pensamentos.
    Abs

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  8. Cara ! Você escreve não só com os neurônios, mas…com o coração e a alma !! Antes, bradar ” Terra a vista ! ” Era sensação de segurança. Agora, feliz de quem pode bradar ” Mar a vista ! Levantar âncora, içar velas e vamos zarpar….”. Gilberto Leite

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