As pedras e a educação náutica


Rio da Dona (1)

Um dos princípios básicos para a segurança na navegação é manter a embarcação a salvo de perigos, mas infelizmente não é isso o que avistamos quando navegamos por ai ou quando assistimos os noticiários.

O caso do capitão do transatlântico que naufragou na costa italiana, matando dezenas de pessoas, é apenas a ponta mais visível da pedra. Muitos comandantes se apressaram em condenar o capitão irresponsável, mas se esquecem de virar os olhos para o cockpit das suas próprias embarcações. Eu mesmo já presenciei comentários raivosos sobre o comandante Schettino e logo em seguida o mesmo comentarista assumir o comando de uma embarcação e fazer manobras absurdamente perigosas. Coisas dos homens!

Navegar não é tão fácil quanto parece e muitas pessoas acham que comandar uma embarcação é o mesmo que dirigir um automóvel. A grande maioria leva para o mar a mesma falta de educação e agressividade que costumam exibir no trânsito e com isso, acabam transformando belos passeios em grandes tragédias. Para pessoas assim já não basta à desgraceira das nossas ruas sem Leis e matar é uma fatalidade tão pequena que eles mesmos se contentam com as desculpas no dia seguinte. Apenas eles e a justiça!

Schettino emergiu para o mundo e vai ser sempre lembrado pela lambança mortal de seu deslumbramento como comandante. Não adiantam seus pedidos de desculpas, nem suas explicações desnorteadas. Nada muda o quadro trágico pintado sobre a paisagem da bela ilha de Giglio. Schettino deixou o comando do navio Concórdia nas rochas e entrou para o mundo das desgraças e para sorte de milhares de passageiros e tripulantes mundo afora, ele jamais assumirá outra embarcação. Tem países que as regras são claras!

Aqui em nós, como diz um pescador amigo meu, as vítimas pagam por tudo e ainda perdem o direito de defesa. A segurança na navegação, no nosso caso, é apenas uma matéria chata que cai em prova para retirar carteira de habilitação náutica de amador. Passou o período da prova tudo fica esquecido nos livros e nas apostilas que passam de mão em mão. Ai do Inspetor Naval que se atrever a cobrar atitudes responsáveis de condutores mais afoitos. Primeiro recebem na cara a excelentíssima pergunta: Você sabe com quem está falando? Em segundo lugar é cercado pela furiosa claque de pais, mestres, padrinhos, cunhados, primos, amigo político e afins, que se esmeram em declarações que atestam a inocência e bons antecedentes do negligente irresponsável.

Foi assim que este ano tivemos quatro acidentes, com vítimas fatais, causados pelo mau uso do Jet Ski. É assim que anualmente dezenas de acidentes acontecem nas águas dos rios que banham a Amazônia. Foi assim também que durante os festejos de uma feliz virada de ano um barco cheio de armengue entristeceu uma cidade. E é dessa maneira que centenas de acidentes acontecem todo final de semana e ninguém, além das vítimas, pagam nada por isso.

Diante das explicações estapafúrdias dos envolvidos, nós é que ficamos envergonhados por estar assistindo tudo isso impassível. Ouvi uma senhora dizer, enquanto lágrimas de crocodilo escorriam em sua face, que ninguém controlava um garoto que pegou um Jet Ski por que quis e atropelou sem controle uma criança de três anos. Ouvi um pai afirmar que o único filho, de nove anos, havia exigido que ele pilotasse o Jet Ski e cometesse a infração marítima que causaria a morte do mesmo. Em que mundo nós estamos? Que pais são esses? Será que esses são os modernos pais amigos? Só que: Pai é pai e amigo é amigo. Ainda não vi nenhum pai deixar que um amigo educasse seu filho.

Agora, diante de toda essa carnificina causada pela fúria desenfreada de potentes motores, os nossos legisladores resolveram tomar uma atitude risível: Habilitação para motonauta e 4 horas de aula prática como comprovação de perícia. Será que vai resolver? Quem vai fiscalizar? Quem vai aplicar as aulas?

Schettino tinha muito mais do que isso e deu no que deu. Embarcações no Amazonas continuam navegando superlotadas. Nas barbas do poder central acontece de tudo nas águas do lago Paranoá e as motos aquáticas continuam a ser pilotadas por quem tiver curiosidade, vontade e força diante dos pais.

As pedras nas águas da ilha Giglio ainda serão lembradas por muitos anos, mas as nossas, serão esquecidas antes que termine o Outono. Navegar é até fácil, mas se educar é que são elas!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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3 Respostas para “As pedras e a educação náutica

  1. Assino em baixo amigo Nelson…
    Logo apos ler seu (bem escrito) texto assisto na TV entre chocado e estarrecido, a matéria sobre a guerra entre torcidas em São Paulo, onde pessoas foram mortas, outras gravemente feridas, e a polícia só pôde assistir, pois os selvagens estavam em maior número e fortemente armados! Torcedores???? ou marginais travestidos? Torcida organizada ou Quadrilha uniformizada.?

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  2. Bem colocado o texto que joga uma luz sobre como o homem se torna brutal quando se sente movido a motor , tanto em terra quanto na água . Quando vemos um costa concórdia em posição imbecil ou um motoqueiro esticado no asfalto ou escutamos dezenas de buzinas que tocam sem justo motivo penso que a família está enfraquecida diante dos novos métodos de educação social que ainda não conhece seus parâmetros .

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  3. Marcelo Vicente

    E’ triste mas e’ a real. e infeleizmente nao vai mudar nada, nos ultimos 40 anos nada mudou, igual a N. Zelandia, la’ tb nao mudou nada nos ultimos 40 anos, so’ que a diferenca e’ que la’ se respeita as leis e o bom senso (nada mudou faz tempo). moral da historia:- vao faturar uma grana a mais com cursos, etc…. e so vai mudar as moscas!! a m…. eleca continuara’ a mesma.

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