Considerações de uma navegada


IMG_0543

Navegar no Mar do Caribe e em torno das ilhas que compõe todo aquele cenário mágico de beleza, na verdade nunca fez parte dos nossos sonhos quando resolvemos morar a bordo do Avoante. Pretendíamos mesmo era conhecer todos os recantos possíveis do litoral brasileiro e daí, um dia, partir para uma volta ao mundo e conhecer tudo o que os caminhos do mar pudessem nos levar. As ilhas do Caribe e suas histórias de tesouros e piratas seriam nossa rota natural para desbravar o mundo e, com certeza, nada passaria ao largo.

Hoje depois de ter chegado às portas desse mar que encanta e faz parte da história de vida de milhares de velejadores pelo mundo, ainda continuo com o mesmo pensamento, mas com muito mais pressa para descer todo o litoral brasileiro e depois subir com o nariz apontado para a proa do Avoante.

A viagem no veleiro Itusca, de Natal a Trinidad, nos abriu as portas para um mundo que sabíamos que existia, mas que a nossa consciência náutica ainda não havia alcançado e mostrou o quanto adoramos esse mar que nos acolhe.

Sempre vislumbrei o mar como um ser enigmático e dono de um humor dos mais difíceis, mas nunca tive medo dos seus rompantes de bravura, pois sempre o respeitei e nunca tentei medir forças com ele.

O grande Netuno, rei dos mares, e seu grandioso exército de guardiões sempre foram zelosos com a gente e nunca botaram as barbas de molhos, nem se armaram com reluzentes tritões diante de nossa passagem. Baixamos a cabeça sim, mas em sinal de respeito e amor ao mar.

Fazer parte da tripulação do veleiro Itusca, a convite do amigo Eduardo Zanella, foi para nós um prêmio a tudo o que plantamos até agora diante dos amigos que o mar nos presenteou. Foi uma viagem de aprendizado e uma das mais tranquilas que fizemos, num mar espelhado e com vento na média de 9 nós de velocidade.

Uma viagem diferente de todos os relatos que já havíamos escutado sobre esse trajeto. Não sentimos, nem tivemos nenhum sinal de que algum pesqueiro quisesse nos abordar, como às vezes escutamos em rodas de bate-papos, e olhem que navegamos muitas vezes entre eles de dia e de noite. Os dois únicos sustos aconteceram mais por criação das nossas mentes viciadas no pior.

Navegamos num mar adormecido e extremamente dócil, com o vento debandando para os lados de um furacão que se formava ao longe e sem a gente saber de nada. Alias, desse monstro com nome de mulher avistamos sua face tenebrosa se formar várias vezes no horizonte muito longe, mas era apenas cara feia e nada mais. Irene estava mais interessada em outras quebradas.

Avistamos muitos golfinhos, alguns suspiros de baleias, fomos seguidos durante horas por um bando de atuns brincalhões, pegamos dois deles para nos servir de alimento, tomamos banho de mar a 200 milhas da costa e nadamos num mar de um azul tão intenso que chegava a incomodar. Assistimos belos e inesquecíveis pores-do-sol e navegamos no rastro prateado de uma Lua tão grande e tão bela que somente os poetas sabem descrever. Vimos o Sol derramar seus raios alaranjados sobre aquele mar netuniano e espalhar vida no universo.

Presenciamos o poderoso Rio Amazonas medir focas com o mar e inundar o oceano com os seres e os cheiros vindos das profundezas da floresta pulmão do mundo. Foi um show da natureza e a gente ali de boca aberta a observar.

Cruzamos com emoção e brindamos com a mais legítima cachaça brasileira a linha que divide o mundo em norte e sul e conquistamos o direito de explorar todos os mares do mundo.

Essa foi a nossa navegada de Natal a Trinidad e que um dia esperamos refazê-la a bordo do nosso Avoante. Não podemos precisar o dia, pois como diz a música: “… veleiro vai devagar, depende do vento e do mar…”

Queremos agradecer ao nosso comandante Eduardo Zanella pelo carinho com que nos convidou para participar dessa tripulação. Eduardo é um comandante e velejador extremamente competente, receber esse convite foi para nos um presente que nunca iremos esquecer. Agradecer também aos companheiros de tripulação Ubirajara Carratu e Guilherme Tramontina, dois marinheiros de primeira viagem em velejadas longas, mas que se comportaram como verdadeiros lobos do mar.

Eu sempre disse que barco tem alma e por isso não posso deixar de agradecer ao Itusca, por nos ter acolhido tão confortavelmente e ter demonstrado toda segurança tão presente nos grandes barcos marinheiros. Navegamos nele com muito carinho e ele soube por isso reconhecer.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

4 Respostas para “Considerações de uma navegada

  1. Bela narrativa, flutuei nas palavras e terminei viajando junto!

    Curtir

  2. Grande Nelson,
    Tenho lido sempre seus textos e, acho que você tem a obrigação de juntá-los e compilá-los em forma de livro. Não nos negue esse presente!

    Grande Abraço!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s