Arquivo do mês: outubro 2011

Uma boa terra

Terra Caída

Artigo publicado em Janeiro de 2010 no Jornal Tribuna do Norte, coluna Diário do Avoante.

Toma Burro! Essa frase para quem conhece o povoado de Terra Caída no município de Indiaroba/SE é bastante familiar. Faz lembrar o impagável Zé de Teca, uma figura folclórica, amiga e cheia de boas histórias para contar.

Zé de Teca de vez em quando, ou quase sempre, esta aprontando uma boa, para alegria dos que tem o prazer de conviver com ele.

Sentar numa roda de bate papo e escutar Zé contar suas estripulias, quando da gravação da novela Tieta, é um deleite de alegria e diversão. Ele fala com naturalidade e numa intimidade tão aguçada da atriz Sonia Braga, a bela morena que encarnou Tieta na novela global, até parece que tudo aconteceu ontem à noite.

Zé de Teca, o italiano Burro, como ele mesmo gosta de se autodenominar, flanava com muita naturalidade no sete de filmagem e em todos os eventos sociais em que compareciam os artistas e sua musa super star.

A esposa de Zé, Dona Regina, que ele batizou de Regina Duarte, para não fugir da linha global, de tanto ouvir os seus relatos de paixões com atrizes e outras afamadas, já não esboça nenhuma reação de ciúme. Para ela Zé é um menino grande, um bode velho que escapou das dunas brancas de Mangue Seco e hoje faz sua festa particular em Terra Caída.

É muito difícil alguém por aquelas bandas não conhecer ou mesmo não saber alguma coisa sobre ele. Ficar amigo de Zé é muito fácil, basta que a pessoa goste de brincar, escutar histórias e acompanhá-lo em uma rodada de sapeca temperada com 51. Toma Burro!

Relatar suas aventuras com Sônia Braga é o maior prêmio para esse apaixonado pela vida. Difícil é saber até onde vai à imaginação do homem e qual a fronteira da verdade nesse relacionamento recheado de boas intenções com umas pitadas de amor platônico.

Numa das muitas festas que giraram em volta da filmagem e que Zé de Teca compareceu ao lado de sua musa morena, eles foram montados numa carroça puxada por um burro. Na festa tinha comida e bebida para dar de comer a um verdadeiro batalhão. Zé não agüentava mais comer nem beber coisa nenhuma. Seu estado etílico era de fazer inveja a muito boêmio apaixonado. Mas, ele solidário com o burrico da carroça e incentivado por Sônia Braga, juntou o que podia de bolo, torta, salgados e refrigerante, colocou tudo no mais fino prato de louça é foi dar de comer e beber ao burro. Enquanto o burro comia, ele e sua bela atriz deitaram na grama e ficaram um bom tempo olhando as estrelas. Quando acordaram, a festa já tinha terminado, o burro os observava de longe e não existia mais ninguém para contar a história, somente ele, Sônia e o burro. Mas, ele jura de pés juntos que nada de mais aconteceu fora à contagem das estrelas.

Quando terminou a gravação da novela, Sônia Braga quis levar Zé de Teca com ela, mas ele muito apaixonado por sua Regina Duarte, deixou que a bela morena partisse para nunca mais vê-la.

Certa vez um filho dele caiu da canoa quando pescava em alto mar e desapareceu nas profundezas do oceano. Dona Regina vendo o filho ser levado pelo mar, chorou uma semana seguida e Zé sempre dizia que ela não se desesperasse a toa, pois um dia ele votaria. Uma semana depois apareceu um tubarão em frente à Terra Caída e para surpresa de todos em cima do bicho, cavalgando alegremente, estava o filho de Zé.

Ele contou que quando afundou no mar o tubarão o pegou no lombo e saiu com ele numa viagem pela Bahia, Rio de Janeiro e outros Estados do sul. Quando ele já estava sem fôlego o tubarão deu meia volta e trouxe-o de volta. Toma Burro!

O Avoante já entrou três vezes na Barra de Estância e lá dentro, sempre faço o rumo do povoado de Terra Caída. Sigo em busca das histórias fantásticas do grande Zé de Teca, dos massunins da Ilha da Sogra, das sapecas na brasa e do calor humano de um povo bom.

Estamos prestes a sair novamente de Natal e uma das paradas oficiais do Avoante será novamente a tranquilidade dominante daquela ancoragem e dos aromas trazidos pelos ventos. Terra fértil, muito verde, muito peixe, muito crustáceo, muito calor humano e muita alegria.

Tomar banho de rio no pôr-do-sol e esperar a revoada de pássaros de volta aos ninhos. Tudo isso é Terra Caída e tudo isso é bem Brasil, mundo apaixonante e abençoado pela natureza.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Baleia jubarte consegue voltar ao mar

A baleia jubarte que havia encalhado na praia de Upanema, na cidade de Areia Branca, litoral norte do Rio Grande do Norte, conseguiu voltar ao mar com a ajuda de 200 voluntários e Biólogos.

 

As Iles du Salut

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Conversando com um indiano que mora há muitos anos na Guiana Francesa, casado com uma brasileira, e que encontramos por acaso em frente a um orelhão na cidade de Kourou, ele nos falou que se Iles du Salut fosse no Brasil aquilo seria um lugar alegre com muitas pessoas se divertindo, organizado e sem nenhum problema. Fiquei olhando para ele e tentando descobrir até onde vai à imaginação do ser humano.

Fiquei imaginando a cara de felicidade dos milhares de náufragos, traficantes, degredados e espertalhões que cruzaram esse atlântico velho de guerra, em busca de um mundo verde e fascinante, e que alguém, em alguma taberna enfumaçada, já havia comentado que existia além mar. No mínimo o comentário era esse: “Vamos lá que o negocio é bom. Tem uns indiozinhos metidos a bestas, umas indiazinhas arrumadas e os caciques se vendem por qualquer promessa ou presentinho barato!” Será? Mas vamos deixar isso para lá, pois os ventos e as correntes já espantaram esses perigos de nossas praias. Restaram a nossa fama festeira, futebolista e alegre.

Quando desembarcamos na Ile Royale, a maior e onde se localiza a administração do arquipélago da Iles du Salut, não pude deixar de perceber a quantidade de pessoas estendidas na grama descansando, dormindo, conversando ou apenas deixando o tempo passar. Não apareceu ninguém para ditar normas e nem exigir, sob ameaças, o cumprimento das Leis de preservação ambiental. Tudo já estava ali muito claro sem fiscais, sem fiscais dos fiscais, sem ONGs para fiscalizar os fiscais, sem fiscais para fiscalizar ONGs e sem a balbúrdia de fazer que se fiscaliza para não fiscalizar nada. Não pude deixar de comparar com uma ilha distante em que não se pode nada, que nas entrelinhas se pode tudo e que está longe de receber o selo de preservada.

Iles du Salut tem um passado sombrio e tenebroso como tem muitos lugares que já serviu de prisão ao longo dos tempos. Dos horrores dos tempos de grades e ferros restaram celas abandonadas e ruínas preservadas dos prédios que abrigavam condenados. Ao longo do passeio entre trilhas e celas ainda é possível ouvir sussurros abafados da história encravada em suas pedras, misturada entre uma espessa vegetação de mata amazônica, capivaras, araras coloridas e uma vasta fauna oriunda da floresta.

Na Ilha Royale um albergue restaurante recebe o visitante usando toda a frieza originada e ensinada nas melhores escolas francesas. Deve ser por isso que o nosso amigo indiano se recente. Um museu, seguindo o ritual dos melhores museus europeus, conta em detalhes tudo o que o tempo tenta esquecer e a história não da permissão. Livros, quadros e documentos são guardados por uma brasileira nascida sob a sombra da floresta amazônica do Amapá. “– De onde você é?” “ – Sou do Brasil” “ – Eu também!” Que mundinho pequeno!

Levantamos âncora da Royale e fomos ancorar na Ilha Saint Joseph. Longe? Não! Tão próximo que poderíamos ir a nado, mas queríamos um bom abrigo para nosso churrasco de comemoração da chegada. Royale era bom, mas Saint Joseph parecia melhor. Brasileiro é festeiro!

Churrasco, caipirinha, cerveja gelada, música e alegria, afinal estávamos comemorando uma travessia de 7 dias apenas de céu e mar e nossa primeira velejada internacional.

O dia seguinte foi para explorar a Ilha de Saint Joseph, suas praias perfeitas para piquenique e belas paisagens cercadas de coqueirais. Um antigo e bem preservado cemitério, de frente para a Ilha do Diabo, espalha no ar ainda mais beleza e tranquilidade, não é a toa que ao lado do seu muro de pedra se encontra o mais gostoso ponto dos adeptos do piquenique. Redes armadas entre as arvores compõe a cena ideal para a frase “Sombra e água fresca”. Um dia eu ainda vou armar a minha em meio aquela paz.

O mundo turístico de hoje conhece pouco das Iles du Salut, mas se lembra do filme Papillon e suas cenas macabras, cercadas de tubarões ferozes e traições, onde uma história verídica é contada e expos ao mundo a inexpugnável Ilha do Diabo, um lugar onde nunca ninguém tinha conseguindo escapar. Se no passado era impossível sair da Ilha do Diabo hoje em dia é proibido desembarcar em suas terras. Ela está fechada a visitação pública, mas avistá-la de longe já é um bom troféu para os visitantes.

Ficamos encantados e fascinados por estar ali e se fosse possível, ficaríamos um bom período curtindo toda aquela história, mas tínhamos que seguir viagem e ainda teríamos que dar um pulinho no continente na cidade de Kourou, Guiana Francesa. Velas em cima e seguimos viagem!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Veleiro

Maruja partindo para o Caribe (25)

Do amigo e leitor do nosso Blog, Carlos Rosso, recebi esse poema de Manoel de Andrade, é que  diante dessa manhã tão bela e radiante de Primavera, soprada por ventos sudestes e que nos faz lembrar o inverno que se foi, não poderia deixar de dividir com vocês. Para ilustrar, inclui a imagem do veleiro baiano Maruja, dos amigos Hugo e Catarina Vidal, que hoje, 22/10, zarpou de Natal com o sonho embarcado de passar 2 anos pelos mares do Caribe e Atlântico.  

VELEIRO

poema de manoel de andrade

 

Mar afora, mar adentro
lá vai singrando um veleiro
quem dera ser passageiro
… pra correr nas mãos do vento.
Mar adentro, mar afora
como navega ligeiro
cruzando este golfo inteiro
nas cores vivas da aurora..
Onde vais assim tão cedo
rumo à ilha do Arvoredo
levando meu coração…?
Vou navegando contigo
meus olhos te seguem, amigo
perdidos na imensidão.

Baia de Zimbros, janeiro de 2005
do livro CANTARES editado pela Escrituras.

Baleia-jubarte de 10 metros encalha no litoral do RN

Uma baleia-jubarte de 10 metros de encalha na praia de Areia Branca, no litoral norte do Rio Grande do Norte. foto e notícia copiados do G1 

Entre um bolinho e outro a gente vai ficando mais redondo

bolinho de bacalhau do andante (6)

Acho que já comentei aqui várias vezes sobre os encontros de velejadores que acontecem em Natal, o palco nem sempre fica restrito as varandas do Iate Clube do Natal, mas é sobre esse palco que quero falar novamente, já que estamos ainda sob os efeitos etílicos-gastronômicos do Pós-Regata Fernando de Noronha/Natal e por aqui ainda se encontra uma turma boa, animada e que basta um estalar de dedo para começar uma festa. A flotilha dos apressados, ou melhor, dos regateiros de carteirinha, já deixaram a Cidade do Sol há muito tempo, mas os sempre devagar, que são os cruzeiristas, ainda estão por aqui pegando um bronze e aumentando a silhueta. Alguns estão com as velas prontas para se mandar para as águas macias e cativantes do Mar do Caribe e de lá se esparramar pelos mares do mundo. Outros ficam olhando o vento e esperando um bom motivo para deixar Natal e voltar para o Sul maravilha. Mas no final, todos ficam mesmo é de olho na churrasqueira e nos anúncios diários de festas e comilanças, pois basta alguém chegar da feira com uma sacola mais recheada, que os outros já ficam na espera por um convite. É de mais homi! Até os barcos parecem entrar nesse esquema de maré mansa e festa, pois alguns insistem em não querer conserto e todo dia inventa uma munganga. Tem deles que só se resolve com reza braba. Eduardo Zanella que o diga! No rastro dessa flotilha de aventureiros sem pressa e loucos por um bate-papo descontraído, fica o grupo de velejadores nativos dessas terras do cacique Poti, que a todo momento inventa uma novidade para os visitantes se esquecerem de ir embora. No frigir dos ovos e das lufadas de vento, os cafés das segundonas e os encontros de quartas-feiras ultimamente estão com carga dobrada, sem falar nos intervalos entre um e outro. Comecei esse post na intenção de falar das receitas e dos sabores deliciosos que a todo momento surgem de algum barco visitante, ou mesmo da turma caiçara, como o Bolinho de Bacalhau, cujas fotos ilustram esse texto, e que foi produzido a bordo do veleiro Andante, por Fernando e Paula, editores do blog Do Bar pro Mar e que faz parte do BlogRoll do Diário do Avoante.  O casal velejador é proprietário do Bar do Português, na cidade paulista de Bauru, e está aproveitando a delícia do fundeio do Rio Potengi enquanto espera a vontade de zarpar subir a bordo. Mesmo que você prometa doar dois conjuntos de velas novas para o Avoante eu não vou dizer a receita do bolinho, pois isso é segredo de estado, guardado debaixo da quilha do Andante e eu também não sei. Mas que o bicho estava bom estava! No mais, eu e Lucia já desistimos de olhar a balança e agora estamos tentando a todo vapor engrenar umas caminhadas pelo calçadão da beira mar, o que conseguimos até agora foi apenas gastar o solado dos tênis e umas dorezinhas pelo esqueleto, mas estamos na luta. Só que, essa luta está desigual e acho que enquanto essa turma não for embora, vamos ter que comprar mais uns pares de tênis.  

Afinal, comeram ou não comeram o alemão?

Ontem,18/10, postei uma notícia que corre na internet sobre o desaparecimento de um velejador alemão na Polinésia Francesa e coloquei o título de O Mundo dos Bárbaros, só que a história parece que está tomando outro rumo.  A vice-prefeita da ilha de Nuku Hiva, Deborah Kimitete, em entrevista a rede BBC negou o ocorrido e acusa um reporte alemão de ter criado toda essa história. Sobre a existência de canibalismo na Polinésia ela disse que isso já não ocorre a mais de 200 anos. Haiti, o principal suspeito, anteriormente já tinha sido condenado por roubo. Segundo informações da polícia o velejador ancorou o veleiro na ilha de Nuku Hiva e saiu em companhia do guia Haiti e desde então está desaparecido, mas segunda a vice-prefeita a namorada não estava com eles. Ela diz ainda que a população está muito magoada e que o fato pode comprometer o turismo da Ilha. Eu agora estou aqui matutando e curioso para saber quem comeu quem. Agora danou-se!