Kourou – Guiana Francesa


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As Iles du Salut foram ficando para trás e a vontade de ficar mais uns dias de sombra e água fresca, curtindo aquelas belezas, não passava de jeito nenhum. Mas, tínhamos que seguir viagem e ainda faltavam mais de 600 milhas para o nosso destino, Trinidad e Tobago porta de entrada para o Mar do Caribe e suas ilhas dos sonhos da grande maioria dos velejadores de cruzeiro do mundo.

Também não estávamos ali para fazer turismo, estávamos ajudando o amigo Eduardo Zanella a levar o catamarã Itusca até uma marina em Trinidad. Mas também, ninguém é de ferro e resistir a tanta beleza é quase impossível. Vimos o que tínhamos de ver, passeamos o que tínhamos de passear, conhecemos um pouco da história instigante que ainda paira no ar e tiramos muitas fotos para nunca esquecer. Agora era apenas saudades e boas recordações daquelas ilhas bem preservadas e cativantes.

Como o vento até aquela latitude não havia comparecido com firmeza para o trabalho, tivemos que usar o motor durante boa parte da viagem e como no mar não tem posto de combustível na esquina, tínhamos que sair em busca do líquido precioso que faz o motor se manter vivo. Nem sempre a vida é como a gente sonha, mas alguma coisa não estava certa com o clima por aquelas bandas. Com diesel acabando e o vento fraco, rumamos para o continente em direção a cidade de Kourou, onde a França mantém uma grande base de lançamento de foguetes e onde sabíamos que poderíamos encontrar combustível e alguns mantimentos que estavam acabando.

Kourou fica há pouco mais de 10 milhas das Iles du Salut e a navegação não é difícil, mas é feita em um canal raso, bem balizado e deve ser adentrado de maré cheia. Uma Draga fazia o aprofundamento do canal e nem ela escapava quando a maré secava.

Assim que ancoramos no Rio Kourou, no Domingo, Eduardo desembarcou e foi em busca das nossas necessidades, mas logo retornou com algumas notícias desencorajadoras: A primeira era que, em Kourou a única moeda aceita era o Euro; A segunda era que, como era Domingo não havia como trocar Dólar por Euro e estávamos tecnicamente sem grana; A terceira era que, o comércio não funciona no Domingo; A quarta era que, na Segunda-Feira iria ser feriado e tudo continuaria fechado; A quinta era que, um furacão estava se dirigindo ao Caribe e a Sexta era que o diesel era muito caro. Muito bom!

Sem muita coisa para fazer, o jeito foi relaxar e apreciar a noite que se aproximava, esperando que um bom período de sono clareasse nossas idéias. A noite foi tranqüila, apesar da revoada de pernilongos que invadiu o mundo na hora do pôr-do-sol.

O Rio Kourou tem a força dos rios que cruzam a floresta amazônica com uma incrível correnteza de águas barrentas. Nas suas margens barcos abandonados, e atolados na lama, nos faz pensar que aquele lugar é um porto de desova de veleiros com históricos esquisitos. A francesa cidade de Kourou, embora bem cuidada e planejada, não tem o charme oriundo de além mar. E pelo pouco que conheci e pelos 75 litros de diesel que ainda conseguimos comprar, com a ajuda providencial de um comerciante chinês, que se sensibilizou com a nossa conversa chorosa e resolveu ficar com os pepinos, ou melhor, os dólares na mão, nos passando uns eurozinhos, eu um dia pretendo voltar para explorar melhor aquela ancoragem.

Kourou tem fama mundial por causa de uma grande base de lançamentos de foguetes e satélites, tendo como manequim principal os foguetes Ariane. Nas ruas encontramos muitas referências sobre a base espacial e nos pareceu que tudo orbita em torno dela. Até os preços em Kourou parecem espaciais, pois o diesel a R$ 3,25 faz inveja a muito dono de posto de combustível no Brasil.

Bem, não conseguimos tudo o que queríamos em Kourou, mas dava para seguir viagem e torcer para que o vento desse o ar da sua graça. Assim, depois de duas viagens carregando galões de combustível nas costas e espremer até a última gota no tanque, levantamos âncora e tomamos o rumo direto para Trinidad.

E o furacão? Bem, ele estava se formando a 1.200 milhas de distância da gente e seguia um rumo que dificilmente cruzaria com o nosso. Já sabíamos que se chamava Irene e que vinha ganhando musculatura por onde passava. Não pretendíamos ver Irene dar risadas e parece que ela não estava nem ai para a gente, pois o mar estava incrivelmente liso e o vento nem tinha força de suspirar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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