O segredo


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Certo dia conversando com amigos sobre os muitos segredos quase “indecifráveis” do mundo náutico, me surpreendi vendo que não conseguia repassar, e nem convencer, quando eu falava que não existia segredos, o que existia era um mundo que eles não queriam enxergar.

Eu já tive todas essas dúvidas que hoje tento responder para as pessoas. Nunca imaginei que tudo fosse tão simples a ponto de procurar os segredos e não encontrá-los.

São tantas teorias repassadas como verdades, que todos se acham obrigados a duvidar do óbvio: Não existem segredos na vida no mar, a não ser aqueles que são guardados nos baús dos famosos e ferozes piratas. Será que eles também existem?

Dois passos para o Sul. Quatro passos para o Norte. Seis pulos para o Oeste. Cinco pulos para Leste. E assim, os mapas dos tesouros vão sendo decifrados através dos tempos. Assim é a vida na insegurança das cidades. Homens cruzando ruas em busca dos segredos de tesouros fáceis, onde a busca é a razão deles existirem. Os passos são cada vez mais largos e na maioria das vezes, faltam pernas para prosseguir na busca.

Não existe lógica nos passos, não existe sincronia nos pulos, não existem nem a preocupação com a razão, o que vale mesmo é a sede de demonstrar ao mundo um tesouro que no segundo seguinte já está ultrapassado e apodrecido. Não interessa se a conquista foi leal ou desleal, se foi correta ou incorreta, se foi justa ou se foi injusta, não interessa nem se foi à custa da corrupção. O que interessa mesmo é matar a sede e alimentar os segredos da posse desenfreada.

Nas rodas de bate-papos, os barcos dos sonhos são sempre aqueles que nunca poderemos embarcar. Belas naves dos mares, verdadeiros palácios flutuantes. Um mundo que ultrapassa os sonhos e que colore a vida como ácido delirante. Quando se decide pela vida a bordo de um veleiro é para se viver o sonho e não para viver de sonhos. Não se pode ir para o mar carregando os mesmos males das cidades, se não, o sonho se desfaz.

Quando entrei na vela de cruzeiro, um amigo me falou que estava apenas esperando resolver uns negócios comerciais para seguir a minha esteira. Fiquei imaginando o que ele queria dizer com aquilo, pois eu achava que ele já tinha tudo o que precisava. Era bem sucedido financeiramente e tinha um bom barco. Hoje, depois de quase sete anos, ele ainda me fala a mesma coisa. O que houve? Nada! Ele apenas continua construindo sua teia. Quando ele vai me seguir? Acho que nunca, pois ele ainda tem muita proteína!

Outro amigo um dia me chamou para dizer que estava iniciando uma volta ao mundo com previsão para dez anos, à família toda estava empolga, era uma nova vida e ele até tinha acabado de abrir mais uma empresa para dar suporte financeiro à empreitada. Fiquei receoso, mas certo que ele nunca iria conseguir realizar aquele sonho. E não conseguiu! No primeiro Porto, ainda no Brasil, ele teve que retornar para tomar conta da empresa. Voltou para a antiga vida, que achava infeliz. Continua infeliz e cada vez mais distante do sonho. E a família? Os filhos dele cresceram!

Pois é! No fim do dia, a roda de bate-papo se desfaz e vai cada um para o conforto de suas casas e achando que a turma tem razão: Barco bom, para um cruzeiro, é aquele que tem uma bomba de sanitário elétrica. É aquele que as catracas são automáticas. É aquele que tem um bom ar-condicionado. É aquele que o motor é mais potente. A linha d’água é maior. Maior do que 40 pés. Catamarã. Monocasco. Preto. Azul. Amarelo. Pronto! O sonho virou pesadelo.

Eu volto para o meu Avoante que balança suave na água, dou um beijo em Lucia, sento no cockpit, relaxo e vou apreciar as cores da natureza. Onde está o segredo?

Nelson Mattos Filho – Velejador

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8 Respostas para “O segredo

  1. Grande Nelsinho
    Realmente essa sua crônica é a sua cara, verdadeira e vinda do coração. Você é uma pessoa especial, até diria: é uma pessoa diferente e feliz.
    Acredito que algo te moveu para largar tudo e partir com sua Lucia nessa nova caminhada. Para mim, que vive e convivi com você e sua família, seu pai Nelson, sua mãe Iracema e seus irmãos, foi uma surpresa vê-lo nessa nova vida e muito feliz.
    Parabenizo por ter escolhido viver da forma que desejas, e digo-lhe: siga sempre seus sonhos, pois a vida fica cada vez mais feliz quando buscamos realizar tudo que queremos.
    Um grande abraço
    Paulo Trigueiro

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  2. Gerson, veleiro Tô Indo

    Aproveito para endossar. Vou mandar pra v. um texto que estou escrevendo sobre tempo pra cuzeirar.
    Quando voces pretendem ir pra Angra?
    Vamos compartilhar a velejada.
    Gerson, veleiro Tô Indo

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    • diariodoavoante

      Obrigado pelo endosso e pode mandar o texto que será muito bem vindo. Quanto ir a Angra, vai ser na nossa próxima descida.
      Abraços, Nelson

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  3. “Eu volto para o meu Avoante que balança suave na água, dou um beijo em Lucia, sento no cockpit, relaxo e vou apreciar as cores da natureza. Onde está o segredo?”
    Essa frase é pra matar a pau! Disse tudo.

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  4. Luiz Sergio Gusmão

    O PARAISO DOS VELEJADORES

    Convido você e nossos amigos marinheiros para escrever comigo uma descrição do paraíso dos velejadores. Como seria esse paraíso? Certamente, seria o lugar ideal para velejar. Os muçulmanos não têm um paraíso com 70 virgens para cada homem?
    Então, nós, marinheiros, também temos direito a um lugar perfeito para a vela, o nosso paraíso. Esse lugar poderia ser assim:
    1 – A água do mar seria limpa e transparente como uma piscina. E potável, é claro, para não termos de nos preocupar com coisas chatas como encher os tanques com água.

    2 – O vento sopraria sempre de través, não importa o nosso rumo. Quando quiséssemos colocar nossos balões, ele mudaria automaticamente para um ventinho de popa… E sempre seria uma brisa de 10 a 15 nós. Mas para aqueles que amam regatas, o vento poderia trazer algumas surpresas, mas apenas para os regateiros…
    3 – A profundidade seria sempre de cerca de 5 metros, constantes. Rochedos, recifes, bancos de areia, nem pensar. Haveria alguns recifes, sim, mas apenas para formar piscinas naturais, tais como as “galés ” em Maceió . Porém, todas muito bem marcadas por bóias, e com poitas ao lado para apoitar os nossos barcos enquanto fizéssemos snorkel nas piscinas.
    4 – Falando de bóias, elas estariam presentes na frente de algumas barracas de praia, sob a forma de “poitas”. Esse negócio de jogar âncoras, de jeito nenhum.
    5 – As barracas seriam pontos de venda de caipirinhas, cervejas geladas e “petiscos”, servidas em nossos barcos por garotas bonitas de biquíni e/ou topless. E tudo isso por preços bem em conta. De graça, não. Mas sempre teríamos o dinheiro para comprar o que queríamos.
    6 – As praias seriam de areia branca e limpa. Algumas, bem marcadas, teriam ondas perfeitas para os surfistas. Afinal, alguns marinheiros gostam de surfar, certo? Além disso, onde tem surfistas, tem também as gatinhas deles, certo?
    7 – Falando de surfistas, nas nossas praias não teríamos ondas. No máximo, algum “clapot” para balançar suavemente o barco. Mas só o suficiente para fazer aquele barulhinho agradável, como gostamos de ouvir na hora de tirar um cochilo.
    8 – Chuva e nuvens? Deixemos isso para o paraíso dos ruralistas e dos agricultores. O nosso céu seria sempre de um azul bonito com algumas nuvens, apenas para enfeitá-lo. Chuva, nunca. Para que, se a água do mar é doce?
    9 – É claro que, no nosso paraíso, não teria nenhum barco a motor. Os proprietários de jetskys e lanchas não têm direito a um paraíso, eles vão direto para inferno . Tudo bem, abriríamos exceção apenas para alguns barcos de pescadores, mas só para chegarem perto de nossos veleiros, oferecendo lagostas de 3 kg e outros frutos do mar, em troca de uma garrafa de Pitu…
    10 – Finalmente, chegamos aos iate-clubes. Na verdade, como amamos velejar, não precisaríamos de iates clubes no nosso paraíso. Ficaríamos velejando o tempo todo…

    E então, amigo, gostou? Tem alguma melhoria a acrescentar? Então mande-me a sua colaboração.

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  5. O segredo existe sim e é muito complexo. É justamente a dificuldade de aceitar o simples. É pra poucos.

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