Waypoint: Lat. S 05º45.918’/ Log. W 035º12.256’


imagens 089 Seis anos! Isso mesmo, seis anos! Esse é o tempo que faz que o marinheiro Sebastião da Cunha Lima, o Galego, foi visto pela última vez sobre o píer do Iate Clube do Natal. Seis anos que ele saiu para um passeio nas águas do Rio Potengi e nunca mais acertou o rumo de volta.

Seis anos que ele saiu do mundo real e entrou para o mundo torturante dos boatos, que atormenta a vida dos que ficaram a sua espera nas pedras desoladas do porto.

Numa incrível fração de segundos a vida do Galego passou a ser uma chama sem brilho, sem história e sem informação.

Onde está o Galego? O marinheiro velejador, o velejador/marinheiro que bastava ver um barco a vela se dirigir ao fundeadouro do clube, que lá estava ele pronto para receber os cabos de atracação. Onde está aquele cabeludo que não perdia um só veleirinho de vista e sabia como ninguém a hora de agir? Quanta ironia! Onde está você Galego? Que boato foi esse que você não conseguiu timonear?

Dizem que você saiu com mais dois galegos. Dizem que foram dois holandeses. Dizem que foram dois gringos. Dizem um monte de coisas, mas como em todo boato, as coisas não passam do dizer.

Que danado de rumo foi esse que ninguém sabe dizer nada? Por que ninguém estava espreitando o seu velejar pelo Potengi? Logo com você, o melhor de todos e que todo velejador confiava?

Amigo, por favor, me responda a umas simples perguntas, pois tudo o que eu sei foi através dos muitos boatos que cercam sua velejada ao infinito. Eu não estava em Natal no dia que você soltou as amarras do píer, estava justamente começando minha nova vida a bordo do Avoante, o veleiro que tantas vezes você também timoneou com segurança. E você, nesse dia estava entrando no vácuo de uma vida sem sentido, sem história e deixando para trás uma esteira de boatos, lamentos, indecisões e decisões vacilantes.

Mate minha curiosidade: Que rumo você tomou? Quem soltou suas amarras? Quem eram os dois gringos que estavam ao seu lado? Eles lhe fizeram algum mal? Onde eles estão agora? Eles foram encontrados? Eles foram presos? Eles foram interrogados? Por que não estão presos?

Eu não quero perguntar se você está morto, pois os boatos dizem justamente isso, e eu não quero mais dar nenhum crédito a eles. Os boatos dizem até que os tais gringos eram holandeses e que eles foram convidados a prestar esclarecimentos. Esclarecimento amigo! Apenas esclarecimento. Que mundo é esse? Que mundo é esse que esclarecimento não esclarece nada?

Galego, os boatos dizem que eles confessaram que mataram você e jogaram seu corpo no Oceano Atlântico. Dizem até que confessaram e saíram livres, leves e soltos para comemorar nos famosos cafés holandeses. Dizem até que a Holanda é um país assim mesmo, onde tudo pode e nada é proibido. Até matar, confessar e depois sair livre é permitido, tudo igualzinho aqui.

Dizem que a Holanda não tem tratado de extradição com o Brasil, para que possamos julgar os criminosos. Mas o mundo é assim mesmo, pois vi nos jornais que nós também temos e não temos essa peleja com alguns países. Galego, para a justiça dos homens você é apenas um simples marinheiro e parece que por isso não merece tantas referências jurídicas.

Mas a vida é assim, cheia de boatos, cheia de injustiças, cheia de indecisões, cheia de má vontade, cheia de tudo o que é bom e o que é mal. Quem sabe um dia esses boatos se evaporam e você encontra o rumo de casa e vêm atracar o pequeno veleirinho branco no píer do nosso clube. Nesse dia Galego, com certeza, todos estarão prontos para segurar o cabo que você vai jogar com tanta maestria.

Nesse dia, talvez você seja até intimado a dar algumas explicações às autoridades. Talvez eles queiram até confundir sua cabeça com coisas que nem eles sabem o por quê. Talvez até apareça um político para tirar uma foto ao seu lado. Talvez você nem tenha mais a sua vasta cabeleira loira. Talvez o mundo lhe vire as costas mais uma vez. Mas amigo, deixa o talvez para lá e pode vir. Venha que ainda estamos esperando. Amigo, dia 12 de julho de 2011 faz seis anos, é muito tempo para tantos boatos.

Caso você precise, o waypoint está no alto do texto. Um grande abraço.

Nelson Mattos Filho

Velejador

19 Respostas para “Waypoint: Lat. S 05º45.918’/ Log. W 035º12.256’

  1. Raapaazzz,que texto!
    Parabens

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  2. Nelson …

    Há muito tempo o nosso querido Galego merecia uma homenagem deste nivel, e pode ter certeza que estarei do seu lado para segurar o cabo no pier.

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  3. Texto forte e emotivo, que relata algo que ficou em nossas cabeças, e sem resposta em nossas vidas. Para muitos o Galego é assunto de bar em terra, mas para nós que o conhecíamos bem, ele é uma referencia do mundo em que vivemos e que não queremos deixar de acreditar que sua partida foi em vão.

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  4. Valeu nelson, justíssima homenagem,!!!!!
    Durante o tempo em que eu estive na Escolinha de vela, ele foi o marinheiro que me ajudava em todos os momentos e sempre com disposição e boa vontade
    Que por onde voce estiver Galego, os ventos soprem na direção da paz e da harmonia……

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  5. Parabens Nelsao. Linda homenagem!

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  6. Nelson, que dizer que dois gringos vieram a Natal, seqüestraram um brasileiro e ficou por isso mesmo? Não acredito!

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  7. Grande homenagem Nelson. Desconhecia a história do Galego, mas serve como apredizado.

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    • diariodoavoante

      Obrigado comandante Air, infelizmente, com todo festival de Leis que existe em nosso País, a vida das pessoas continua não valendo nada. O que aconteceu com o Galego foi, antes de tudo, uma grande falta de respeito para um homem.

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  8. ELDER MONTEIRO.

    Lindo!
    Parabens Nelson pela homenagem.

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  9. Abdo Farret Neto

    Caro Nelson, só hoje soube da sua homenagem ao Galego. Parabéns, belíssimo texto. O Galego certamente ficou feliz com ele. Abcs, Abdo Farret.

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  10. Gilson lindbergh

    Bela homenagem Nelson. e que barco bonito aí na foto né? eu vi nojornal

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  11. Veertien jaar voor moord op Braziliaanse matroos

    Twee Nederlanders zijn veroordeeld tot straffen van 13 en 14 jaar cel voor de moord op een matroos in Brazilië. Dat heeft de rechtbank in Den Haag bepaald. De mannen van 51 en 31 jaar hebben bekend de zeeman in 2005 tijdens een proeftocht met een zeilboot overboord te hebben gegooid om er daarna vandoor te gaan richting Afrika.
    —–
    Quatorze anos de assassinato de velejador brasileiro

    Dois holandeses foram condenados a penas de 13 e 14 anos de prisão pelo assassinato de um marinheiro no Brasil. Que o tribunal de Haia determinou. Os homens de 51 e 31 anos têm conhecido o marinheiro em 2005 durante um passeio de teste em um veleiro de ter jogado ao mar, você pode ir para a África.

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  12. Nelson

    O texto completo http://binnenland.nieuws.nl/709149/veertien_jaar_voor_moord_op_braziliaanse_matroos

    pelo tradutor do google dá pra se entender que a justiça foi feita .

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