Uma velejada inesquecível – Final


Quando o casal, Fernando e Marta, se propôs a vir velejar com a gente no Avoante, e passar 9 dias vivendo a bordo, sabíamos que tínhamos que se desdobrar para tornar aquele período o mais confortável e alegre possível. O casal, apesar da grande amizade que nos une, é velejador e até já passou vários dias num veleiro, mas não tinha a experiência de um cruzeiro longo e num local sem os muitos recursos da vida civilizada como é a Baía de Camamu/BA.

Fazer cruzeiro em um veleiro oceânico é se propor a abdicar de tudo o que vida urbana, e moderna, trás de melhor que são os confortos diários. Num veleiro, vive-se uma vida de eterna ligação com a natureza e os elementos que a regem. Num veleiro o conforto não deixa de existir, mas para se chegar ao seu apogeu precisamos estar em paz com a gente mesmo e se soltar das amarras do mundo urbano.

As nossas preocupações iniciais logo se espalharam ao vento, pois Fernando e Marta não só tiveram uma adaptação extraordinária, como também vinham com o intuito de deixar a gente super despreocupados.

A Baía de Camamu é um lugar encantado e eu não me canso de dizer isso. Passar os dias navegando em suas águas e ancorar em locais a esmos, guiados apenas pelo desejo refletido nos nossos olhos é uma coisa fantástica. Aproveitar essas ancoragens, em noites estreladas, e conversar despreocupadamente no cockpit, até o sono fazer a gente cair em sonhos, acordar e ver que nada daquilo foi um sonho, são coisas que fazem o diferencial da vida num veleiro.

Fernando e Marta viveram tudo isso quando passaram esses nove dias no Avoante. Nós não precisamos nos desdobrar para que eles tivessem todo conforto e alegria. A natureza se encarregou dessa parte e mostrou o que é a felicidade que tanto buscamos. Dias de sol eram precedidos de noites estreladas e até um ventinho mais frio do que o normal. Até que a noite, vendo que já havíamos nos recolhido ao sono, deixava a chuva fazer sua parte de aguar toda aquela natureza resplandecente. Tudo tinha que estar bonito no dia seguinte e aquela chuva noturna, era a energia que fazia tudo acontecer. Reclamar? Até que podíamos, mas reclamar por quê?

O dia amanhecia e as ilhas iam se multiplicando ao nosso redor, a vontade era de parar em todas, mas tínhamos de escolher. Algumas vezes escolhíamos duas e ancorávamos no meio, como fizemos com Ilha do Sapinho e Ilha do Goió, duas jóias da natureza divididas apenas por um fino canal. Chegamos quando o Sol pintava o Céu com as cores que nenhum homem consegue, e a noite caiu como uma pluma, trazendo seu manto de sobras.

Na manhã seguinte deixamos o Avoante sozinho e embarcamos no toque-toque de Joaquim até a cidade de Camamu. Camamu é histórica e tem muita coisa para contar. Uma cidade que já foi muito e hoje é apenas um pouco de tudo o que já foi. Falta o Brasil reconhecer o valor de suas raízes. Sobra história, falta vergonha!   

Uma noite entre Sapinho e Goió foi pouco. Então para que levantar âncora? No Sapinho tem bons restaurantes que servem lagostas grelhadas, peixes e lambretas. Tem também um pastel delicioso que sempre que olhávamos para o píer estava a nos chamar. A lagosta e companhia, não encaramos, mas o pastel não deixamos escapar e fizemos a festa da gula.

Mais um dia e agora um dia bem diferente para nossos tripulantes: Chuva e mais chuva! Fizemos o rumo do Campinho parecendo que toda água do mundo iria cair naquele dia. Se caiu eu não sei, mas quando desembarcamos para embarcar Marta e Fernando num carro que os levaria até a Barra Grande, foi debaixo de uma tromba d’água. O passeio deles até Tapuis de Fora foi por água a baixo, mas a nossa moqueca na casa de Aurora foi tão quente que até Lucia, que adora pimenta, chiou. Aurora nem se abalou: “Eita chuva boa!”

A chuva forte fez a gente antecipar a saída da Baía de Camamu e assim, deixando e levando saudades, fizemos o rumo de Morro de São Paulo. Estávamos assim voltando à vida quase urbana e seus movimentos frenéticos. Quando ancoramos na Gamboa do Morro, já era noite e dormimos o sono dos justos. O dia seguinte foi de passeios pelas belas e famosas praias de Morro de São Paulo. À noite içamos as velas e fizemos o rumo direto para Salvador.

Fernando e Marta desembarcaram e voltaram a Natal deixando um vazio no Avoante, mas levando na bagagem o gosto e a experiência de um velejada inesquecível.

 Nelson Mattos Filho

Velejador

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6 Respostas para “Uma velejada inesquecível – Final

  1. Muito Lindo
    Parabéns
    Abraço
    Chagas Veleiro Intuição

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  2. Núbia Gonçalves (AIC)

    O diário do Avoante é fantástico, os minutos que eu passo lendo são minutos mágicos, eu viajo nestas linhas.
    Como eu disse antes, é mágico.
    Sr. Nelson e D. Lucia.
    Obrigada e parabéns .

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    • diariodoavoante

      Núbia, muito obrigado por navegar em nosso blog e para nós é muito bom saber que estamos levando sonhos e magias as pessoas. Um grande abraço, Nelson e Lucia

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  3. Eu e a Ro tamo sofrendo de vontade de estar ai, manda um abraço para a Aurora e para o outra menina que me fugiu o nome, pois de tanto ouvir falar delas ja sinto como amigas.
    Um abração cheio de saudade pra ti e pra Lucia!

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  4. “VOCE JÁ FOI À BAHIA NÊGA, NÃO, ENTÃO VÁ” como já dizia o poeta, quem não foi não sabe o que está perdendo.
    Abraços, e tragam mais pessoas para conhecer este pequeno pedaço do Edém.
    Marcos – Dys Dobre

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