Um Cruzeiro pelo Nordeste – 3ª parte


A barrinha dos marcos, como denominamos a primeira parada pernambucana do Cruzeiro Costa Nordeste, é historicamente batizado de Sítio Histórico de Igarassu, e conhecido entre os nativos como Sítio dos Marcos. Sua localização é no alto da colina Outeiro dos Santos Cosme e Damião, no município de Igarassu/PE.

O Sítio do Marcos é um dos conjuntos arquitetônicos e religioso mais antigo do Brasil, mas, devido à ação do tempo e abandono dos governantes, não mantém a preservação convincente com a sua importância histórica. Mesmo assim é um local que vale muito ser visitado. Sua beleza é impar! Ancorar um veleiro nas águas do Canal de Santa Cruz, que banha suas margens, e sentir a natureza, são um espetáculo a parte.

Foi nesse berço de história que a flotilha do CCN 2011 esteve ancorada por quatro dias. E ainda teve comandante que ficou mais uns dias de lambuja.

Presenciamos a Buscada do Santo padroeiro, São Gonçalo do Amarante. A Buscada do Santo é uma grandiosa procissão fluvial, animada como são todos os festejos populares de Pernambuco, que enche de alegria e embarcações o leito do Canal de Santa Cruz. Mais de 100 barcos participam do cortejo, na grande maioria, pequenas canoas movida a velas e com todos os tripulantes uniformizados.

Fomos orientados a levantar âncora do local onde estávamos, devido à grande movimentação de barcos que cruzavam o canal. Ancoramos, novamente, em frente ao Porto do Vasco, um local também muito bonito, de onde assistimos a passagem do Santo Padroeiro e seu séquito animado seguidores. Só não pudemos escutar o hino do Padroeiro, pois os decibéis elevados que saiam dos alto-falantes enfurecidos das lanchas, não davam espaço ao hino do Santo.

São Gonçalo do Amarante seguiu seu passeio pelo Canal e nós voltamos a nossa ancoragem no Sítio dos Marcos. A barulheira, com a mesma velocidade que chegou, foi embora. Mais uma vez o silêncio e a tranqüilidade. Mais uma vez a natureza voltava a controlar a vida. Mais uma vez voltamos a nossa pacata vida de cruzeirista, e dessa vez, com a bênção e proteção de São Gonçalo do Amarante, que mesmo passando surdo e incrédulo com a barulheira, ainda assim abençoava e guarnecia tudo a sua volta

No dia seguinte a Buscada do Santo, pretendíamos levantar âncora e seguir na velejada pelo nordeste. Mas, como ainda não vi velejador falar a verdade quando o assunto é sair, o dia amanheceu e a preguiça foi tomando conta do mundo. Às 5 horas da manhã, o veleiro Thimshel passou ao nosso lado, como havia sido combinado, nos chamando para seguir viagem. Demos um adeus, meio sem jeito, é fomos ficando para mais um dia na Barrinha, junto com o veleiro brasileiro Zíngaro e o argentino Aventurero. O dia foi para aproveitar a região e a noite foi para degustar um churrasco de confraternização na casa do casal velejador, Sérgio e Valeria, que se desdobraram, junto com o casal Armeninho e Graça, na recepção do CCN 201 na Barrinha. 

Com as baterias recarregadas de natureza, e paz, no dia seguinte levantamos âncora da Barrinha e fomos saindo lentamente e com saudades daquele paraíso. Aproveitamos a maré de vazante, e o vento fraquinho da manhã, para deixar a Barra da Ilha de Itamaracá. Lá fora o mar parecia ainda adormecido, pois nem sentiu a nossa presença. Saímos fazendo promessas de voltar o mais breve possível aquele lugar tão bonito. Saímos com a visão adormecida de guerras e lutas do Forte Orange e sua bela arquitetura holandesa. Saímos com a alma leve e feliz por ter cumprido mais uma etapa de nossa vida no mar.

As cidades de Olinda e Recife apareceram juntinhas na nossa proa, com o Farol de Olinda fazendo a união desse casamento do frevo e maracatu. Às 6 horas da manhã o vento ainda dormia e assim fomos obrigados a castigar os ouvidos com o barulho estremecido do motor

Apesar do motor, foi uma navegada gostosa, num mar que mais parecia um tapete. Mansamente fomos entrando na Barra do Recife e nas entranhas do porão do Avoante os duendes trabalhavam incansavelmente para aprontar mais uma.

No través do Marco Zero os duendes festejaram suas travessuras. Estávamos novamente sem motor! Mais uma vez o estaleiro! Mais uma vez a incerteza! Mais uma vez a força positiva dos amigos!

Nelson Mattos Filho

Velejador

Anúncios

Uma resposta para “Um Cruzeiro pelo Nordeste – 3ª parte

  1. João Jorge Peralta

    Caro amigo Nelson e Lúcia e demais amigos do Costa Nordeste,
    Invejo vocês. Uma inveja sadia, de quem aprecia as aventuras, o contato intenso e vivo com a natureza, os passeios pelos caminhos da nossa História – uma inveja de quem queria estar junto, mas ainda não foi desta vez… A Barrinha, a procissão de São Gonçalo do Amarante, as tradições que remontam a muitos séculos atrás… parecem lugares e situações improváveis. Mas são reais. E aí nós nos sentimos parte de uma cadeia de solidariedade que atravessa os séculos, e vai construindo este maravilhoso país. Abraços.
    João (Veleiro Triunfo II)

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s