Um cruzeiro pelo nordeste – 2ª Parte


Barrinha dos Marcos - Igarassú (5) Nosso cruzeiro pela costa do nordeste do Brasil continua, apesar da série, quase interminável, de problemas que tivemos no início. Foram três saídas para conseguir valer uma.

Na primeira saída tivemos problemas com o eixo da hélice do Avoante que soltou do flange. Na segunda, novamente o eixo em greve com o flange insistiam em não trabalhar juntos, acrescido de mais um acentuado desbalanceamento da hélice nova que eu havia colocado. Na terceira, com as partes em litígio, devidamente acordadas, voltamos ao mar. Dessa vez, apesar de manter um pé atrás e os sentidos aguçados, a coisa deu certo. Minha Mãe até já havia dobrado a cota de rezas e pedidos a Nossa Senhora.

A tripulação, como sempre acontece nesses casos, foi modificada. Não sei o que danado acontece com tripulante de veleiro que quando a saída não da certo ele trata logo de desembarcar. Tem tripulante que desembarca e não olha nem para trás, temendo que o comandante pergunte se ele ainda volta. A primeira coisa que ele se lembra era que tinha uma urgência para resolver. Mas não tiro a razão deles, afinal, o mar faz cobranças à vista.

Com a nossa volta ao mar, e novamente fazendo parte da flotilha do Cruzeiro Costa Nordeste – CCN, cravei o rumo direto para a Ilha de Itamaracá, local da segunda parada do CCN, onde pretendia reencontrar a turma. Como no mar querer esta muito distante de poder, nosso rumo foi sendo empurrado pelo vento sueste na direção da Paraíba. Isso depois de ter dado uns trocentos bordos numa luta extremamente desigual com a natureza e suas forças. Só sabe realmente o que estou dizendo, quem um dia já fez parte da tripulação de um veleiro entre Natal/RN e João Pessoa/PB. Não existe acordo, pois o vento sempre ganha.

Ainda tentamos ignorar a Barra de Cabedelo/PB e insistimos algumas horas num contra vento de mexer com a paciência, mas quando a coisa estava caminhando para a vitória, uma enorme nuvem de chuva, que escureceu o mundo a nossa volta, clareou nosso bom senso e assim resolvemos dar meia volta para descansar com o Avoante ancorado na tranqüilidade do Rio Paraíba. Uma boa providência!

Nada como uma boa noite de sono para resolver pendências com a consciência. O dia amanheceu com um céu sem nuvens, vento bom e mar de almirante, nada que fizesse lembrar o dia anterior. Agora era nossa vez de aproveitar a velejada, pois até agora à natureza tinha ganhado todas, mas sem deixar de agradecê-la e reconhecer sua grandeza. Acho que os pedidos de Ceminha chegaram finalmente ao Céu e de lá foram transmitidos aos deuses do vento e do mar, pois foi uma mudança muito rápida e radical.

A Paraíba foi ficando para trás e o mar pernambucano foi assumindo uma feição mais poética, sem dar vez aos batuques, maracatus e frevos. No ar, o cheiro doce dos canaviais invadia o mar e assim fomos seguindo num lustroso tapete de mar azul. Para mim, estava começando o CCN 2011 e agora fortalecido com as bênçãos de Netuno. Nosso rumo agora era a cidade do Recife.

A noite foi chegando dando asas as nossas mais gostosas e fortes aventuras. A bordo, a sensação de seguir direto para Recife/PE não combinava com aquele momento de interação com a natureza. Mas, como entrar a noite na barra sul da Ilha de Itamaracá e dali seguir no escuro até a Barrinha onde estavam os outros veleiros participantes do CCN? A prudência determina não entrar em barra que não se conhece a noite, ainda mais numa barra que muita gente dizia ser difícil e complicada.

Deixei a prudência de lado, olhei para a tripulação que torcia pela aventura e aproei o Avoante para o Forte Orange.

A meia-noite, de uma noite estrelada, o Avoante ancorou nas águas mornas do Canal de Santa Cruz.

Nelson Mattos Filho

Velejador

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