Mar de insensibilidade


Artigo publicado na coluna Diário do Avoante, jornal Tribuna do Norte, em abril de 2009, mas que tem tudo haver com os dias de hoje. 

Moramos a bordo de um veleiro há quatro anos e meio, mas isso não quer dizer que vivemos uma vida somente de passeios, sem stress, sem compromissos e sem preocupações. Sempre que falamos para as pessoas que moramos em um barco, vem sempre a mesma frase com ar de surpresa: “Isso é que é vida boa…”

Essa foi uma opção de vida corajosa e cheia de incertezas, mas as vantagens que observamos depois do período de adaptação, foi determinante na manutenção desse estilo meio esquisito de levar a vida.

Porém não deixamos de ter problemas, de sentir saudade das coisas que deixamos em terra, de desejar a presença da família e dos amigos, de ter stress, de absorver os problemas que mexem com a vida de todo mundo. Não vivemos alienados nem com os olhos e coração fechados para as coisas que afligem as pessoas.

Temos acesso à internet, televisão, rádio, jornais, revistas e a tudo que traga informação. Portanto, levamos uma vida como qualquer pessoa, apenas em um ambiente diferente e com uma “casa” fora dos padrões normais.

Nas nossas velejadas, fazemos questão de interagir com todos que cruzam nosso caminho. Nas pequenas localidades, nas grandes e pequenas cidades, em marinas e iates clubes, tudo é motivo para absorver conhecimento e ver como vivem as pessoas e em que situação elas se encontram.

Toda minha vida foi voltada para o setor industrial e comercial. Nasci e me criei no ambiente empresarial, isso fez com que a busca de informação, a comunicação e o contato com as pessoas fossem uma constante matéria obrigatória. Continuo fazendo uso de tudo que aprendi e adquirindo novos conhecimentos. Nunca perdi o interesse nos setores que atuei e sempre busco informações ou visito lojas e empresas, assim tenha oportunidade.

Nessa busca constante por informações e observações, me voltei para uma área critica e que afeta principalmente aqueles que mais precisam: saúde pública.

Podem achar que o assunto não tem nada haver com vida a bordo nem velejadas, mas quando chegamos a uma pequena localidade e vemos as pessoas necessitando de assistência, de medicamentos, cirurgias ou apenas pedindo a presença de um médico que lhe dêem um pequeno conselho, isso passa a ser assunto de qualquer pessoa.

Quem vive sob as asas de planos de saúde ou tem dinheiro suficiente para comprar a saúde, pelo menos a curto-prazo, não tem idéia de como a vida e dura para as pessoas que precisam de atendimento na rede pública. Ver o problema apenas pelas telas de TVs, páginas de jornal, reclames de sindicatos ou palanque político é muito cômodo e simples.

Fazemos parte daqueles que vivem na sobra de um plano de saúde, mas ver o sofrimento dos que precisam com urgência de um socorro ou de um simples atendimento, dói e faz a gente se sentir incapacitado e responsável.

A rede publica, nas grandes cidades, é bem equipada com o que existe de mais moderno em equipamentos hospitalares, mas fazer com que toda essa estrutura chegue com presteza e funcionando ao paciente é o grande problema. Quando o caso é muito urgente, pode esperar por no mínimo 15 dias, isso se tiver algum conhecido dentro da repartição.

Nas pequenas cidades e municípios, a coisa fica a cargo da vontade do prefeito em mandar a ambulância a capital. Quando na verdade cada cidade ou município tinha por obrigação de ter um hospital funcionando, bem equipado e com um excelente quadro médico. Será que isso é utopia de velejador? Não! Isso é falta de ética, falta de boa intenção pública, falta de administração, falta de vergonha na cara de quem deveria governar, de quem deveria cobrar e de quem deveria fiscalizar. Lei para isso eu sei que existe, afinal vivemos no País das Leis.

As pessoas ficam revoltadas quando aparecem casos de toneladas de remédios vencidos e que nunca foram distribuídos. Ficam indignadas quando as TVs mostram doentes nos corredores ou jogados no chão dos hospitais. Mas se calam quando autoridades aparecem com a cara mais lavada e dão desculpas esfarrapadas dizendo que tudo será apurado. Apurar o que? Tudo já esta ali transparente e mais claro do que as urnas em que eles foram eleitos.

Não precisamos assistir TV ou ler jornal para ver o que se passa na saúde publica, basta andar, de preferência a pé ou de ônibus, por hospitais e postos de saúde. Abandonar por um dia a carteira do plano de saúde e ir tentar um atendimento ou um exame mais complexo, mas se for urgente mesmo, chame a SAMU.

Nelson Mattos Filho

Velejador

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Uma resposta para “Mar de insensibilidade

  1. Bom artigo. A realidade da saúde em nosso país é vergonhosa e só depende dos poderes públicos que não estão nem aí…Mas continue falando,fazendo a sus parte da maneira como vc sabe.Parabéns e um abraço.

    Cecilia

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