Terra Caída e apaixonante


Terra Caída 008 Terra Caída, pequena localidade sergipana, situada nas margens dos Rios Cajazeiras e Piauí e pertencente ao município de Indiaroba, é um dos lugares do mundo onde a natureza agiu de forma excepcional.

Quebramos a semana em que ficaríamos em Salvador, até chegar a hora de levar o veleiro Toa Toa a cidade do Recife, e fomos passar uns dias entre rios, mangues, natureza, goiamuns, massunins, sapecas e empadas do Pascaziu.

De Terra Caída, sai uma balsa que cruza o Rio Piauí fazendo a travessia até o Porto do Cavalo, em Estância, numa navegada cercada de natureza, onde motoristas e passageiros, são levados a uma breve reflexão acalmando os ânimos do stress das rodovias. Infelizmente uma ponte esta sendo construída e em breve toda essa paz e tranqüilidade serão jogadas sobre o concreto de pistas duplas e rápidas. O que vai acontecer com Terra Caída, que vai estar localizada estrategicamente embaixo da ponte? Isso, somente o tempo dirá!

Mas, de onde surgiu esse nome tão estranho? Antigamente o lugarejo se chamava Praia de São José. Conversando com o Pascaziu ele me deu um norte e contou uma história que também já ouviu de seus pais.

O nome Terra Caída surgiu quando um antigo Padre teve a idéia de aumentar a única igrejinha do lugarejo.

A pretensão do Padre incomodou os moradores, que achavam que ele queria mesmo era se apossar de mais terras em benefício próprio.

A peleja do Padre com a comunidade foi dura e em uma das reuniões com os moradores o Padre quase foi enxotado da cidade, acusado de querer criar um latifúndio invadindo a terra alheia. Após a reunião apimentada, o Padre foi saindo de mansinho e se dirigindo a praia para embarcar numa canoa que o levaria até a localidade do Crasto, distrito do município de Santa Luzia do Itanhy/SE.

Como antigamente não existia estrada até a Praia de São José o transporte era fluvial, feito em barcos que se baseavam no Crasto. Para embarcar, a pessoa tinha que caminhar sobre a lama do rio e chegando a canoa lavar os pés para tirar a terra e a lama. O Padre pegou as sandálias sujas, bateu no costado da canoa e falou: “… essa terra haverá de ser caída…”. A população, que acompanhava o embarque, achou que aquilo era um mau agouro e foi espalhado que o Padre tinha lançado uma praga sobre a cidade, condenando-a a ser uma terra permanentemente caída, é que a partir daquela data nada de bom iria acontecer.

Se foi uma praga do Padre eu não sei, mas que eu acho essa cidadezinha, encravada em meio a um vasto manguezal e cercada de natureza viva, muito gostosa, isso eu sei. Já naveguei com o Avoante em seus rios e me apaixonei pela explosão de beleza do seu Pôr-do-Sol. Em cada ângulo de visão, descortina-se uma paisagem exuberante cheia de vida e cores.

Ao chegarmos a Terra Caída, o Sol estava fazendo a sua última caminhada rumo ao crepúsculo, e por isso, o quadro pintado no firmamento era fascinante. Um verdadeiro festival de cores que nenhum homem jamais teve o dom de igualar. Pássaros voavam em busca de seus ninhos, fazendo uma algazarra com seus cantos e piados festivos e a Lua cheia fazia seus primeiros alongamentos para pratear tudo a sua volta. É difícil parar para olhar a natureza e não escutar a poesia que é sussurrada em nossos ouvidos. O mais difícil mesmo é não extrair as belezas que saltam aos olhos.

É difícil chegar a Terra Caída e não se apaixonar pelo seu ar bucólico e dominante. A vida e a paz afloram em seus mangues e rios, abafando os sons modernos das grandes cidades que chegam através de alto-falantes destoantes de razão, mesmo embalados por potentes máquinas.

Difícil estar em Terra Caída e não ser seduzido pelo cheiro delicioso das empadas produzidas pelo Pascaziu, que são uma verdadeira maravilha gastronômica.

Terra Caída, mais um lugarzinho gostoso encravado nesse magnífico litoral brasileiro e berço de uma boa parte da vida que brota do seio da natureza.

Nelson Mattos Filho

Velejador

11 Respostas para “Terra Caída e apaixonante

  1. Parabéns pela sua terra caída. Se um décimo dos velejadores escrevessem seus diários de bordo dessa maneira haveria mais gente para lê-los.

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  2. Marcos Mascarnhas

    chega-se a esse paraiso velejando? qual a rota?

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    • diariodoavoante

      Marcos primeiramente quero dizer obrigado por estar acessando nosso blog e dar-lhe um grande abrao. J cheguei duas vezes navegando a Terra Cada, inclusive marquei os waypoints, mas quando estive l h pouco mais de 20 dias fiquei sabendo que a barra mudou totalmente.

      Abraos, Nelson

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  3. Nelsão

    Dei até uma viajada aqui no meu escritorio depois desse maravilhoso relato .
    O CCN (Cruzeiro Costa Nordeste ) tem que dar uma parada por lá , pense nisso

    Um abraço

    Helio

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  4. Pingback: Sergipe – Um litoral que merece muito mais | Diário do Avoante

  5. Mais apaixonante quanto o lugar, é o texto do Nelson. Parabéns.

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  6. marco antonio oliveira vieira

    B oa tarde, sou Marco Antônio Vieira, frequnto Terra Caida(SE) =- 50 anos e adorei a matéria. Finalmente conseguir descocrir a razao porque chamam o de TERRA CAIDA. Parabéns!!!!!!!!!!!!!

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