Operação chute no traseiro


Salvatagem  Navegando na net me deparei com um caso que é um alerta para todos aqueles que têm o mar como paixão e que é mais um dos muitos maus exemplos de autoconfiança, tão comum no meio náutico. Como o assunto é de grande interesse e envolve segurança na navegação, resolvi usar todos os meus conhecimentos dos tempos de escola e fazer uma cola resumida, com minhas palavras, da matéria. É o caso de um velejador australiano de 65 anos, que tentou levar um barco para reforma e ficou a deriva durante quatro dias em mar aberto.

Bill comprou um veleiro de 20 pés, que precisava de algumas reformas, e tentou levá-lo para o Lago Macquire, 20 milhas ao sul de Port Stephens onde o barco se encontrava. Bill, com 18 anos de experiência na Marinha Britânica, achou que toda essa bagagem lhe daria razão para se fazer ao mar em um barco sem nenhum equipamento de segurança. E poderia ter dado se tudo fosse como o planejado. A bordo não havia rádio, GPS, Epirb, foguetes de sinalização e muito menos luzes de navegação. Mesmo assim, o marinheiro veterano resolveu encarar o mar, sem nem também avisar a Guarda Costeira que estava de partida, já que seria apenas uma viagenzinha de nada e ainda para reformar o barquinho dos seus sonhos.

Mas, a coisa não foi bem como o valente Bill planejou quando saiu na boca da barra e o motor de popa de 6 HP do seu veleiro resolveu não mais seguir viagem navegando. O bicho empacou feito burro velho e não teve jeito de Bill fazê-lo mudar de idéia. Motor é sempre assim!

A partir dai a coisa foi ficando com cara de tragédia e o veleirinho foi sendo arrastado pelos ventos e correntes para o alto mar. Mas, Bill ainda tinha uma excelente ferramenta de comunicação, mesmo com a bateria chegando ao final: Um celular.

Quatro dias a deriva foi a prova de que o veterano Bill não tinha tanto conhecimento do mar assim, pois ele usou uma das velas para escrever um pedido de socorro, mostrando para o mundo que o barco tinha vela e que ele não sabia para que mais aqueles panos servissem, além de servir para escrever.

Por sorte, Bill lembrou-se do celular que foi usado para se comunicar com o filho antes que a bateria fosse para o beleléu. A Guarda Costeira australiana montou uma grande operação de resgate e depois de quatro dias de procura, Bill foi localizado por um navio mercante a 25 milhas ao sul de Newcastle. Não sei o porquê, mas ultimamente tudo acontece na costa da Austrália!

O pior de tudo não foram às críticas que pipocaram de todos os lados. Nem receber a ira incontida por parte dos contribuintes australianos para que ele paga-se pelos prejuízos causados aos cofres públicos com a operação de seu resgate. Muito menos ter enfrentado a polícia que desejava abrir um grande inquérito para provar o seu despreparo, colocando não somente sua vida em risco, como também a vida das equipes de socorro. O pior mesmo foi ter que enfrentar a sua mulher, que depois de dizer que estava aliviada com o resgate do marido, declarou que ele agora iria merecer um grande chute no traseiro.  Pense numa mulher que ficou braba!

Nunca mais ouvi falar nada sobre o velejador Bill e nem sei se a mulher cumpriu a ameaça de chutar o seu traseiro, mas desse episódio podemos tirar muitos exemplos para a segurança da boa navegação.

Em primeiro lugar é que por menor que seja a viagem ou o passeio, quem vai navegar seja no mar, rio, lago ou lagoa, tem que deixar avisado com alguém para onde vai e a que horas pretender retornar. Esse é um procedimento obrigatório e que pouquíssimos comandantes de barcos de esporte e recreio dão importância. Em todo clube náutico e marina tem o formulário de saída e chegada de embarcação.

Em segundo lugar, nunca sair para navegar, mesmo que para um simples teste, sem os equipamentos de segurança e navegação. Já vi comandante esquecer-se a âncora ou mesmo os cabos de amarração. Sem falar nos coletes salva-vidas ou mesmo uma garrafa de água.

Barco não tem freio e o mar não tem meio fio para se encostar e esperar o socorro. Estar num barco à deriva em mar aberto, não deve ser uma sensação muito agradável e se ele não estiver armado com os equipamentos de segurança e salvatagem a coisa fica complicada. O mesmo vale para navegação em águas restritas, rios, lagos e lagoas. Se algum tripulante se desesperar e pular na água, mesmo próximo as margens, a situação tende a virar tragédia.

Felizmente para Bill sobrou apenas um chute no traseiro.

 

Nelson Mattos Filho

Velejador

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