UMA SENHORA VELEJADORA


 

                                   “Há muitas coisas que as pessoas podem pensar para culpar a minha situação: minha idade, a época do ano e muito mais. A verdade é que eu estava no meio de uma tempestade e não se veleja no Oceano Índico sem passar ao menos por uma tempestade. Não foi a época do ano, foi apenas uma tempestade do sul. Tempestades fazem parte do pacote quando se decide velejar ao redor do mundo. Quando à idade, desde quando a idade cria ondas gigantes e tempestades?” Abby 

                                   Na semana passado o mundo náutico parou para acompanhar o desenrolar do caso da velejadora californiana Abby Sunderland, 16 anos, que tentava uma volta ao mundo em solitário, num veleiro de 40 pés e que foi dada como desaparecida depois que seu equipamento de Epirb foi acionado. A notícia espalhou-se rapidamente através de jornais, televisões, rádios e internet.

                                   Abby pretendia o recorde de ser a pessoa mais jovem a cumprir esse objetivo. Seu irmão mais velho Zac Sunderland, fez a mesma tentativa e conseguiu, desencadeando o desejo da irmã caçula.

                                   A tentativa de Abby parou em meio a um oceano mal humorado e que sempre tira a prova dos nove para navegadores que atravessam suas águas tempestuosas. Ventos de 60 nós e ondas de mais de 15 metros, derrubaram o mastro de seu veleiro e forçaram a menina a pedir socorro. Dias antes, ela já tinha passado maus bocados para enfrentar a fúria do mar e a força descomunal dos ventos das altas latitudes, mas o seu veleiro super equipado, para esse tipo de navegação, e ela bem preparada e corajosa, formavam um só corpo solitário em meio ao mundão de água.

                                   Houve muitas críticas aos pais e as autoridades por permitirem tal façanha a uma menina de 16 anos. Até o Guinness Book que regulamenta e premia esses recordes, foi atiçado a não reconhecer tentativas como essas para menores de idade. Mas, essa é uma polêmica que ainda vai atravessar muitos oceanos e não chega a lugar nenhum. É difícil frear o espírito aventureiro de pessoas, principalmente de jovens. Os antigos navegantes, desbravadores dos oceanos e do mundo, eram jovens e muitos deles não tinham 17 anos completo.

                                   Abby Sunderland foi resgatado depois de três dias em que três países, EUA, França e Austrália, se esforçaram para tentar localizar seu paradeiro. Um avião sobrevoou a área do sinal emitido pelo Epirb e um pesqueiro francês que navegava a mais de 3 mil quilômetros de distância foi deslocado para fazer o resgate. O veleiro foi encontrado sem o mastro, varrido por uma onda mais afoita, mas, a velejadora em bom estado de saúde e com bom humor.

                                   Alguns dizem que foi sorte e pode até ser que tenham razão, mas a grande verdade é que a navegação nos dias de hoje é segura e pode ser feita por qualquer pessoa que tenha um bom planejamento, conhecimento e preparo para realizá-la. Os barcos e os equipamentos de navegação atingem níveis altíssimos de perfeição e os velejadores, sejam eles adultos ou muito jovens, que se propõem a realizar essas proezas, são muito bem preparados. Como diz o ditado: “Quem vai ao mar, avia-se em terra”.          

                                   Idade não é passaporte para se fazer ao mar, nem o mar é um local tão perigoso a ponto de uma criança não poder navegar. Mais perigosos são as cidades, as ruas, um Shopping Center ou um simples caminhar numa calçada. Onde vivemos sob poder das drogas, da bandidagem, das armas, da violência banalizada, dos acidentes de trânsito e da falta de ação e pulso de autoridades desnorteadas.

                                   O mar é um mundo livre aonde quem vai a ele, sabe que pode encontrar a paz e a serenidade que as cidades não podem mais oferecer. Jovens como Abby Sunderland e seu irmão Zac, e também outra jovem, detentora do recorde que Abby tentava superar, a australiana Jessica Watson, sabem muito bem o que querem e esperam do mundo. Seus pais podem até serem taxados de relapsos para com a educação e a saúde dos filhos, mas no fundo eles sabem que na volta, receberam em casa filhos mais preparados para a vida do que muitos alunos das mais famosas escolas do mundo.

                                   O mar é uma grande escola e uma grande universidade para a vida das pessoas. Crianças que navegam sozinhas ou acompanhadas pelos pais assimilam rapidamente fundamentos de liberdade, paz, solidariedade, autocontrole, determinação, ética, razão, ecologia, segurança, planejamento e respeito.

                                   Não desista Abby, os deuses do mar reconhecem o seu valor!

 Nelson Mattos Filho

Velejador

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