Arquivo do mês: abril 2010

O CHAMA-MARÉ E O POTENGI

“O Rio Potengi nasce na Serra de Santana e de sua nascente até a foz percorre uma distância de 176 km, passando por oito municípios: Cerro Corá, São Tomé, Barcelona, São Paulo do Potengi, São Pedro, Ielmo Marinho, São Gonçalo do Amarante e Natal. Em Natal, junta-se à outros rios, o Jundiaí, o Golandim e o rio Doce, formando o estuário do Potengi.”

                                   Assim começa a aula passeio no barco escola Chama-Maré, um projeto do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e gerido pelo IDEMA – Instituto de Defesa do Meio Ambiente, em parceria com a Universidade Potiguar.

                                   Demorei a embarcar no Chama-Maré, não por falta de interesse, mas sim pela eterna mania de brasileiro de deixar as coisas para depois. Todo dia presenciava o embarque de estudantes e grupos diversos da sociedade e observava como todos desembarcavam com a mais gostosa sensação de satisfação com os ensinamentos recebidos. Um dia eu vou! E Fui.

                                   O Rio Potengi tem muitas histórias e das mais ricas. Através de suas águas Natal nasceu, cresceu, desenvolveu e se tornou essa pequena grande cidade com pose de majestade. Mas o Potengi, à medida que Natal ia criando musculatura e força, foi sendo jogado a própria sorte, maltratado, abandonado, esquecido e servindo de esgoto para a cidade que lhe virou as costas.

                                   O Chama-Maré tenta, através de seus professores, educar a cidade para a necessidade de resgatar a história e a vida no Potengi. A bordo do catamarã escola, podemos refletir e tentar reaver uma história que a muito já se foi. Nunca imaginei que tivesse uma visão tão privilegiada e narrada de forma tão convincente da cidade do Natal.

                                   Aprendi que o Potengi foi, a centenas de anos, defendido pelos índios da aldeia Igapó e que em um belo dia, um pequeno cacique de nome Potiguassu sentindo o cheiro doce da corrupção, selou com os portugueses, futuros algozes, um acordo para ocupação das terras da região e o controle da entrada do velho rio. Esses nossos caciques!

                                   Aprendi que nosso Iate Clube e o visinho, 17º GAC, foram grandes responsáveis pela mudança do leito do rio, com áreas aterradas que acelerou o processo de descaracterização de suas margens e perdendo para sempre sua identidade.

Mas, que tudo foi causado por ocupações anteriores e que deram respaldo a agressão. Esse Potiguassu!

                                   Passamos sob a Ponte Newton Navarro, avistando a grandeza de sua obra e os ecos do estimulo ao turismo e ao desenvolvimento que ela representa, mas a velha praia da Redinha, que cedeu espaço para sua construção, parece esquecida embaixo da ponte. Por onde andam os índios?

                                   Na margem oposta um pequeno coqueiral ainda tenta contar uma história esquisita de um antigo cemitério dos ingleses e do ouro escondido nas catacumbas. Do cemitério restou apenas o nome e uma aura de mistério. O ouro ninguém sabe ninguém viu, acho que nem o dono do ferro velho que existe no local sabe contar essa história. Hoje, apenas a história continua enterrada em suas areias.

                                   Do manguezal existente nas margens do Potengi, apenas a parte da vergonha ainda sobrevive, a outra parte foi esmagado em antigas salinas, viveiros de camarões e bairros ribeirinhos.

                                   Um velho e abandonado prédio branco, onde antes funcionou uma importante base militar para hidroaviões e visitada por dois presidentes para acertar uma guerra, agoniza na história com seu pomposo nome: Rampa. E olhe que a Rampa é um monumento tombado pelo patrimônio estadual desde 1990.

                                   Como a Rampa o Aterro do Salgado/Estação da Pedra Preta, jaz abandonada e nem de longe lembra a importância de sua história para a vida econômica da cidade. No meio do rio algumas pilastras de cimento esperam apenas pela ação do tempo para desaparecerem de vez do mundo. Elas eram sinalizadores para os hidroaviões que na década de 1920 chegavam por aqui. Esse Potiguassu!

O Chama-Maré avança na história e nem sinal do cacique e sua tribo. Ao longe uma ponte metálica que já não liga mais nada e parece alheia ao tempo. Apenas nas palavras de Câmara Cascudo sabemos que o natalense bebia água do Riacho do Baldo. No alto da Pedra do Rosário, Nossa Senhora da Apresentação abençoa a cidade e o rio que a trouxe: “Onde essa Santa parar nenhuma desgraça acontecerá”  

Ainda bem!

 Nelson Mattos Filho

Velejador

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O CCN VEM AÍ!

Mas afinal o que é CCN?

NAVEGANDO RUMO A COPA

Nesse artigo publicado no Jornal Tribuna do Norte, coluna DIÁRIO DO AVOANTE, a quase 1 ano atrás, comentei sobre a Copa do Mundo de 2014, que terá Natal como uma de suas sedes. De lá até aqui não vi muita coisa além do já tradicional falatório oficial. 

VIDA A BORDO – 22/06/2009

NAVEGANDO RUMO A COPA

                                   Por tudo o que já foi falado, lido, escrito e debatido sobre a Copa 2014 e suas bilionárias somas. Com a demolição, sem apelo, do Machadão, com o Centro Administrativo indo de contra peso. Acho que ainda não estamos nem engatinhando nesse assunto de Copa do Mundo. Muita bola ainda vai passar por baixo da rede e muitas faltas ainda serão cobradas de dentro da grande área. Se forem escalados juízes que não se intimidem com a torcida, acho que teremos grandes jogadas.

                                   Mas, como meu conhecimento é sobre o mundo náutico e como Natal é uma bela cidade litorânea e com forte potencial ao turismo vindo do mar, acho que devo entrar nos jogos de 2014, se possível assistindo das águas do Rio Potengí.

                                   Tenho escutado muito foguetório, muita promessa, muito delírio, muita utopia. Tenho lido até que, Natal em peso, vai falar, escrever e ler em vários idiomas.

                                   O trânsito louco que hoje se arrasta por nossas ruas, em breve vai passar por uma verdadeira transformação de competência digno das melhores cidades do mundo.

                                   Taxistas falando dois idiomas e dirigindo grandes modelos luxuosos. Motoristas de ônibus super educados, dirigindo sem solavancos, parando em todas as paradas com um sorriso estampado no rosto e pisando no acelerador com muita suavidade.

                                   Já da para ver a eficiência com que seremos atendidos nos Postos de Saúde e nos Hospitais Públicos. Médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, atendendo pacientes com o melhor dos equipamentos, com os melhores remédios, sem as eternas macas de corredores e com uma eficiência de fazer inveja. Cada paciente em um quarto e cada quarto com leitos dignos do mais alto padrão tecnológico.

                                   Mas, voltemos ao mundo náutico! Natal como cidade litorânea e com sua excelente localização geográfica, precisa voltar seus olhos de Copa do Mundo para as águas do Potengí e para o horizonte deste imenso Atlântico sem fim.

                                   Seremos invadidos, novamente, por barcos oriundos dos mais longínquos portos do mundo. Dessa vez não serão apenas holandeses, espanhóis e franceses. Nossa Fortaleza, localizada na Foz do Potengí, está inoperante para defender e rechaçar os felizes invasores. Se não sinalizarmos com investimentos, dessa vez, os navegantes serão expulsos pela falta de infra-estrutura.

                                   A marina, propagada e festejada, que poderia receber o velejador-torcedor, parece que foi torpedeada nos lemes e hoje navega sem rumo por gabinetes oficiais.

                                   Nosso Iate Clube, que apesar da boa infra-estrutura social e das confortáveis instalações, não tem fundeadouro para mais de 20 embarcações. Nem conta com píer para atender barcos de fora.

                                   O Iate Clube do Natal, precisa começar a pensar na Natal da Copa. Precisamos ter um bom planejamento das ações que possa colocar nosso clube na recepção do evento.

                                   Precisamos levar essa única porta de entrada de veleiros em Natal, para as pranchetas oficiais dos projetos da Copa 2014.

                                   Já ouvi vários comentários sobre o novo aeroporto e até sobre o aeroporto Augusto Severo, mas não vi uma vírgula sequer sobre o Porto de Natal, nem de um terminal de passageiros para navios transatlânticos.

                                   Uma Copa do Mundo envolve uma cidade muito mais do que pensam os patrocinadores de oba-oba oficiais, regados a floreios e bajulações. Não podemos focar apenas no caos que a Arena das Dunas, possa trazer para o já complicado trânsito da cidade. A falta de uma boa marina e de locais de ancoragem, também trarão dores de cabeça para os organizadores e pessoas envolvidas.

                                   Se pretendermos manter nossa já conhecida e festejada fama de bons anfitriões, deveremos fazer um bem elaborado dever de casa, acabando com as infindáveis reuniões a portas fechadas e sair dos gabinetes para conferir como anda nossos pórticos de entradas.

                                   Natal é uma bela e inesquecível cidade litorânea e pelo mar, deveremos receber um numero grande de turistas e torcedores.

                                    Que venha a Copa de 2014! Vamos esperar.

 Nelson Mattos Filho

Velejador

HISTÓRIA DA SAÚDE

Navegando no site www.popa.com.br, me deparei com uma mais um capítulo da história da saúde pública brasileira. A reportagem do Jornal Nacional denuncia que um Navio-hospital está encalhado a 19 dias no Rio Juruá, no Acre. Enquanto isso a campanha publicitária mostra um Brasil somente de sorrisos.http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2010/04/navio-hospital-esta-encalhado-ha-19-dias-em-rio-no-acre.html

QUE TEMPO É ESSE?

Faz tempo que acompanho os sites meteorológicos e ultimamente tenho acompanhado várias vezes ao dia, até porque estamos prontissimos para viajar e para quem viaja de barco saber como esta o tempo, o vento e o mar são necessidades básicas. Tem gente que acha que não é preciso e pode sair com qualquer tempo, mas prefiro ser mais cometido do que passar dificuldades em alto mar, o Avoante é nossa casa e sendo assim temos uma bela parte de nossa  vida lá dentro, incluindo o mais importante que são os nossos sonhos. O que tenho visto nas paginas desses bruxos orbitais ultimamente é uma verdadeira salada de desinformação, sou ciente que toda informação meteorológica é previsão, mas sempre tem mais acerto do que erro e por ela montamos nossas rotas. O clima no mundo mudou e mudou muito, furacões, vendavais, terremotos, ciclones, maremotos, vulcões, chuvas torrenciais, muito calor e muito pouco frio, hoje já esta se tornando banal nos noticiários. Tem até gente que acha que isso faz parte de estratégias governamentais e a grande maioria jura de joelhos que tudo não passa de sinas divinos para decretar o fim do mundo. Eu, como dependo da natureza para mover minha vida a bordo do Avoante e estou ligado a ela desde de que resolvi ser velejador, acho que ela cansou dos nossos desatinos e a partir de agora vai mostrar quem realmente manda. Não vai ser nenhum americanozinho metido a besta, nenhum barbudo se achando o cara e nenhum louco montado numa bomba nuclear que vai dar as cartas. A natureza é a senhora da razão e para isso já mudou de cara e humor. Acho que ainda vem mais por ai.

O VELEIRO E A REDE

Não é da rede de balanço, nem da rede mundial de computadores que quero falar, mas sim da rede de pesca, que tem sido um tormento para os velejadores de oceano. Hoje conversando com um amigo pescador de Recife, ele me falou da preocupação dos pescadores quando avistam um veleiro se aproximar. Já por parte dos velejadores a reciproca é mais do que verdadeira. Nada mais preocupante do que um veleiro ser fisgado por uma rede em alto mar, ainda mais a noite. Muitos velejadores se armam de um verdadeiro arsenal de guerra, foice, facões, tesouras e outras ferramentas para quando fisgados por uma rede, tentar se safar. Por outro lado, os pescadores fazem uso de bandeiras, lâmpadas, bóias, tudo para tentar sinalizar suas redes e assim se livrarem de um prejuízo. O meu amigo pescador diz que o veleiro não navega com o rádio ligado e muitas vezes a tripulação nem acordada esta. A mesma reclamação vem da turma de velejadores: “pescador não liga rádio e muitas vezes eles nem tem a bordo”. Quando eles estão na rota dos navios, sempre fica um acordado e de olho no horizonte. Uma vez escutei no rádio uma conversa de um capitão de navio com um pescador. O pescador pedindo para o comandante mudar a rota e livrar as redes e o comandante prontamente atendendo ao pedido, mas sem antes pedir o seu quinhão na pesca. Tudo não passava de brincadeira da parte do comandante, mas para mim foi uma prova da grande boa vontade de quem esta no mar. Eu nunca achei que, e de minha parte é um fato, existisse mal intenção de quem navega, ainda mais para dar prejuízo a alguém e principalmente ao pescador. Se ainda existe essa preocupação com as redes, acho que nós velejadores já devíamos ter tido uma conversa com as colônias de pesca espalhadas ao longo da costa. Não para pedir que eles deixem de colocar as redes, mas para pedir informações de como elas são colocadas, como é a localização do barco em relação a rede, padronizar a cor das bandeiras e bóias e saber quais os períodos de redes de fundo e redes de superfícies, estas as mais problematicas. De minha parte que em muitas velejadas navego na companhia do Pedrinho, amigo e pescador em Enxú-Queimado/RN, sempre procuro tirar proveito dos ensinamentos recebidos. Somente uma vez fui colhido por uma rede, e com Pedrinho a bordo, mas ocorreu no meu turno de comando. Estava muito cansado é como haviam varias bandeiras espalhadas no mar, deixei escapar uma e o Avoante foi freiado pela rede. Pedrinho levantou de pronto e já com uma faca na mão, estudou a situação e viu que não precisava estragar a rede e usou o croque para soltar o Avoante. Vale lembrar que nas Cartas Náuticas as áreas de pescas sempre estão sinalizadas e quem navega no meio delas tem mais é que ficar atento ou alterar o rumo. O pescador também tem que ficar atento, investir um pouco mais no seu meio de vida e sempre colocar lâmpadas para sinalizar o material de trabalho. Agindo assim todos saem ganhando.

COISA BOA DE VER