A CIDADE VISTA DO COCKPIT


                                                                           

                                      Adoro ficar horas sentado no cockpit do Avoante e observar a vida que corre em volta. As palavras soltas que são trazidas pelo vento. Os cheiros da cidade. As cores da luz do sol. As nuvens e suas formas que voam preguiçosamente no Céu. A lua que nasce e que desperta tantas paixões. As pessoas que param diante da magia do mar e ficam em estado de oração, tamanho é o encanto. As crianças que se encantam com os barquinhos e navios que entram e saem do porto. Esses momentos eu não troco por nada. Como é bom observar! Como é bom estar em paz com a vida!

                                   Muitas vezes me pego rindo por dentro, do rosto espantado de pessoas quando descobrem que nossa casa é um barquinho apertado e sem os confortos básicos de uma casa. Cadê a geladeira? Cadê o chuveiro elétrico? Cadê a televisão? Cadê o guarda roupas? E esse balançado? Como vocês se acostumam a isso? Eles moram num barco? Onde?

                                   Do meu espaço no cockpit consigo ver isso e muito mais. Talvez se eu estivesse na varanda de um apartamento ou de uma casa, essas coisas não me chamassem tanta atenção.

                                   O cockpit é meu trono de transe e observação, dali o mundo se move em outro ritmo. Dali a vida é determinada pela enchente e pela vazante da maré e os ciclos da natureza. Dali, posso ver o vento e sentir o afagar de seu acalanto. Dali, sinto a beleza de uma chuva forte e tento, em vão, me resguardar dos respingos de vida de suas águas. O barco balança muda um grau de posição, e um novo mundo resplandece na paisagem.

                                   O barco esta parado, mas a bussola indica uma nova posição. Os sons e os lamentos da cidade invadem meu espaço. De onde estou não posso ver, mas sei que a cidade pede socorro. Apenas observo, o ar que flui no redemoinho louco da vida urbana que pede clemência.

                                   A cidade não é mais a mesma. A cidade esta abandonada, ela parece não ter dono. E não tem mesmo! Ela se perdeu nos meandros de subterrâneos lamacentos e fedidos. Os esgotos dos seus salões se materializam em línguas negras que escorrem em suas ruas, vielas e nas areias de suas praias. Os esgotos têm cores, são verdes, vermelhos, amarelos, azuis, brancos e até coloridos, mas dificilmente chamam atenção. Eles não são invisíveis, mas a cidade parece não saber de sua presença.

                                   Mais uma vez a correnteza muda o barco de posição e o vento traz do alto de uma ponte o lamento e o vôo dos desesperados. Do alto de sua imponência, vem a promessa do progresso e qualidade de vida. Pelos seus estais à beleza se espalha, mas, uma aura de angustia sufoca entre toneladas de cimento e brita as promessas maquiadas de vergonha.

                                   Agora são barulhos de fogos de artifícios que ecoa em meu pequeno espaço. O que será que a cidade comemora? Será um novo circo que chegou? Será a comemoração de uma nova vida que chega? Será a alegria extravasada de alguém? Será um gol de placa ou a vitória de um time? Nada disso! São avisos de que a cidade perdeu a guerra e se esfacela entre pedras de brilhos luminosos e a vida fácil e ultra-rápida de pequenos zumbis esquecidos e jogados a todo azar.

                                   Não escuto mais os fogos, o barulho agora é surdo e estalado, a guerra agora é real, a cidade realmente esta perdida. A avoante se encolhe e parece não querer seguir o rumo da correnteza. Será que essa vida que se foi vai passar pelo rio, ou o será que o rio vai ser preservado. É a guerra! A cidade se cala, fecha os olhos e vira as costas. A cidade esta sem dono!

                                   No cockpit, fecho os olhos e tento dormir, mas a cidade geme e consigo escutar seus gemidos. Esta não pode ser minha cidade! Esta nunca foi minha cidade! Minha cidade era outra! Minha cidade era alegre e tinha toda a paz do mundo. Será que a vida a bordo desse pequeno e feliz Avoante, esta confundindo minha mente?

                                   No cockpit o sol bate em meu rosto. Abro os olhos e vejo que o dia amanheceu. Será que eu dormi? Será que era um sonho? Mas, cadê a minha cidade?

                                   Tenho que velejar! Preciso velejar! 

Nelson Mattos Filho

Velejador

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s