Arquivo do mês: fevereiro 2010

PIRATAS ATACAM NO PARÁ

Em quinze dias dois barcos de pesca de camarão foram assaltados em alto-mar na costa do Pará. O segundo assalto aconteceu sexta-feira, 19/02, quando 20 homens, fortemente armados, a bordo de um barco super veloz, atacaram a embarcação Maguary quando esta navegava a 12 milhas do litoral de Belém. Além das 5 toneladas de camarão rosa avaliados em R$ 150 mil, foram roubados GPS, eco-sonda, 10 mil litros de oléo diesel, pertences dos tripulantes e até a alimentação. Os piratas sabem que a legislação brasileira não alcança os casos de pirataria. Nenhum orgão se acha responsável para proteger ou mesmo policiar o mar. A Marinha do Brasil até que tenta fazer um trabalho de orientação, controle e fiscalização, mas sua responsabilidade não ultrapassa essa linha. Quando ocorre um caso de roubo, assalto e latrocínio a situação fica mesmo na boa vontade de policiais civis ou militares que mesmo sabendo que estão fora de sua área de atuação ainda assim se esforçam um pouco. Isso quando a ocorrência acontece numa ancoragem ou em águas abrigadas. Quando acontece um caso de pirataria, como o ocorrido com a embarcação Maguary, em alto-mar, o jogo de empurra é flagrante e quase sem solução. Tenho visto barcos da Polícia Federal navegando por ai, inclusive patrulhando os Parrachos de Pirangí, de um departamento chamado DEPON ou NEPON, não me lembro agora, que dizem ser o orgão que vai comandar a guarda costeira brasileira. Tomara que isso seja verdade e que possamos ter alguém a proteger o cidadão que faz uso do mar para seu trabalho ou laser. Se não houver uma reação policial efetiva por partes dos orgãos públicos, em breve estaremos vendo cenas muito parecidas com a que vemos no mar da Somália. 

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MAIS UM CARNAVAL QUE PASSOU

                                   Por causa de uma irritante, insistente e dolorida hérnia de disco cervical, estamos obrigados a ficar ancorados no Iate Clube do Natal mais tempo do que pretendíamos. Como já falei no artigo anterior, são as doenças do corpo de quem não podemos fugir nunca, apenas esfriar a cabeça e fazer o dever de casa na esperança de que o corpo volte a funcionar nos conformes. Principalmente para a gente que vive a vida a bordo de um veleiro, a saúde é mais do que essencial.

                                   Mas, a verdade é que quem tem essa vida meio nômade, navegando em busca de sonhos, aventuras, ilhas perdidas, conhecimentos, culturas e muita sede de um mundo em paz, livre e justo, não é qualquer hérniazinha escambichada que faz com que a vida fique estagnada. Ainda mais quando clarins, tambores, cuícas e apitos anunciam a chegada do Carnaval e todo seu reinado de alegria.

                                   Foi assim que fechamos as gaiutas e vigias do Avoante e ganhamos o mundo em busca de um Carnaval que batia em nossa porta.

                                   Pegamos o rumo das estradas do litoral do Rio Grande do Norte, no sentido das praias do norte. Fazia muito tempo que não tomávamos esse rumo, mesmo tendo uma casa na praia de Enxú-Queimado/RN, e ainda mais num período sob as ordens e encantos de Momo e sua bela rainha.

                                   Não sei se essa vida náutica deixou a gente mais exigente, ou se ficamos mais chatos com certas coisas, mas até o Rei do Carnaval e toda sua expansiva e alegre forma avantajada, sucumbiu aos apelos do politicamente correto e perdeu seu apelo mais alegre e engraçado, a cativante gordura, elementar para o Rei dos excessos dos prazeres da vida. Mudou a cara alegre do Carnaval e até as Colombinas e Pierrôs já não se atrevem a sair às ruas.

                                   Voltemos ao nosso corso carnavalesco pelos recantos litorâneos da terra de Poti. A primeira parada foi na praia de Pititinga para sentir toda a beleza ingênua de uma praia e confirmar que o mar continua cobrando a parte que o homem quis abocanhar na sua sanha invasora.

                                   Pititinga, retirando os escombros indecentes da invasão do homem, é um cartão postal de beleza e tranquilidade. Por lá, não sei se pela cobrança do mar ou se por medo do homem, ainda existe paz e tranquilidade pairando no ar. Uma inocente leveza nos visitantes, veranistas e caiçaras. Chegamos lá na manhã do Sábado de Carnaval e saímos ainda com o sol alto de uma tarde que prometia muita chuva. Se minha avaliação da praia não prevaleceu durante o Carnaval à culpa não é da bela Pititinga, mas de um mundo que pulsa e transpira incerteza, ilegalidade e indiferença.

                                   De lá, seguimos no rumo da praia de Enxú-Queimado e seu encantado e belo coqueiral. Sempre gostei de Enxú-Queimado, foi lá que descobri um mundo de pessoas boas, leais, cordiais e de extremo calor humano. Mas, nesse Carnaval, a praia de nome exótico e cativante me pareceu sem identidade e sem as características da outrora vilazinha de pescadores.

                                   Os sons que se expandiam no ar, os escombros abandonados na bela beira mar, a latada de um palco de aspecto duvidoso e com bandas se apresentando com repertório tão igual, que mais parecia um CD. Uma noite mal dormida e a alvorada com sons saídos da má educação de porta malas escrachados e sem o mínimo controle da ordem pública, foi à gota d’água para fazer o rumo de volta. Sei que tudo isso não foi, nem nunca será, típico da bela Enxú-Queimado, mas da nova ordem nacional que faz populações inteiras reféns de uma minoria sem Leis.

                                   O Carnaval seguia seu rumo e nós também na lembrança das antigas bandinhas de um passado recente. A estrada de volta estava triste, mas livre e sem excessos. O que será que se passava na bela Pititinga? O que seria da antiga vilazinha selvagem de Enxú-Queimado? Para onde ir agora? Fugimos do litoral e fomos em busca das águas doces da Lagoa do Bomfim.

                                   Lá, onde ficamos, não havia Carnaval, apenas os ecos que saiam de uma televisão que, vez em quando, batucava sons de uma festa muito longe dali. Lá os ventos traziam urros de um leão que não vi a cara, porém muito presente naquela aragem.

                                   Lá fora era Carnaval, mas a natureza não dava sinais de sua presença. Por onde tocava o clarim? Por onde andava o Rei Momo?

                                   Acho que preciso velejar!

 

Nelson Mattos Filho

Velejador

VELEIRO FILOS-SUFOCO EM MANGUE SÊCO

O veleiro alagoano Filos, do amigo Eugênio, passou sufoco na Barra de Estância, ponto de entrada para a bela Mangue Sêco. Fortes ventos e problemas no motor fizeram a tripulação alagoana passar horas de verdadeiro inferno, chegando inclusive a se preparar para abandonar o barco que encalhou num banco de areia. Por sorte o amigo Daniel do veleiro TikTak, que não poupa esforços para ajudar um amigo, estava em Terra Caída e saiu em socorro do Filos e seus tripulantes.  Hoje o Filos descansa tranquilo em frente a bela Terra Caída/SE e seu capitão e tripulantes já estão em Maceió em paz e com saúde.

VELEIRO NAUFRAGA NA COSTA CARIOCA

Um veleiro escola canadense naufragou nesta Quinta-Feira a 300 milhas da costa do Rio de Janeiro. O veleiro com 60 pessoas a bordo enfrentou fortes ventos, mar bravio e afundou. Os tripulantes que passaram para balsas salva vidas, foram resgatados por navios mercantes que estavam navegando na área e duas por Fragatas da Marinha do Brasil destacadas para socorro das vítimas. O veleiro Concordia partiu do Canadá em Setembro de 2009 e deveria retornar para casa em 26 de Junho. O veleiro fazia parte do programa West Island College International de uma instituição de ensino canadense.

AMERICA’S CUP-AS ÁGUAS AINDA VÃO ROLAR

Acabo de saber que muitas águas, agora com cor e cheiro podre, ainda vão passar entre os cacos dos barcos Alinghi e BMW Oracle. Essa 33ª America’s Cup ainda vai entrar para a história como a menos esportiva. Agora o chefe dos árbitros, o neozelandês Harold Bennet, acusa a equipe Suíça da Alinghi de querer sabotar a prova. Ele denunciou que dois representantes da equipe Suíça, que estavam no barco da comissão de regatas durante a segunda prova, abandonaram seus postos nas bandeiras de largada e ainda tentaram influenciar a comissão de regata a cancelar a largada alegando muito vento e mar mexido. Somente não houve maiores consequências, porque um representante da BMW Oracle e o piloto do barco da comissão foram convocados para dar a largada e cuidar das bandeiras da CR. A denuncia é muito grave e querer uma rigosa e severa investigação, com punição aos culpados. O esporte a vela não merece esse tipo de atitude. Com a palavra a ISAF! 

“INQUILINOS” DO CLUBE

Os dias e as noites no Iate Clube do Natal estão bastante movimentados, já não bastasse o grande movimento do Projeto Pôr-do-Sol do Potengí, que movimenta o clube de Terça a Quinta-Feira, contribuindo para dar uma cara mais alegre aos meses de Janeiro e Fevereiro, que outrora eram meses de muito pouco movimento no clube. Nos últimos dias não estamos tão sozinhos durante as noites e madrugadas no pier. Foram raros os dias em que não tivemos 3 barcos de fora ancorado em frente ao clube e no pier, além de nós do Avoante que estamos na vaga do veleiro Musa, do comandante Erico Amorim, dois outros barcos formam uma animada e solidária vizinhança. Temos como vizinhos o casal de suíços do veleiro Baja e o amigo Alemão, mas que de alemão não tem nada, da lancha Miss Mares 38, que esta passando mais uma temporada de pesca oceânica em Natal e, como bom homem do mar, não dispensa o conforto de sua bela lancha em favor de uma pousada.  

VISÕES DE UM DEVOTO NAVEGANTE

                                                                     

                                    Não sei o que é pior, se as doenças da alma ou se as do corpo. Quando viemos morar a bordo viemos em busca de jogar no mar as doenças da alma, o stress, as chateações, os mal entendidos, as agruras cotidianas que a cada dia se tornam mais agressivas, sem limites e, que é pior, sem soluções.

                                   Ao longo de nossa vida a bordo do Avoante, já atiramos no mar uma boa parte dessa carga acumulada, mas ainda falta muita coisa. Um dia a gente chega lá!

                                    As doenças do corpo, essas ficam muito difíceis da gente se desvencilhar. Até porque no decorrer dos anos vamos ficando com a validade vencida e assim o corpo vai precisando cada vez mais de manutenção. Isso é a vida!

                                   Mas vamos deixar de conversa fiada é vamos partir para o nosso Diário, mas se não fosse umas dores do corpo, que me atormentam há dois meses, o nosso Diário teria uma cara muito mais alegre, cheio de aventuras, lugares que lavam a alma e muitas novidades para o prazer de todos nós.

                                   Fui presenteado com uma hérnia cervical que vem tirando minha paciência e me amarrando cada vez mais em terra. O Avoante já me olha meio atravessado, tentando decifrar meus pensamentos e a cada vez que me sento à mesa de navegação o sinto fazer alguns alongamentos, na esperança de que dali saia à ordem para levantar âncoras e içar velas.

                                   Mas, a vida segue o seu rumo e com navegadas ou sem navegadas, a verdade é que continuamos fiéis ao nosso mundo náutico e a cada dia renovamos as nossas esperanças nessa vida que bem escolhemos.

                                   A cada dia que amanhece e que acordamos sobre as águas do Potengí, presenciamos a vida que se renova nessas águas tão incompreendidas pelo homem da cidade.

                                   A cada dia que se vai, somos brindados pela magia e todo esplendor do Pôr-do-Sol sobre o Potengí, num dos mais belos espetáculos de nossa cidade. Uma dádiva da natureza, numa demonstração de sua incrível paciência e tolerância com seus agressores.

                                   Do cockpit do Avoante, nos chega os aromas coloridos da praia que dá as boas vindas ao navegante que adentra o Porto de Natal. A praia da Redinha com seus peixes fritos com tapiocas, suas tainhas deliciosas e seus cajus mais doces. O gosto forte e saboroso da cachaça e o refrescante sabor de uma cerveja bem gelada nos boxes do Mercado.

                                   Plantada nas areias de uma praia que agoniza espremida entre o progresso torto de uma ponte e a beleza da história que ainda ecoa por entre as pedras de uma fortaleza brilhante como a própria estrela dos Reis Magos, avistamos do nosso pequeno espaço, as pedras negras da Igrejinha da Redinha. De lá, uma Nossa Senhora dos Navegantes espera pacientemente a comemoração do seu dia para poder sair de sua redoma e ver com seus olhos, bem abertos, que as promessas dos homens não passam de palavras jogadas ao vento.

                                   Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira dos homens do mar, Mãe dos pescadores e Senhora amada pelos nativos e antigos veranistas de uma Redinha esquecida, mas que de tão simples e apaixonante ainda resiste ao mundo e aos homens que acham que tem o poder.

                                   Do Avoante, vimos Nossa Senhora dos Navegantes, num Domingo de festa, sendo cortejada e levada num dos seus barquinhos, pelas águas de um rio que sempre a acolheu. O seu dia foi festejado com todo fervor por aqueles que reconhecem a sua força e sua bondade.

                                   Faltou a pompa e alegria de uma Banda de Música da Marinha, que em anos passados sempre se fazia presente, mas este ano vimos crescer o número de embarcações a seguir a Santa padroeira. Eu contei 23, poderia ser mais, mas foi bem maior do que as 11 do ano anterior e com certeza bem menor do que as que não quiseram prestigiar a Santa e foram se esbaldar nuns Parrachos para lados de Pirangí. Não acredito que a Santa castigue os navegantes, mas a coisa não anda bem para os lados da bela Pirangi. Foi muita coincidência!

                                   Pedi minhas melhoras a Santa e acho que ela vai conceder.

 

Nelson Mattos Filho

Velejador